Pantanal e Amazônia: mais que uma conta econômica

Mesmo com uma argumentação plausível, em parte, o governo federal precisa fazer mais quando o assunto é meio ambiente. As perdas serão maiores que acordos bilaterais como UE-Mercosul. Perderemos o futuro.

Onça pintada com patas queimadas e voluntária no combate ao fogo em 2020 no Pantanal.

Onça pintada com patas queimadas e voluntária no combate ao fogo em 2020 no Pantanal.

Reprodução/Razões para Acreditar

Antes de mais nada já aviso que concordo com parte da argumentação do governo em relação às ONGs e sua presença na Amazônia. Já tenho este entendimento há muito mais tempo do que se imagina. Não se trata de teoria da conspiração não. Por décadas, grandes nações tem usado o trabalho supostamente humanitário de ONGs internacionais para Biopirataria e mesmo espionagem industrial e para fins de estratégia geopolítica. Por anos o Brasil se acovardou em debater o tema. Então, em relação à presença de ONGs, sobretudo na Amazônia, o governo tem boa, mas boa parte mesmo de razão. Aliás, gostaria de ver o trabalho destas organizações no sertão nordestino, no cerrado e mesmo no Pantanal. Existe sim um objetivo muito maior da presença massiva deles apenas na Amazônia.

Dito isto, quero passar para você minha opinião sobre as queimadas e o impacto financeiro para o Brasil. Antes, porém, deve-se sim descontar desta análise o fato de que as queimadas ocorrem todos os anos, em maior ou menor quantidade e volume e que para isso, o período de seca não só atrapalha, mas também contribui para que elas se espalhem. Sim leitor, em boa parte, dependemos da chuva para aplacar este sofrimento. Aliás, nos últimos 20 anos, estas são as maiores queimadas nos EUA, Austrália e Brasil. O problema é que enquanto temos 25 espécies de plantas e árvores por hectare nas florestas da Califórnia por exemplo, na Amazônia este número salta para 300. 

Mas existem outros fatores que tem contribuído bastante para o atual cenário de aumento de queimadas - segundo o INPE, um aumento de 28% entre julho de 2019 e o mesmo mês em 2020. Um deles é a complacência com criminosos ou desmatadores, que acreditam precisar deste expediente para ter mais "terras". E aqui, a política do governo federal pode sim ser reputada como um dos principais fatores dos números ruins. Por que? É o governo que coloca fogo lá? Não, claro que não, mas é ele que tem "passado um pano" gigantesco para estes criminosos. A diminuição dos recursos empenhados contra as queimadas, falta de recursos para fiscalização, bem como a inexistência de um planejamento sério, que tenha métricas e possa comprovar resultados, faz do governo Bolsonaro cúmplice neste desastre. 

E veja, isso não tem a ver com defender ou não o agronegócio. Estamos falando de criminosos e ponto. Não sou eu quem diz isso. São as Leis brasileiras. O estrago que estamos vendo no Pantanal talvez seja o maior da história local. Muito sempre se falou da Amazônia e pouco do Pantanal (ao menos em muito menor escala). Pantanal, leitor, que é a maior planície de inundação do mundo, com 250 mil km2. Só quem vive lá ou esteve por breves momentos, consegue compreender o que estamos perdendo. A maior parte das pessoas com condições financeiras, se você perguntar, não dirá que quer visitar o Pantanal ou a Amazônia. Sobretudo as novas gerações. Querem ir para a Disney, Nova York, Paris, Amsterdam, África do Sul, Nova Zelândia. Problema zero. Cada um tem o desejo que quiser, mas isso certamente nubla a análise em um cenário tão importante como o que estamos vivendo. Você assiste programas nos canais internacionais falando da fauna e flora de lá, santuários de elefantes, gorilas, rinocerontes. Faz doações para o ONGs de preservação destes locais e dorme tranquilo. Mas não está nem aí para a onça pintada, o veado-campeiro ou catingueiro, a anta, o tamanduá bandeira, os jacarés, a ariranha ou a arara azul grande. O brasileiro não liga para o que tem nas maõs. Se você não se importa ou não se emociona em ver as fotos do Pantanal sendo destruído, você não pode ser considerado brasileiro. Me perdoe. Quiçá pode ser considerado um ser humano decente.

Mas vamos rapidamente para o lado econômico. Agora, a União Européia ameaça romper o acordo UE-Mercosul. Um acordo que beneficiaria a economia brasileira em centenas de bilhões de euros a médio prazo. Tudo capitaneado pelas opiniões do presidente francês Emmanuel Macron, que a bem da verdade, sequer está preocupado com o meio ambiente brasileiro. Usa as queimadas e nossa incompetência, para proteger os interesses dos pequenos produtores franceses (desde o começo das negociações finais, ainda no governo Temer, este sempre foi o seu desejo. Macron morre de medo da entrada de produtos agro brasileiros na Europa. Esta é a verdade). 

Mas isso não significa que não estejamos errados. Em alguns pontos, o governo federal e o presidente Bolsonaro precisam ouvir mais a razão do que acreditar em uma guerra ideológica. Precisamos apresentar um plano decente de desenvolvimento econômico com os estados da região amazônica e da região pantaneira (o que nunca foi feito). É necessário combater desmatadores e bandidos que botam fogo (literalmente) na floresta, as vezes inclusive, por ganhos financeiros marginais. É fundamental entendermos como usar as florestas de forma sustentável, para o Turismo, a geração de trabalho, emprego e renda e por que não, também para a expansão industrial.

Aliás, pausa para agradecer bombeiros e outras forças de segurança que atuam nas queimadas, moradores e voluntários. Verdadeiros heróis.  

As perdas econômicas serão gigantes, pode escrever e me cobrar. O mundo econômiuco saberá usar isso contra o Brasil. Estando certo ou errado. Mas mais do que isso, estamos perdendo flora e fauna. Vidas que não tem voz política e dependem de seres humanos evoluídos e qualificados para entenderem a situação e tomarem boas decisões. Não é possível ficar impassível quanto a isso. O que acontece na Amazônia e no Pantanal é 100x maior do que debate político. Se você é um conservador, saberá que preservar o passado e transmitir isso aos mais novos é nossa defesa. Se for religioso, saberá que esta destruição bate no peito de quem você mais defende: Deus, o criador de todas as coisas (que imagino, no alto da minha ignorância, não deve estar contente com a não proteção da sua criação). Sendo puramente racional ou mais do campo dogmático, a questão se resume a bom senso e humanidade. BRASIL. :-(

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