O Conservador Tecnológico O homicídio, o possível racismo e um Brasil sem rumo moral

O homicídio, o possível racismo e um Brasil sem rumo moral

Enquanto muitos utilizam o caso de João Alberto com fins ideológicos e políticos, poucos fazem a necessária investigação que poderia levar a sociedade brasileira a um patamar mais civilizado. 

Protesto contra a morte de João Alberto, espancado por seguranças do Carrefour

Protesto contra a morte de João Alberto, espancado por seguranças do Carrefour

GABRIELA BILó / ESTADÃO CONTEÚDO - 20.11.2020

Sim. Você já sabe que sou conservador. E como tal, tento sempre ser prudente, cético e no empirismo e investigação buscar uma solução ou posição mais adequada. Por isso, não se surpreenda se em algum momento meu texto não for de encontro às suas opiniões. Não se entristeça ou fique bravo se discordarmos. Eu não escrevo para a audiência. Respondo tão somente à minha consciência. 

O brutal homicídio de João Alberto deve ser punido severamente. E acredito que será. Aqueles que tentam alegar qualquer coisa que seja, pelo fato de que ele deu o primeiro soco - ao menos pelas evidências nas imagens, tentam justificar o injustificável, que é a animalesca atuação dos seguranças e funcionários da rede reincidente Carrefour, na proporção covarde de três contra um. Na verdade há anos sabemos que este tipo de síndrome de pequeno poder toma conta em supermercados, padarias, bancos, órgãos públicos entre outros. Um dos fenômenos responsáveis por isso é a própria situação econômica e social do país SIM, que promove empregos de baixíssimo salário, com pouca formação técnica (culpa da empresa no caso e não do empregado desesperado) e nenhuma avaliação emocional competente. Uma sociedade que cresce em "V" no caminhar da falência ética.

Mas confesso que ainda tenho dúvidas se o caso foi de racismo. E não, não farei como o presidente da república e seu vice (que muitas vezes elogiei em meus textos e análises) de negar o racismo no Brasil. Ele existe, é tão poderoso e silencioso quanto o próprio demônio e nossa sociedade anda em uma fase esquisita, em que no período mais moderno da história global, se recusar a fazer as revisões históricas e comportamentais necessárias para avançarmos decentemente. Lembro aos de bandeira ideológica e radicais de esquerda e direita, que no passado, tanto progressistas quanto conservadores, eram escravocratas. Nos EUA, NA Inglaterra, no Brasil. Onde vocês quiserem. Basta ler o mínimo de história para saber que não se deve tratar o assunto como bandeira de partido ou de pensamento político. Isso é uma vergonha. E vergonha também o é para quem apóia. Deveríamos tratar o racismo como uma causa nacional, um câncer de verdade, que corrói nossa possibilidade de viver bem em sociedade e que importa a todos. 

Tenho fé que as novas gerações, sobretudo a segunda metade da geração Z (anos 2000) e Alfa (nascidos a partir de 2010) já terão este tema bem resolvido. Mas negar o racismo é o mesmo que negar o holocausto. É o mesmo que negar a pandemia. É o mesmo que negar que a Terra é redonda (ou meio ovalada). É o mesmo que negar que a cultura machista brasileira mata milhares de mulheres todos os anos. Aos das gerações anteriores as que citei, que vão da minha, nascida em 1980 (milênio) para trás (e obviamente aqui cito o presidente Bolsonaro e o vice Mourão), lembro que crescemos sim ouvindo frases que hoje, na racionalidade de uma evolução de pensamento, são inaceitáveis. Inaceitáveis para uma sociedade decente, claro. Vou relembrá-los e aos leitores também, ainda que doa escrever ou mesmo ler, para alguns:

"Este(a) aí parece um rolo de fumo", "Preto, quando não faz m$%^na entrada, faz na saída", "Tiziu", "Tição", "Macaco", "Bola 7". No trânsito, a clássica "Preto filho da pˆ%$#". Você já xingou alguém de "Branco filho da p*&ˆ" ??? "Cuidado, ele não é da mesma cor que você" "Chama a Mucama" "Não sou racista, tenho amigos(as) negros (as)", "Não sou racista, já namorei ou beijei alguém negra(o)"....Isso sem falar em expressões e palavras criadas ao longo do tempo e que refletem sim o caráter racista de nossa sociedade. "Criado Mudo", "Magia Negra", Inveja branca" (esta é inexplicavelmente positiva), ou nos programas de TV, como os Trapalhões, entre dezenas, que faziam centenas de piadas com o Mussum por exemplo. Ele próprio fazia. Ainda hoje, stand ups de comédia fazem muito isso. Mas isso impede que eu faça uma reflexão RACIONAL sobre isso estar ou não certo? Sobre o bem ou mal que isso causa à sociedade? Aqueles que alegam mimimi são os mesmo imbecilóides que promovem fake news ou desinformação nas redes sociais. Abra seu olho. 

