R7 Planalto Moraes Moreira escancara a morte da música popular brasileira

Moraes Moreira escancara a morte da música popular brasileira

A geração de talentos que hoje esbarra na casa dos 70 anos foi a mais genial e múltipla, capaz de encantar multidões com obras de extremo valor

  • R7 Planalto | Marco Antonio Araujo, do R7

Moraes Moreira representa uma geração de talento que não teve sucessores

Moraes Moreira representa uma geração de talento que não teve sucessores

Reprodução/Disco

Quase todo mundo sabe cantar ou acompanhar “Pombo Correio”, uma das muitas músicas (simples, poéticas e populares) que colocam Moraes Moreira entre os grandes de sua geração. Ele morreu aos 72 anos. Aí que pega.

As gerações futuras (sendo elegante, as com menos de 50 anos) não entregaram um único compositor ou artista com essa relevância. O Brasil parou. A MPB morreu, sem deixar herdeiros. E olha que Moreira nunca foi tratado como espetacular, olímpico. Nem carecia, tamanho o respeito.

Para descomplicar, não estou pensando em Chico Buarque, nosso maior e melhor compositor, patrimônio histórico, gênio da raça, esse cara de quem um adolescente normal, hoje em dia, não conhece uma só letra de cor.

Estou falando tipo de Belchior, Raul Seixas, Zé Ramalho, Rita Lee, Alceu Valença e o caçula superestimado da turma, Lenine, entrando na casa dos 60. Qualquer um que se encantou com os versos de “Paciência” reconhece uma música de Ivan Lins sem saber ligar o autor à melodia.

Seu Jorge é para os fracos, burguesinhas, Netflix, mas de boa, deixa o quase cinquentão em paz. E o Mano Brown, o Emicida, tudo sangue bom. O rap, o hip hop, o funk, os truta. Legal.

Mas me digam um cara ou uma mina que faça ou cante música de qualidade (como João Nogueira, Adoniran, Elis, Simonal, Martinho da Vila...) e tenha menos de 49 anos?

Meio século. E nada. Nenhum. Nenhuma.

Caetano, Gil, Milton Nascimento, Zeca Pagodinho, até Michael Sullivan (dê um Google nesse monstro de talento) fizeram sucesso antes de soprar ou aspirar 25 velinhas ou baseados. No nascedouro, cada um do seu jeito, foram recebidos com as devidas consideração e multidão de fãs.

Para começar a conversa, esqueça Ivete Sangalo, Anitta, Iza ou Criolo. E não venham falar que estou sendo elitista. Cheguei a comprar LP da Barbra Streisand e do Osvaldo Montenegro. Assumo.

Fui a show de Secos & Molhados, Elza Soares, Walter Franco, Luiz Melodia, Adriana Calcanhotto e João Bosco. Itamar Assumpção, cara. Me respeitem. Sei do que falo.

Só os fortes sobreviverão. Chico Science é para colecionadores. Odair José foi Rei do Brega, e daí? Ninguém mais sabe quem foi Taiguara. Chorão e Cristiano Araújo causaram comoção e hoje descansam em paz. Elomar. Chiquinha Gonzaga. Pixinguinha. Oi?

E Tom Jobim. João Gilberto. Naná Vasconcelos. Hermeto Pascoal. Ernesto Nazareth. Cartola. Egberto Gismonti. Caramba. Pô.

Vamos falar sério. Renato Russo e Jerry Adriany, ok? Já fomos melhores.

“Evidências” tem seu lugar garantido no panteão de nossa memória musical, não se preocupem – assim como “Fio de Cabelo”, “Fuscão Preto” e Mamonas Assassinas. Não é disso que estou falando. O papo é outro.

Não temos nada, nem mesmo uma nova unanimidade doméstica tipo Roberto Carlos, que fez uma música inesquecível para cada dez constrangedoras. Até eu me preocupo com o Rei, agora que todos os cruzeiros foram cancelados.

Já os sertanejos rezam para que a quarentena acabe logo. Estão em pânico. Morrerão de fome. Em breve, ninguém mais vai se lembrar. Nenhum deles chega aos pés de Amado Batista. 

Não é disso que se trata. Havia um país aqui.

Cadê?

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