R7 Planalto Ao citar alta de preços, Lira se distancia do governo Bolsonaro

Ao citar alta de preços, Lira se distancia do governo Bolsonaro

Em sua primeira fala após os atos de 7 de setembro, presidente da Câmara adota pautas da oposição e se afasta do discurso governista

  • R7 Planalto | Mariana Londres, de Brasília

Ao citar alta de preços, Lira se distancia do governo Bolsonaro

Ao citar alta de preços, Lira se distancia do governo Bolsonaro

REUTERS/Ueslei Marcelino-22/06/2021

Um dos desdobramentos do 7 de setembro é o claro distanciamento do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), do governo Bolsonaro. Recluso desde ontem (7), sem agenda confirmada, sem dar declarações e em reuniões fechadas, Lira reapareceu publicamente nesta quarta-feira (8) em um pronunciamento em tom mais elevado do que o adotado até agora.

Ao citar como os problemas reais do Brasil a gasolina a R$ 7, o dólar valorizado em excesso e o preço do gás, Lira sinaliza à oposição, que tem falado da alta de preços e irá usar essas mesmas pautas, ecoando em cheio nos bolsos e na mesa dos brasileiros, nas manifestações populares previstas para o próximo domingo (12). No pronunciamento, Lira levanta a bola para a oposição cortar, já que os oposicionistas defendem que Bolsonaro usa de outras pautas, voto impresso, ataques ao STF, por não conseguir resolver os problemas reais do País. 

Apesar de o pronunciamento de Lira ter sido alvo de críticas da oposição por ele não ter citado o impeachment, o apoio às pautas não pode ser ignorado. A aproximação de Lira com a oposição não aconteceu ontem. Na semana passada, um acordo de Lira, costurado com a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, possibilitou a aprovação da reforma do Imposto de Renda com 398 votos no plenário. 

A estratégia de Lira é coerente com o seu próprio projeto político. O presidente da Câmara pretende comandar a Casa por mais dois anos a partir de 2023, e pode ter que fazer isso sob um governo Lula ou de um eventual presidente de terceira via. Sua aliança com Bolsonaro, lembremos, é temporária. E pode se encurtar se o presidente se enfraquecer a ponto de não conseguir governar o País ou chegar ao segundo turno em 2022. 

O presidente da Câmara elevou o tom também nas críticas a Bolsonaro, que o ajudou a eleger presidente da Casa: "Bravatas em redes sociais, vídeos e um eterno palanque deixaram de ser um elemento virtual e passaram a impactar o dia a dia do Brasil de verdade", disse em crítica clara ao comportamento de Bolsonaro. 

O descontentamento de Lira com as menções de Bolsonaro ao voto impresso, que articulou para enterrar em votação semanas atrás, também ficou claro: "Não posso admitir questionamentos sobre decisões tomadas e superadas – como a do voto impresso. Uma vez definida, vira-se a página".

Com um presidente da República enfraquecido, apesar de ter conseguido reunir ainda milhares de pessoas nas ruas, Lira se fortelece também como apaziguador, e deixa isso claro ao se colocar como "a ponte de pacificação entre Judiciário e Executivo", lembrando do projeto de Niemeyer com o Congresso no ponto equidistante dos outros dois Poderes. 

Lira só tem a ganhar como o costurador de acordos pacificadores: "Conversarei com todos e com todos os poderes. É hora de dar um basta a esta escalada, em um infinito looping negativo".

Ao final, o presidente da Câmara defende a Justiça Eleitoral, um dos maiores alvos de ataques do presidente Bolsonaro: "O único compromisso inadiável e inquestionável que temos em nosso calendário está marcado para 3 de outubro de 2022. Com as urnas eletrônicas. São nas cabines eleitorais, com sigilo e segurança, que o povo expressa sua soberania".

Últimas