Pessoas de bem não relativizam o estupro

A tragédia de uma parte da sociedade que tenta transformar uma criança vítima em criminosa é uma anomalia que deve ser combatida por todos

Balões coloridos e cartazes de apoio deixados durante um ato realizado em frente ao Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM- UPE), na cidade do Recife (PE), nesta terça- feira, 18 de agosto de 2020, onde foi realizado o aborto legalizado na criança de 10 anos que engravidou após estupros cometidos por seu tio. Presentes também foram entregues para uma assistente social e serão entregues para a criança vítima do estupro. Nesta madrugada, a polícia prendeu o acusado de violentar e engravidar a menina.

Balões coloridos e cartazes de apoio deixados durante um ato realizado em frente ao Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM- UPE), na cidade do Recife (PE), nesta terça- feira, 18 de agosto de 2020, onde foi realizado o aborto legalizado na criança de 10 anos que engravidou após estupros cometidos por seu tio. Presentes também foram entregues para uma assistente social e serão entregues para a criança vítima do estupro. Nesta madrugada, a polícia prendeu o acusado de violentar e engravidar a menina.

YACY RIBEIRO - 18.08.2020/JC IMAGEM/ESTADÃO CONTEÚDO

Hoje o texto seria sobre o pensamento startup (que será publicado na sexta feira), mas resolvi mudar. Não porque é o tema do momento, mas porque como conservador que sou, não poderia deixar de me posicionar dentro das defesas racionais do pensamento que defendo. 

O comportamento de uma parte muito pequena, mas barulhenta, da sociedade brasileira, sobre o estupro de uma menor de idade, por um membro da sua família, envergonha, enoja e revolta a todas as pessoas de bem. Repito, todas as pessoas de bem. Este caso deveria gerar uma discussão racional e séria do mesmo porte e amplitude da discussão sobre a morte do americano George Floyd. Em linhas gerais, qualquer conservador que saiba seu papel no mundo, que defenda a família e a proteção do indivíduo, nunca, de forma alguma, conseguiria se posicionar contra o aborto realizado por esta criança. E faço questão de explicar alguns pontos do meu raciocínio a vocês. Antes porém, gostaria de dizer que considero uma vergonha que parte da classe jornalística impute aos conservadores, sejam eles de linhagem racional ou de base religiosa, o comportamento de alguns fundamentalistas tresloucados, como a moça de codinome perverso Sarah Winter (nome inclusive de uma militante nazifascista na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial) e seus seguidores babuínos raivosos, mas com pouca inteligência disponível em seus cérebros ocos. 

Quem escreve ou faz este tipo de ilação sequer conhece a base teórica e prática do conservadorismo e termina por propagar (mais) ignorância em um mundo onde deveríamos (sobretudo os jornalistas) esclarecer as pessoas. Não. Conservadores de verdade não são contra aborto em questão. Por quê? Porque conservadores, em que pese em sua esmagadora maioria serem pró vida ou contra o aborto indiscriminado (e há razões racionais para isso, as quais também defendo), acima disto são LEGALISTAS. E temos no Brasil, Leis específicas que ditam as consequências e ritos em um caso como este. Eu gostaria de ver os jornalistas questionando, neste momento, a galera progressista, que defende fervorosamente a ressocialização. Gostaria de saber qual a punição defendem a esta besta fera, que cometeu este crime inominável por tantos anos. A vida do marginal está no mesmo patamar de importância da criança? Espero, inclusive, que não façam disso um palanque para pregar uma retórica de que são os paladinos da defesa da menina. Sabe por que? porque hoje dizem isso, amanhã buscam uma sociedade libertária, sem regras, onde cada um por si e o indivíduo acima da sociedade é a realização do seu mundo perfeito. Vocês estão errados. É hora de fortalecer a sociedade.

Mas vamos além. Pensem em uma régua. Em um extremo, alguns defendem o "Faça o aborto quando quiser". No outro extremo, "Não aborte nunca". Estas discussões, de radicais progressistas e conservantistas são justamente o mal para a sociedade, a hipocrisia de lado a lado, sem escala valorativa alguma. Conservadores de verdade nunca colocariam a questão de um aborto no mesmo patamar de um estupro, qualquer que seja, mas sobretudo de uma vulnerável. Não há relativização do tema estupro para um conservador. De forma alguma. A violência derivada de um não pode ser comparada a outra. Os danos psicológicos, físicos, a marcação por toda a sua vida (inclusive na internet) e as lembranças tenebrosas de um marginal, doente, cometendo um crime contra si são infinitamente mais graves do que o aborto. Relativizar o estupro levando o debate para o campo do aborto, ou mesmo religioso, neste caso, é doentio a tal ponto que chego a questionar minha fé no futuro da sociedade brasileira. 

