Domésticas são as primeiras vítimas de uma sociedade doente 

Requintada é a maldade dos patrões que, mesmo confinados, mantêm seus serviçais expostos e a postos, incapazes que são de lavar a própria privada

A pandemia do coronavírus mostra o melhor e o pior do ser humano

A pandemia do coronavírus mostra o melhor e o pior do ser humano

NIH/Handout via Reuters

A peste é uma metáfora recorrente na literatura. Em algumas religiões, também. Estamos vivenciando essa experiência sem o benefício das alegorias. A realidade vai se impondo no dia a dia dos brasileiros: a pandemia do novo coronavírus nos obriga a ver o que a sociedade e os seres humanos têm de melhor – e pior.

A solidariedade já se manifestou em diversas ocasiões nesses primeiros dias de quarentena, desde restaurantes distribuindo comida a moradores de rua, até voluntários que se prontificam a fazer compras para vizinhos idosos ou doentes. Já o lado sombrio e egoísta tem se apresentado em uma escala mais larga e cruel.

Entre os mais vulneráveis, as empregadas domésticas são as que – involuntária, mas previsivelmente – se tornaram as vítimas imediatas de um país e de um povo cuja vocação escravocrata ainda contamina e infecta as relações pessoais e de trabalho.

Chega a ser infame a forma como muitas “assistentes do lar” (hipocritamente tratadas como colaboradoras, quando não “membros da família”) estão sendo descartadas por seus empregadores. Rito sumário, se tornam dispensáveis já neste primeiro momento. É como uma sentença de morte anunciada.

Mais requintada é a maldade dos patrões que, mesmo confinados em seus lares, mantêm seus serviçais a postos, incapazes que são de arrumar uma cama, preparar um jantar ou lavar a própria privada.

São senhores e senhoras, com seus filhos saudáveis e bem alimentados. Sabem o que estão fazendo, mas aplacam qualquer remorso pagando salários miseráveis àqueles que se deslocam pela cidade empesteada para “prestar serviços”.

Alguns patrões realmente não teriam condições de arcar com a despesa até então prioritária para que eles mesmos pudessem trabalhar. Também temos uma classe média precarizada, sobrevivendo na informalidade.

Mas muitos podem – e devem – mandar empregados se recolherem junto às suas famílias, para cuidar de suas crianças e idosos, com o dinheiro justo que lhes garanta o que comer.

Não cumprem com o mínimo. É falsa elite econômica, o nome dessa doença social que atinge alguns dos mais abastados. Os privilegiados de sempre. São pessoas doentes. Estamos vendo.