Indústria: "Sem investir em mão de obra, teremos voo de galinha"

O gerente de pesquisa e competitividade da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Renato da Fonseca, fala dos impactos das reformas no setor 

Indústria: "Sem investir em mão de obra, teremos voo de galinha"

Indústria: "Sem investir em mão de obra, teremos voo de galinha"

José Paulo Lacerda/CNI

Responsável por 22% das riquezas produzidas no País (PIB de 2018), a indústria é o setor que enfrenta a recuperação mais lenta após a recessão econômica que afetou o País.  

Para o economista Renato da Fonseca, gerente de pesquisa e competitividade da CNI (Confederação Nacional da Indústria), as reformas em curso podem ajudar a tirar o setor da crise, mas será preciso adotar outras medidas estruturantes, como investimento em educação e inovação. 

"Estamos fazendo reformas importantes para evitar o voo de galinha, mas ainda temos problemas sérios, como a falta de mão de obra qualificada. Sem mão de obra qualificada só teremos voo de galinha", diz. 

Otimista com a discussão da reforma tributária, o setor defende o fim do ICMS e a adoção do IVA, o imposto sobre o valor agregado. A mudança deixaria a indústria em pé de igualdade com os setores de serviço e agropecuário. "A indústria acaba pagando mais do que os outros setores".

Os impactos do coronavírus no setor ainda são difíceis de se mensurar, mas dois possíveis efeitos esperados pela Confederação são o desabastecimento no Brasil e a queda do crescimento, caso o PIB da China seja muito impactado pelo vírus. Um dos efeitos imediatos do surto do novo vírus foi a alta do dólar. 

A alta da moeda americana não deve, segundo Fonseca, beneficiar a indústria exportadora. "Já se passou o tempo de achar que dólar alto era bom para o exportador. O maior problema é o cenário de volatilidade, ou seja, incerteza sobre o câmbio."

Leia abaixo os principais trechos da entrevista: 

O Brasil está no caminho de um crescimento sustentável de longo prazo ou teremos mais um daqueles voos de galinha cíclicos?

Nos últimos anos de governo Temer e Bolsonaro estamos fazendo reformas importantes para evitar o voo de galinha. Mas temos problemas sérios, como a falta de mão de obra qualificada, divulgamos sondagem sobre isso. Sem mão de obra qualificada só teremos voo de galinha. A gente precisa do trabalhador. O Custo Brasil, calculado pelo governo de R$ 1 trilhão, ou seja, um quarto do PIB que faz as coisas aqui ficarem mais caras. Se não combatermos de maneira efetiva dificilmente sairemos do cresce e para, cresce e para. Porque você cresce e fatores começam a te segurar. Exemplo, cresceu e não tem energia elétrica. Sobe a energia gera inflação, é problema. Cresceu e não tem mão de obra. Cresceu e tem despesa com burocacria. Não consegue competir lá fora. O Brasil precisa exportar mais. Precisamos de grande produtividade na indústria. A vontade de entrar na OCDE é excelente porque vai nos obrigar a adotar medidas para ganhar produtividade.

Como será o crescimento do Brasil?

A nosso crise foi muito severa, ainda demoraremos tempo para sair. Ainda temos capacidade ociosa muito grande. Dá para dizer que a única coisa boa da crise foi que as empresas ganharam competitividade, ou quebrariam. Mas se elas não mantiverem o ganho de competitividade vão voltar para a crise lá na frente. Tem que trabalhar dentro e fora da empresa. Fora é governo e dentro é mão-de-obra, investimento em capacitação e gestão. A gestão é o mais complicado porque o empresário não percebe a necessidade. É possível ganhar em produtividade em até 50% com mudanças de gestão. Sem custo quase, porque é mudança na maneira de fazer a coisa. E investir em inovação, que sempre foi o motor do crescimento desde a revolução agrícola. O mundo tem a população que tem hoje pela inovação de produzir mais alimentos. Sem inovação não se consegue competir, principalmente na questão digital, na indústria 4.0.

Têm se reclamado do investimento ainda baixo, que sinaliza ainda falta de confiança, estamos retomando o investimento?

Muito devagar também. Até pela dificuldade das empresas e nível de endividamento, pela dificuldade de conseguir financiamento para investir, principalmente na área de inovação, onde há risco. Mas há investimento ganhando corpo, com meses de decepção, como foi dezembro. Não estamos num processo garantido de retomada mas acreditamos que isso vai ocorrer, o que deve refletir nos empregos. E isso é  bola de neve. Como na crise, a recuperação acontece na lentidão mas uma coisa puxa a outra. A crise começou porque o governo quebrou e as pessoas estão muito endividadas, aliada a um piora no cenário externo. Depois da crise ficou todo mundo muito endividado. O poço foi muito profundo.

