Guto Ferreira Por quê ver pessoas enjauladas nos reality shows nos dá prazer

Por quê ver pessoas enjauladas nos reality shows nos dá prazer

O brasileiro faz de sua casa uma extensão dos zoológicos de entretenimento e dá início a uma nova era de mediocridade e de baixo conhecimento pessoal

A Fazenda 12, Biel, Raissa Barbosa, Rodrigo Moraes

A Fazenda 12, Biel, Raissa Barbosa, Rodrigo Moraes

Montagem

Uma das coisas que os conservadores gostam muito é de pensar, analisar cenários e fazer observações baseadas no empirismo sobretudo. Então, resolvi fazer uma análise sobre o comportamento humano de quem observa os reality shows. Vou me dar ao luxo de analisar um pouco de Big Brother e A Fazenda. Antes que alguém pergunte, respondo que SIM, assisto aos dois programas, entre outros, menos por envolvimento pessoal e mais por análise mesmo, ainda que me divirta com um ou outro acontecimento. Importe frisar que do ponto de vista comercial, estes realitys são máquinas formidáveis de ganhar dinheiro. Então vamos lá.

Os dois realitys partem de uma mesma premissa: trancafiar pessoas voluntariamente disponíveis para isso em um espaço, sem comunicação com o mundo externo e convivendo com pessoas que conhecem ou não durante um determinado prazo de tempo. Punições, disputas por prêmios, votações e bebidas fazem todo o trabalho pesado. No Big Brother, o espaço é menor e na maioria das edições, salvo a última e talvez a próxima, parte dos participantes eram famosos para um determinado tipo de público. Na Fazenda, o espaço é imensamente maior, mas as responsabilidades também são. No Big Brother você está literalmente a passeio e pode focar unicamente no jogo. Na Fazenda existem alguns agravantes, como o ego dos artistas (alguns acreditam que ainda são famosos), cuidar dos animais pela manhã (imagino que bem cedo) e uma série de regras, próprias para que sejam esquecidas e as punições aconteçam aos montes. As duas premissas são interessantes. Pelo aspecto físico menor (ainda que com uma casa incrível), o Big Brother diminui os espaços e por vezes parece um hospital. É difícil você andar na casa sem esbarrar o olhar com alguém que em algum momento não vai gostar. Já na Fazenda, a "área de escape" é maior - alguns já chegaram a dormir um pouco com os animais. Porém, com muito mais "egos" na casa, fatalmente o ambiente se torna tóxico rapidamente. Em resumo é isso. Você achou que o texto era mesmo sobre os programas né? ERROUUUUU (leia igual a voz do Faustão). 

A questão da minha análise é sobre o telespectador. Estes programas tem audiência em todo o mundo. Mas é incrível como no Brasil sempre se formam guerras em torno do zoológico humano do entretenimento que nos é passado. Dezenas de perfis são criados imediatamente após o início do programa. Pessoas passam a inundar os perfis buscando informações privilegiadas, afinal, saber quem beijou quem, ou quem tomou punição ou quem xingou quem antes do meu vizinho me fará um ser humano mais evoluído. Mais do que isso, o brasileiro, já conhecido pela sua paixão por coisas fúteis, consegue até mesmo brigar com a família por causa de um de seus personagens preferidos. Formam-se fãs clubes, páginas de memes, páginas de ódio e as redes sociais são finalmente inundadas pela sabedoria popular brasileira. Um agride o outro. Fulano comenta que viu algo que denigre um participante e imediatamente é rechaçado por alguém que defende o confinado aviltado em sua honra. As brigas começam (e não param...nunca). Confesso que é muito mais divertido ler as mensagens das pessoas nas redes sociais do que ver os programas que citei. Muito mais. Teorias da conspiração são formadas e divulgadas e aí chegamos ao ápice da participação humana inteligente: as pessoas ligam várias vezes para eliminar alguém que não gostam (no caso do Big Brother) e para salvar alguém que adoram (no caso da A Fazenda). E PAGAM POR ISSO!!! Ligam diversas vezes....centena de milhões de pessoas envolvidas em uma decisão para ver qual animal preferem que saia ou que fique. 

Você pode até achar o texto meio duro. Mas não é. Isso diz muito sobre o brasileiro e o seu futuro. Isso diz muito sobre cada pessoa que se envolve emocionalmente (ou pela falta de controle emocial) nestas votações. O brasileiro é tão carente de algo concreto que cria ídolos para sua vida, muitas vezes, miserável. E todos rimos disso. Procura criar e cultuar ídolos de pés de barro, da política ao Big Brother ou A Fazenda. Mas se esquece muitas vezes, ou quase sempre, das questões morais que deveriam direcionar sua vida. A promoção da estupidez, sobretudo nas redes sociais, que tem, cada vez mais, se tornado um ambiente de bestas feras, mostra que o brasileiro se sente confortável nesta nova arena de pão e circo. 

A ironia de tudo é que seja no Big Brother ou na A Fazenda ou em qualquer outro reality onde se tenham confinados, a casa (ou rede social) das pessoas naturalmente passou a ser a extensão do picadeiro que insistimos em assistir. A diferença é que os confinados recebem alguma coisa para estar lá. Você não. Moral da história. Uma coisa é entretenimento, outra é envolvimento. Neste grande barato dos programas de reality show, a atração principal do circo, ou zoológico, é você. E acredite, mesmo que você ria com isso, é triste.

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