Não há bala perdida quando quem morre é uma criança

Um país em que a infância é assassinada no meio da rua – por tiros de policiais, criminosos e milicianos – fracassou miseravelmente

Jenifer, Kauan e Kauã (na montagem, dir p/ esq, acima); Kauê, Ágatha e  Ketellen (abaixo)

Jenifer, Kauan e Kauã (na montagem, dir p/ esq, acima); Kauê, Ágatha e Ketellen (abaixo)

Reprodução

Jenifer. Kauan. Kauã. Kauê. Ágatha. Ketellen.

A maioria dos brasileiros já ouviu esses nomes e sabe por que estão juntos: são as seis crianças mortas a tiro, apenas este ano, no Rio de Janeiro. Foram assassinadas por policiais, marginais e milicianos, quase sempre em “confrontos” – palavra que vem se tornando sinônimo de licença para matar inocentes. Até o momento, só um dos monstros assassinos foi identificado.

Não há bala perdida quando crianças são atingidas. O que existe é omissão de autoridades, polícia fora de controle, crime organizado, muita impunidade e famílias dilaceradas. Só uma sociedade doente permite que essas atrocidades sejam incorporadas ao cotidiano. Só pessoas embrutecidas ficam indiferentes a tanta dor e sofrimento.

Jenifer, Kauan, Kauã, Kauê, Ágatha e Ketellen tinham entre 5 e 12 anos. Morreram tão cedo que calam a boca até de cidadãos que defendem execuções como política de estado. Eram crianças e não estavam no “lugar errado”. Cada uma delas estava fazendo as “coisas boas” e simples que crianças pobres fazem quando estão vivas.

Jenifer estava parada na porta do bar onde a mãe trabalha. Kauan ia comprar um lanche na esquina. Kauã andava de bicicleta. Kauê vendia balas para ajudar a família. Ágatha viajava dentro de uma van. Ketellen estava indo para a escola.

Enterrar um filho assassinado em plena inocência deve causar uma dor lancinante.
Um país que enterra suas crianças assim fracassou. Miseravelmente. Ketellen, baleada, sangrando, na rua, teve a bondade de falar: “Mãe, não chora não". 

Impossível. O Brasil inteiro deveria estar chorando, Ketellen.