Como a indústria vê as reformas em curso, administrativa e tributária? 

Estamos bastante otimistas com reformas, principalmente a tributária, que não é fácil, mas já há percepção da sua importância pela sociedade. A índustria acaba pagando mais do que outros setores, serviços e agricultura ideia é ter uma tarifa igual para todos em sistema de valor adicionado com desoneração nas exportações. O Brasil ainda exporta tributos. Hoje temos problemas de reembolso que desestimulam as exportações. Hoje os créditos se acumulam e criam um problema porque as empresas não sabem quando vão receber. 

Qual o maior calo tributário da indústria? 

É o ICMS. Ele é super complicado. Há legislações diferentes em cada Estado e uma empresa que quer vender de um Estado para outro é algo complexo e burocrático e ele não é totalmente de valor adicionado. 

Mas não é o mais difícil de ser mexido justamente pela pressão dos governadores? 

Acho que governadores têm interesse em mexer e o debate está na mesa, há mais de vinte anos. E tem também o ISS na área de serviço. Se o sonho nosso que é ter um imposto igual para todo mundo com valor adicionado, as mais de 5.000 prefeituras têm que estar envolvidas. É complicado. Por isso em alguma momento se pensou em fazer primeiro um IVA federal, depois IVA estadual e municipal. Mas seria importante que pelo menos ICMS, PIS/COFINS fossem já revistos. 

A carga tributária vai cair? 

Há vários tributos no Brasil com várias bases de incidência. Não estamos esperando redução de carga, apesar de ser extremamente alta no Brasil. Mas nesse momento é preciso reestruturar e simplificar o sistema tirando os tributos cumulativos. Sem reduzir a carga. Se a gente conseguir pagar só o tributo em cima do que for acrescentado, tirando o que paguei de insumo, que é o princípio do valor adicionado. Se a gente conseguir isso já vai ser um avanço surpreendente que vai gerar uma redução grande do custo Brasil, já que se gasta muito tempo para lidar com a quantidade de tributos. 

O dólar a R$ 4,50 é uma ameaça ou oportunidade? 

Já se foi o tempo de achar que para exportar era importante ter o dólar valorizado. Isso não acontece mais porque somos uma economia muito integrada com o resto do mundo e as empresas compram insumos importados [fazendo o gasto de produção também subir]. Obviamente não pode ter um real muito valorizando, com dólar muito baixo, porque o produto brasileiro fica muito caro no exterior. Atualmente o problema do dólar alto é que gera uma incerteza, tanto para quem está importando quando exportando. O pior é ter um dólar volátil. E com dólar alto há indústrias ganhando e outras perdendo, mas não podemos dizer que isso beneficia a indústria como um todo. 

Mas vocês apostam em qual cenário, em relação ao dólar? 

Esse ano tivemos dois problemas, do possível enfrentamento EUA-Irã e agora coronavírus. Para o Irã houve uma especulação de que petróleo ia subir, mas acabou não acontecendo. E agora temos um problema de incertezas. É difícil saber o que vai acontecer em relação ao coronavírus. Não sabemos em que medida vai afetar a produção da China e as trocas comerciais da China, grande parceiro de todo o mundo. Tem o risco da economia chinesa desacelerar muito, ainda não avaliamos com cuidado, e risco de desabastecimento. São dois riscos. 

Há indústrias do Brasil já reclamando do desabastecimento? 

O impacto ainda é pequeno e ainda precisamos avaliar. Quando houve terremoto no Japão a indústria automobilística aprendeu que não podia ser dependente só de um fornecedor, porque algumas ficaram desabastecidas. Mas não sei exatamente se elas aprenderam. Quem tiver fornecedor único pode ter problema. Temos possibilidade de ter fornecimento menor e até interrupção dependendo da região e não sabemos como as empresas estão preparadas. 

Sobre as quedas dos juros no Brasil, chegamos a um patamar confortável? 

Não podemos negar que juros caíram bastante e que isso foi muito bom. Mas o Brasil é um dos países com juros reais mais elevados. Mas estávamos longe do ideal. Havia empresa sem acesso ao crédito de capital de giro. Nosso mercado de crédito ainda é concentrado com pouca competição. Nos EUA não se paga taxa de administração de cartão de crédito desde a década de 90 porque é um mercado muito competitivo. Temos ainda dificuldade de baixar o juro na ponta, que caiu, mas ainda estamos com taxa mais elevadas do que de outros países. Investimentos em outros países pagam juros menores, o que gera vantagem das empresas lá fora. Ainda precisamos de mais crédito e, muito importante do BNDES. Não podemos desmantelar o banco, que é um dos principais financiadores de investimento. Os EUA e outros países têm banco de financiamento de exportações e de inovação. Precisamos ter essa legislação. O que vem melhorando no Brasil. Mas a velocidade da melhora ainda é baixa.