O Conservador Tecnológico Uma resposta às viúvas de Paulo Guedes: Bolsonaro está certo

Uma resposta às viúvas de Paulo Guedes: Bolsonaro está certo

Um ministro de mercado financeiro em um governo de pensamento desenvolvimentista. Pode dar certo, mas tem tudo para dar errado. Sobretudo agora.

O que antes era doce, agora falta açúcar

O que antes era doce, agora falta açúcar

Adriano Machado/Reuters

Pode-se tecer diversas críticas ao presidente pelo comportamento, forma de falar e por vezes ser errático nas decisões no curso deste ano e meio de mandato. Porém, neste caso específico de uma possível e provável discordância com Paulo Guedes e quem sabe até mesmo a saída do ministro, Bolsonaro está bem mais certo que errado. Explico.

Primeiro, importante analisar que a pauta que elegeu Bolsonaro foi a de costumes e não a econômica. Segundo, obviamente, as pessoas votaram no presidente e não no atual ministro da economia. Mas ainda que você diga que estes argumentos são "batidos", separei mais alguns aqui. Bolsonaro nunca foi liberal. Não de carteirinha. A própria formação militar é desenvolvimentista (inclusive resquício do pensamento do periodo militar e do próprio nacionalismo). O fortalecimento de empresas públicas, sobretudo se estiverem em áreas consideradas de segurança nacional, como setor elétrico, mineração, logística e comunicações sempre foi mais a pauta do presidente do que a desestatização. 

Dito isso, é importante dizer que Guedes sempre foi visto como um novo Deus pelo condado da Faria Lima. O discurso professoral, sua passagem exitosa (demais) pelo mercado financeiro e especulativo o fizeram um ídolo da geração milênio e Z, que hoje atua muito na Bolsa de Valores. Para estes, que chamo de "viúvas de Guedes", o governo nada tem a ver com Bolsonaro. Se tirar o presidente da cadeira e deixar apenas o ministro no comando do Brasil, já estaria bom o suficiente. Este inclusive é um pensamento de boa parte da equipe econômica atual (e da que saiu). E claramente isso é um erro. Por que?

Antes de responder, importante dizer que muito se fala da escola de Chicago de Guedes, aquela da década de 70, que operou o milagre chileno no governo Pinochet. Poucos discutem por exemplo, que Chicago hoje é mais a linha de Richard Taller e sua tese de Economia Comportamental, aliás, ganhadora do Nobel de Economia, do que a linha que Guedes defende ferrenhamente. Mas voltemos. A grande e incômoda verdade é que a equipe de Paulo Guedes pouco apresentou resultados neste período. Muito blá blá blá e pouca entrega. Fruto da preguiça e da bolha em que vivem. A reforma da previdência foi infinitamente mais uma vitória do Congresso do que mérito do Executivo. A MP da Liberdade Econômica, esta sim mérito do time do Ministério já está praticamente morta. Com exceção da parte de alvarás e licenças e documentos públicos digitais, importantes para um avanço no ambiente econômico e político, a história da criação de 3 milhões e meio de empregos em até 10 anos nunca foi plausível antes (ao menos pra quem conhece o tema de verdade) e agora, com a pandemia, praticamente o objetivo foi dizimado. O Marco do Saneamento foi aprovado desfigurado. As privatizações, que prefiro chamar de desestatizações simplesmente não saíram do lugar. Plano de produtividade para Indústria, Comércio e Serviços, simplesmente não há. Logo, Guedes se ancorou muito mais no apoio do mercado financeiro e nos discursos de otimismo do que na entrega de resultados. Ahhhhhh, vamos colocar na conta positiva do ministro a entrada de centenas de milhares de pessoas no mundo da bolsa de valores. O que é positivo a médio e longo prazo (como tudo na bolsa) e meio complicado a curto, uma vez que boa parte, acreditem, boa parte mesmo da galera que entrou no mercado financeiro, sequer tem educação financeira básica, apostando tudo em enriquecer de forma fácil e sem compreender o complexo mecanismo que movem as altas e baixas das ações. 

Para mim, Guedes é um gênio em Macroeconomia, mas de economia real, sim, aquela da padaria, do food truck, da banca de jornal, da feira, ele e sua equipe simplesmente não entendem absolutamente nada. Além disso, nutrem um desprezo irracional pela indústria brasileira (E aqui lembro que nos próximos anos o protecionismo aumentará em todo o mundo e os países que sairão primeiro da crise são os que apoiarão sua indústria, sobretudo a de transformação, que produz bens e serviços de alto valor agregado - esta dica é de graça tá ok?). O mundo ideal hoje, seria separar o Ministério da Economia. Deixar com Guedes Planejamento e Fazenda antigos e recriar Indústria, Comércio e Serviços para a estratégia do setor produtivo, mas colocando na pasta alguém que realmente entenda do riscado. Talvez o próprio Afif, que tem boa interlocução com os setores, ou mesmo Paulo Skaf ou algum presidente de Federação de Indústria Comércio ou Serviços mais alinhado ao presidente. Chega de artistas, ídolos de pés de barro e discursos vagos. Precisamos de pragmatismo e resultados. 

Tirando o mundo ideal, quem defende um maior alinhamento com o pensamento desenvolvimentista, está correto neste momento. Sou um conservador e liberal, mas não dá pra enfrentar uma crise como a de 1929 e deixar o livro de Hayek sobre a mesa o tempo todo. Gritar ao mundo o conceito de Estado Mínimo (que é utópico diga-se) e não compreender que o Estado precisa sim estar presente agora é simplesmente assinar o atestado de loucura. Aliás, as maiores nações capitalistas do mundo pensam desta forma neste exato momento. EUA, Alemanha, Reino Unido, Israel, Coreia do Sul. Todos. É preciso ter equilíbrio. É preciso "torna-se permeável a ideias novas, a fim de que possa escapar da cristalização, ao formalismo e à rotina", frase esta do ex-chefe do Estado Maior do Exército e amante das inovações contínuas, General Castelo Branco, fixada na entrada da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, no Rio de Janeiro. Guedes é hoje, um conservantista. Dificilmente apresentará bons resultados daqui pra frente. 

Quando Bolsonaro dá, acertadamente um recado à Guedes, sua equipe e aos seus cegos apoiadores, de que "o pessoal do mercado tem que dar um tempo também", é porque já percebeu o jogo. Já percebeu quem está sendo beneficiado continuamente. O Condado não é o que move o país. É importante, mas não é o que move o Brasil. Mas é o que mais tem apoio e atenção do ministro da economia. O Brasil não parará se Guedes sair. Milhares de pessoas são competentes para ocupar seu lugar. Antes de Guedes criticar as criaturas do pântano político deveria limpar a própria casa ministerial e se adequar a tempos novos e não criar imposto para operações digitais onde sequer o meio digital ainda não está estabelecido. Aliás, isso simplesmente mata a inovação. Falarei disso em outro texto.

Bolsonaro está correto. Ou Guedes se adequa ou pede o boné. E mais cedo ou tarde, eles deverão decidir quem é, de fato, o presidente a República. Para dentro e para fora de casa. Antes eram um governo tripartite. Moro já foi e o Brasil permanceu vivo. Fica a dica. Não se contrata alguém que não se pode demitir. ;-)

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