Deixa eu contar uma coisa para você. O Brasil, não vai andar para frente porque somos uma tragédia como sociedade. Você acha isso duro demais? Louco demais?Olhe a sua volta e saia da maldita bolha em que você vive. Nossos irmãos (não importa quem sejam) sofrem e você não está nem aí. Aliás, sobre rcismo duas das frases mais incrívesi que já ouvi vieram do músico Emicida: "O racismo não vai ser convencido intelectualmente" e "Não se negocia com o Tempo. A história só se vive para a frente". Somos negacionistas porque nos recusamos a evoluir !!! Veja o absurdo. Todos, repito, todos os nascidos até a década de 90, já tiveram, pelo menos uma vez atitudes racistas ou preconceituosas. No mínimo. E este traço do comportamento da sociedade brasileira deve ser apagado, combatido por todos e não por bandeiras promiscuas políticas que se utilizam destes (sim, são vários) momentos de dor para aparecer. Aliás, parabéns à família da vítima (mais uma né Carrefour) por se posicionar contra o uso político do homicídio de João Alberto. Mas volto ao crime bárbaro.

Não me parece ter sido racismo. Ao menos com os fatos e evidências de hoje. Preconceito? Pela forma de se vestir e portar? Muito provavelmente sim. Fruto dos treinamentos pouco qualificados que os prestadores de serviço recebem. Aliás, muitas vezes a própria polícia age assim (em que pese eu ser admirador do trabalho policial, que em sua esmagadora maioria é bem feito sob as condições de temperatura e pressão que vivem - e aqui, quando morre alguém fzendo bem o seu trabalho, não temos manifestação alguma por parte de ninguém. Mais um traço de uma sociedade hipócrita e falida moralmente). E explico porque também deveríamos pensar se foi ou não racismo. Ajuda, na lógica dos que defendem que foi racismo, o fato de que a própria cultura gaúcha tem traços profundos que perduram sobre este tema. Talvez mais do que em qualquer região do país. Fato. Que reforço, as novas gerações já combatem isso também. Mas o supermercado recebe milhares e milhares de pessoas todos os dias. Não me parece provável que escolheram um, a dedo, nas vésperas do dia da consciência negra e resolveram matá-lo pela sua cor. A lógica não nos permite cominhar por aí.

Analisando as imagens e fatos até o momento, houve sim algum tipo de discriminaçao pela forma de vestir, falar, se comportar, que chamou a atenção dos funcionários após uma breve (segundo relatos) confusão no caixa. Isso nunca deveria resultar em tentar retirar o consumidor do local. Nunca. Mas foi feito. E a partir do momento em que há um soco, a barbárie toma conta. A irracionalidade impera e a tragédia se faz presente. Já vi isso acontecer em festas, casas noturnas, comércio. E sei que muitos de vocês também já viram. Pode ser que, ao final da investigação se confirme a prática racista. Mas me parece cada vez mais improvável que ela se comprove.

De qualquer forma, o discurso dos presidentes mundial e local do Carrefour pouco importam. Eles não farão nada e os dividendos permanecerão caindo em suas já milionárias contas. As falas do presidente Bolsonaro e do vice Mourão também devem ser veementemente reprovadas. Basta uma rápida pesquisa no Exército brasileiro para sabermos quantos generais 3 e 4 estrelas temos entre brancos e pretos. E não me venham com discurso de meritocracia. Sabe por quê? Porque pensamentos retrógrados matam a meritocracia todos os dias. 

A maior lição que todos nós devemos tomar deste caso é:

Nunca, de forma alguma, deixe de interferir quando perceber que algo ocorre fora da justiça e do que é certo e legal. Nunca. Sendo brutalidade pura e simples ou racismo, a culpa é nossa. Todos os dias a culpa é nossa quando não combatemos isso nem mesmo dentro da nossa casa ou entre nossos amigos. Que as próximas gerações não cometam o mesmo erro da nossa. Que tenham coragem.

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