O Rei, o povo, os bobos da corte e as lições bíblicas

A riqueza atemporal dos textos bíblicos nos faz refletir sobre quanto conhecimento é necessário adquirir para perceber as obviedades da política atual. O ontem se torna hoje. Sempre.

Um rei cego pelo ódio

Um rei cego pelo ódio

Correio do Povo

Hoje escreverei uma crônica baseada no texto bíblico de Provérbios. É impressionante como a sabedoria das escrituras consegue, muitas e muitas vezes, transpassar o mundo imaginário e nos colocar no centro da realidade, ainda que dura. Espero que gostem.

Uma nova corte foi montada. Depois de um período sombrio, de gastos descontrolados e corrupção institucionalizada, a expectativa em torno dos novos tempos era enorme. Em qualquer lugar se ouvia falar de moralidade, combate a corrupção, crescimento econômico e um período de bonança e prosperidade. Para auxiliar o Rei, pessoas foram escolhidas a dedo. Apenas um problema. O período descrito acima ainda não chegou, alguns escolhidos a dedo já saíram da corte, possíveis casos de corrupção (seja ela qual for) passaram a ser assoviados nos cantos do palácio. O rei, com seu ego inflado, passou a ser engado pelas pessoas mais próximas. Todos riem.

Ele observa seu trono e sabe que ele é grande demais para si e seu pouco conhecimento, mas como acreditava ser o escolhido por Deus, azar de quem o critica. O incômodo passará e ele tentará aniquilar as "forças do mal" que lhe afligem. Não seria sua própria alma a lhe pregar uma peça? Estão todos errados. Ó mídia maldita e sem preparo. Línguas ferinas que só buscam a sua desgraça. Cascavéis demoníacas. Ele olha pela janela de sua sala trabalho e não vê nenhuma manifestação. Não vê pessoas necessitadas. Acredita então que o povo esta contente e que ele bem governa. 

Decide então pela tática do confronto, do medo. Afinal, Maquiavel dizia que o príncipe deveria ser temido. Sim, existem outras considerações no livro, mas ele leu apenas esta. Só que então, tropeça no esquecimento das lições bíblicas. Para cada bobagem que falava e se comprovava o contrário, ao invés de ter humildade e reconhecer o erro, reforçava a aposta na afronta. Por isso sofre:

"Vês um homem precipitado nas suas palavras? Maior esperança há para o tolo do que para ele." Provérbios 29:20

Passa a conjecturar que querem lhe tirar do trono. Olha para todos e vê apenas a maldade. Mas não enxergava o mesmo nos seus bobos da corte, que aproveitam sua falta de conhecimento para enganá-lo. Passam-lhe a imagem de um reino próspero, unido, mas já estávamos divididos. 

"O governador que dá atenção às palavras mentirosas achará que todos os seus servos são ímpios." Provérbios 29:12

Uma dúvida lhe racai. Em um breve momento de sabedoria, decide ir às ruas e ver com seus próprios olhos. Está tudo perfeito demais. Será que está correto? Mas sempre que sai do palácio, é com um roteiro, com pessoas que sempre baterão palmas. Não existe racionalidade na loucura. Mas ele acredita. E alguns na sua corte e mesmo de seu povo, passam a questioná-lo. Afinal, se nosso governante é bom, é justo, por quê sofremos? Deus nos abandonou? E a resposta, mais uma vez, pode estar nas escrituras.

"Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme." Provérbios 29:02

Ó reino das bananas. Estaria Deus triste com nosso povo por usar seu nome em vão? Por mais que outras forças tentassem aplacar a fúria do rei, ele permanecia impassível. A ira, a soberba, a inveja e a preguiça tomavam, cada vez mais, conta do reinado. Na corte, as questões econômicas passaram a ser mais urgentes. Sim, não o bem estar do povo, mas a saúde financeira do reino. Mas havia um problema. O senhor nomeado pelo rei para a economia parecia não gostar dos pobres. Não havia nenhuma preocupação com a situação destes, salvo porque, caso estivessem bem, poderiam contribuir para os caixas do reino. Não havia um planejamento, nada. Mas o rei, obcecado pela sua ideia de ser "o escolhido" acreditava unicamente em quem tinha mais conhecimento do que ele. Pobre ilusão promovida pela ignorância. E mais uma vez, as escrituras parecem achar palavras divinas para substituir a muitas vezes vã sabedoria da corte. 

"O justo toma conhecimento da causa dos pobres; mas o ímpio não tem entendimento para a conhecer." Provérbios 29:07

Com a situação piorando, o rei busca apoio em seu meio de origem. Por um momento, o glamour e a luxúria do poder faz com que parte das forças de segurança participem do teatro. Mas você tem direito a sua própria opinião. Não aos seus próprios fatos. E a realidade passa a ser soberana no reino da loucura. Enquanto o rei imprime um ritmo de ira, o vice rei aparece e tenta, por vezes explicar de forma branda o que o ódio não permite exprimir em palavras. Mas ele também, mesmo leal, é chamado de conspirador. Que sorte não vivermos nos tempos da guilhotina. E mais uma vez recorro aos textos sábios:

"O tolo derrama toda a sua ira; mas o sábio a reprime e aplaca." Provérbios 29:11

Inteligentemente, as forças de paz decidem estar ao lado do povo da nação. Já perceberam que a loucura não pode reinar sobre a racionalidade. A corte parece rachada, onde os bobos tem toda a ascensão sobre o rei e influência em seus atos impensados. Mas há uma esperança. E ela também vem dos textos que me inspiraram a escrever este.

"A soberba do homem o abaterá; mas o humilde de espírito obterá honra." Provérbios 29:23

A moral desta história é simples. Não basta usar uma pulseira com escritos bíblicos para ser uma pessoa de Deus. É a prática que determina se você é merecedor da salvação ou não. O rei não está nu, mas já perdeu boa parte das roupas que lhe garantiam o respeito da nação. Escolhido, só existe um. E esta escolha foi feita há mais de 2000 anos e não em 2018.

Últimas