Em que momento, me digam, passamos a regredir para o estágio medieval/animal e começamos a achar natural uma criança nesta situação ter que entrar no hospital escondida no porta malas de um carro, como se uma bandida fosse, para não ser hostilizada e quem sabe agredida por manifestantes - estes sim, marginais a serviço do ódio, da ignorância e da irracionalidade. Gritavam em coro: "Assassina, assassina, assassina". Quem em sã consciência apoia este tipo de gente? Ou mesmo a opinião de Dom Walmor Oliveira, presidente da CNBB (Confederação dos Bispos do Brasil), que disse ser um crime igualmente hediondo a interrupção da gravidez da menina. Hedionda é a opinião deste senhor, que representa o atraso da Igreja Católica em seu pensamento conservantista e sua pouca empatia e reflexão. Não vou lembrar ao Dom Walmor os crimes realizados por sua organização por séculos com crianças e pouco punidos, pois acredito que a mera mençao já lhe envergonharia. Ou não? Aliás, retrato de seu discurso é a diminuição de católicos em todo o país a cada ano. Apesar do enorme respeito que tenho por todas as religiões, talvez falar muito em latim esteja afastando Dom Walmor da realidade.

O debate que deveríamos ter, e de forma ampla e racional, sem tabus ou ideologias envolvidas, é o que faremos com as Leis para que estes animais sejam definitivamente responsabilizados na medida cruel de seus crimes. É a castração biológica? Prisão perpétua? Não sei, mas não podemos, enquanto sociedade, não mais discutir o assunto. Outro ponto importantíssimo e pouco citado é a proteção e acompanhamento do Estado à esta menina e a milhares de pessoas que passam por esta violência e trauma. 

Sinceramente isso é muito maior do que passar a semana discutindo se a bolsa de valores subiu ou não. Pois isso impacta o âmago da sociedade. Pode acontecer com a sua filha ou filho, com a sua namorada, esposa, sua irmã. Já pensou nisso? E esta é a preocupação verdadeira de um conservador. Neste caso, estamos além da discussão do pró vida ou não. É uma criança meu Deus. Apesar de este não ser um debate sobre religião, gostaria apenas de lembrar, e olha que sou ecumênico, que em Lucas 18:17 Jesus diz: "Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele". Esta menina teve sua infância interrompida. E agora, que foi descoberto que a pureza e a inocência desta lhe foram roubadas e assassinadas, seguidas vezes, durante anos, de forma criminosa e nojenta, fazemos o que? A acusamos? Tiramos dela o direito de seguir uma tentativa de vida normal anos à frente? Colocamos a sua vida em um patamar menor do que a que ela carregava, ainda que saibamos do risco que a gravidez oferecia ao seu corpo e da sua falta de entendimento e responsabilidade para a maternidade?  Sério? A Lei divina protege as crianças, e ainda que fundamentalistas discordem disso, em distorção da palavra de Deus, temos a Lei dos homens. Aprovada pela maioria constitucionalmente eleita e referendada pelo STF, colocada em vigor para que a sociedade e os meios institucionais a sigam, pelo bem maior, que é a estabilidade do indivíduo e a preservação de uma sociedade funcional.

O Brasil está doente. Este caso prova isso de forma empírica. E não é de hoje. Imaginem quantos são os crimes que não são noticiados. Chega de hipocrisia. Vamos debater as questões morais. Vamos debater costumes. Uma educação sexual não direcionada, mas que auxilie positivamente para a segurança das crianças. Vamos debater punição dura para aqueles que tentam destruir a sociedade na sua forma mais íntima, dentro de casa, na família. Aliás, vamos discutir família. O radicalismo pernicioso está dos dois lados. Não se trata de aborto coisa nenhuma. Se trata de estupro e ponto final. Tenhamos a coragem de defender esta criança e dar a ela, ainda que em orações ou textos e videos, o carinho e a proteção que ela merece. Conservadores não relativizam estupro. Ponto final.

As partes sublinhadas deste texto foram tiradas de um debate de duas pessoas que admiro muito, Leonardo Reisman e Diego Polachini. Ambos cristãos, ambos conservadores, ambos racionais.  

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