Crise na Venezuela

R7 Planalto "Guaidó tentou um golpe, que o enfraqueceu", diz historiador

"Guaidó tentou um golpe, que o enfraqueceu", diz historiador

Para o professor da UnB Carlos Eduardo Vidigal, movimento do presidente autoproclamado foi tentativa de golpe e fortalece Maduro

  • R7 Planalto | Mariana Londres, de Brasília

"Guaidó tentou um golpe, que o enfraqueceu", diz especialista

"Guaidó tentou um golpe, que o enfraqueceu", diz especialista

REUTERS/Carlos Garcia Rawlins/01.05.2019

"Juan Guaidó tentou um golpe para tomar o poder na Venezuela e não foi bem sucedido, o que fortalece Nicolás Maduro". A análise é do historiador Carlos Eduardo Vidigal, professor de História da América da UnB (Universidade de Brasília) e doutor em Relações Internacionais.  Para Vidigal, a saída mais provável para a crise do país vizinho é a democrática promovida por Maduro, o que já aconteceu em outras ditaduras. 

"Dependendo da situação do país, o próprio governo teria condições de fazer a transição negociada e mais dilatada no tempo. Porque a solução armada é ruim para todo mundo", disse em entrevista ao R7 Planalto

A análise do historiador é diferente da do presidente Jair Bolsonaro, que disse nesta quarta (1º) que não considera o movimento de Juan Guaidó derrotado.

Ontem o presidente autoproclamado da Venezuela anunciou que tinha apoio de militares para derrubar o governo de Nicolás Maduro e convocou protestos em diversas cidades. Houve confrontos e dezenas de feridos. 

À noite, Maduro apareceu em rede nacional de TV alegando ter contido o que chamou de tentativa de golpe e reforçou o apoio dos comandantes das Forças Armadas ao seu regime. Hoje Guaidó novamente convocou protestos.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com o professor Carlos Vidigal sobre os últimos acontecimentos na Venezuela. 

O senhor vê uma saída democrática para a Venezuela? 

Dependeria do conceito de democracia e quem aplica, porque a tentativa de golpe de ontem não é uma ação propriamente democrática. É preciso ter muito cuidado. Uma solução não violenta que eu vislumbro, mas ainda não tenho elementos para sustentar de maneira mais segura, seria uma redemocratização a partir do regime Maduro. Se jogarmos em perspectiva histórica, os regimes ditatoriais dos anos 60 e 70 eles se redemocratizam com uma decisão interna dos militares, como no caso brasileiro e chileno. Na Argentina foi diferente por causa da guerra das Malvinas. 

O que eu quero dizer é que dependendo da situação do país, o próprio governo teria condições de fazer a transição negociada e mais dilatada no tempo. Porque a solução armada é ruim para todo mundo. 

Mas essa é uma das possibilidades na mesa? 

Não temos elementos suficientes para saber, mas seria uma alternativa razoável para a cúpula na Venezuela preservar alguns direitos. O próprio Pinochet quando promove a redemocratização do Chile, ele cria uma Constituição com uma série de salvaguardas, que colocam ele, Pinochet, como um senador vitalício. Existiriam situações intermediárias possíveis de serem trabalhadas, no caso da Venezuela. 

O senhor acredita em uma guerra civil, com aumento da violência? 

A guerra civil só virá se os Estados Unidos trabalharem para isso. Pela situação interna atual é muito pouco provável. Ontem vimos que não houve um confronto armada propriamente dito. Aparentemente a população não está armada, então somente com intervenção direta americana poderia se chegar nessa situação. 

O senhor fala em tentativa de golpe de Guaidó, mas nem todos veem assim...

Quando ele anuncia que tinha começado o fim do regime Maduro, se não é golpe não existe outro termo na teoria política. Não consigo vislumbrar. O que me surpreende e me deixa um pouco perplexo, é que uma tentativa desse tipo só é desencadeada quando o grupo rebelde tem um grau de certeza da vitória razoável. E isso não aconteceu em absoluto. Foi uma cartada absolutamente equivocada. 

Foi um blefe, já que o senhor falou em cartada? 

Não um blefe. Aparentemente Guaidó pela manhã acreditava que a mudança do regime poderia ocorrer a partir de ontem. 

Ele dizia ter apoio das Forças Armadas, o que aparentemente não teve... 

Isso sim pode ser caracterizado um blefe. Para arregimentar mais apoio internamente. Foi uma derrota para ele, muito clara. 

E essa derrota deixa então Maduro em situação mais favorável? 

Sem dúvida alguma. Porque como foi uma tentativa de golpe que não respeitou nenhum preceito democrático e nem humanitário, como foi a outra manifestação, pelo menos no discurso, o ônus todo recai sobre o Guaidó e Maduro passa a ser uma vítima de golpe. 

Foi uma jogada política equivocada do Guaidó? 

Sim, e apoiar Guaidó é outro equívoco. Inclusive por parte do Brasil. 

O presidente Bolsonaro disse que não considera o movimento do Guaidó derrotado, uma opinião diferente da do senhor.

Sim, mas essa opinião não faz sentido algum. Sou historiador e conheço muitas tentativas de golpes e muitos golpes na América Latina. Essa avaliação do presidente não se sustenta. E o mais grave é que o Brasil tem uma trajetória de defesa da integração sul-americana que perpassa os governos democráticos, o regime militar. Os militares eram integracionistas, com ótimo relacionamento com a Venezuela, e isso continua na redemocratização, com Itamar Franco, FHC e Lula e a ruptura vem agora. E isso é muito ruim para os próximos anos, porque o Brasil vai deixar de ser um país confiável pelos vizinhos. Dentro da ideia de que a integração sul-americana é boa para o Brasil. 

Em quanto tempo se resolve a situação na Venezuela, na sua opinião? 

É impossível dizer, mas a tendência normal seria uma estabilização para os próximos dias, e o Maduro se mantendo no poder. Mas depende de outros atores, como os Estados Unidos. O mais provável de acontecer é um processo democrático de saída do Maduro, a não ser que ele estivesse nas cordas. 

Mas o senhor acha que ele conduziria uma eleição, com talvez ele próprio candidato? 

Isso é uma possibilidade mais teórica. Talvez sendo ou não candidato. Se ele consegue deixar o poder e não ser preso, para ele já é um grande negócio. Ou o exílio. Mas o conjunto dos militares [que o apoiam] dificilmente o deixarão. É preciso uma negociação interna e uma saída honrosa para ele [Maduro]. 

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