R7 Planalto Espelhos d'água protegem prédios públicos de Brasília de invasões

Espelhos d'água protegem prédios públicos de Brasília de invasões

Um homem foi detido nesta segunda-feira (16) pela Polícia Federal por lançar carro no espelho em frente ao Ministério da Justiça, na Esplanada

  • R7 Planalto | Plínio Aguiar, do R7

Espelho d'água em frente ao Congresso Nacional

Espelho d'água em frente ao Congresso Nacional

WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO-11/08/2020

O caso do homem detido pela PF (Polícia Federal) nesta segunda-feira (16) por lançar um automóvel no espelho d’água no Ministério da Justiça, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, levantou a suspeita de um atentado e chamou a atenção para a finalidade da construção arquitetônica.

Foi o espelho d'água do prédio da Justiça que impediu que o carro atingisse a estrutura, o que poderia gerar prejuízos ou até mesmo machucar pessoas.

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No caso do Ministério da Justiça, o espelho projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer tinha uma função estética, assim como o do Itamaraty, mas em outros prédios públicos, como o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional, os espelhos d'agua não faziam parte do projeto original e foram construídos justamente para barrar tentativas de invasões.

“Os espelhos d’água do Palácio do Planalto e do Congresso são uma solução plasticamente aceitável, muito de acordo com o projeto de Niemeyer. Não abala o projeto original do prédio, mas foi feito não com a finalidade prática e, sim, com a finalidade de segurança, de impedir a população de chegar muito perto, para isolar a estrutura do prédio”, afirma o professor da Universidade de Arquitetura da UnB (Universidade de Brasília) Antônio Carlos Cabral Carpintero.

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Os espelhos d’água do Planalto e Congresso foram construídos na década de 90 e os do Itamaraty e da Justiça, entre os anos 50 e 60. A título de curiosidade, a superfície com água em frente ao Congresso Nacional conta com uma área aproximada de 1.635 metros quadrados, comportando 1.900 metros cúbicos de água, com profundidade de 1,10m e uma largura que varia entre cinco a 20 metros.

História

Para entender melhor o cenário da construção arquitetônica, é preciso voltar atrás na história. A inauguração do Palácio do Planalto marca a história por simbolizar a transferência da sede do Executivo para o interior do país – promovida pelo então presidente Juscelino Kubitschek. Em 21 de abril de 1960, os Três Poderes da República se instalaram simultaneamente em Brasília, na região centro-oeste do País.

A construção do prédio foi iniciada em 10 de julho de 1958 e, até a sua conclusão, a sede da chefia do governo federal havia funcionado no Palácio do Catetinho, um sobrado nos arredores de Brasília.

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O responsável por vários edifícios públicos na capital federal foi o arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012). Entre os projetos, estão o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto, Esplanada dos Ministérios, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal - já o Plano Piloto de Brasília foi elaborado pelo arquiteto Lúcio Costa, vencedor do concurso feito na época.

A Esplanada dos Ministérios está localizada no Eixo Monumental, que corta o Plano Piloto no sentido leste-oeste. A área é um vasto gramado com 17 edifícios de construção uniforme, que abrigam os ministérios. Dois prédios, a exemplo do Ministério da Justiça e o Itamaraty, possuem espelhos d’água.

O professor da UnB explica que as construções em ambos ministérios têm a finalidade de se integrar à composição estrutural do prédio. “O [ministério] da Justiça é um que tem uma água caindo na própria fachada. O lago é parte da composição plástica do prédio. No do Itamaraty, é para dar a impressão de que o prédio está flutuando pelo lago”, diz.

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Composição plástica é usada para falar sobre a distribuição harmoniosa das cores e das formas num conjunto de elementos visuais. Essa expressão arquitetônica, contudo, não se aplica aos espelhos d’água do Palácio do Planalto ou do Congresso Nacional, segundo o professor, que é especialista em Niemeyer, projeto original urbanístico de Brasília e na arquitetura das Casas Legislativas (Câmara dos Deputados e Senado Federal).

Na imagem, manifestação de 2013 no Congresso

Na imagem, manifestação de 2013 no Congresso

Agência Brasil

Questionado sobre a diferença do uso de espelhos d’água na mesma Brasília, o professor argumenta que, quando foi construído o da Justiça e do Itamaraty, não havia pressão popular que chegasse às portas dos edifícios. Com o passar dos anos, contudo, essa ação se modificou e as áreas livres e verdes, antes espaços de lazer, foram dando lugar a protestos. As manifestações de 2013 exemplificam esse cenário - milhares de pessoas dentro do espelho d’água do Congresso Nacional, na rampa, no gramado, em todo o espaço.

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E a finalidade de o espelho d’água servir para isolar os prédios do Planalto e Congresso agora, por reboque, livrou o edifício do Ministério da Justiça de ser atingido. Isso porque na noite e domingo (15), data do primeiro turno das eleições municipais de 2020, um homem lançou um automóvel no espelho da água do local.

As diligências para prender o responsável começaram ainda durante a madrugada. O veículo foi encontrado sem motorista e, dentro dele, havia um pedaço de madeira preso ao acelerador. O carro foi retirado do local na manhã desta segunda-feira (16) com o auxílio de um guincho.

Grades

Carro lançado no espelho d'água do Ministério da Justiça

Carro lançado no espelho d'água do Ministério da Justiça

Reprodução/Record TV

As grades também invadiram Brasília durante os últimos anos. Muitos dos prédios instalaram o material e, segundo o professor, “cortam o projeto original” da capital federal. Ela quebra o sentido principal, que é a continuidade do chão, argumenta o professor.

“O Congresso em Washington, capital dos Estados Unidos da América, tem cúpula alta no alto de uma colina. O nosso Congresso, por sua vez, está na parte mais baixa da cidade. Isso é simbólico porque está ao nível do povo. O arquiteto Lúcio Costa, em desenhos muito pequenos, indicativos, mas não sugestivos, tentou fazer uma cúpula única. Mas, Niemeyer finalizou com duas, da Câmara e Senado, e ambas estão no nível do chão, dando continuidade do chão".

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“As grades são colocadas por uma situação que é estranha, porque não foram colocadas durante governos militares e, sim, depois. É como se os militares não tivessem medo do povo e os civis, sim”, finalizou.

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