O menino Miguel será o estopim de uma revolução pacífica e silenciosa

A maior homenagem que podemos prestar às nossas crianças negras é hastear uma bandeira de luto e outra de paz em nossas consciências

Reprodução Facebook

A morte do menino Miguel pode ser o estopim de uma revolução silenciosa e pacífica na alma de todos os brasileiros. Não é possível que depois desse choque, nossa sociedade continue negando que o Brasil carrega o pesado fardo de uma tragédia histórica chamada racismo.

No vídeo abaixo, de 2015, já tínhamos a mais irrefutável ilustração de como nossas crianças negras já eram invisíveis, descartáveis e não mereciam a menor atenção do mundo ao redor. Não que nos faltassem outros exemplos, cotidianos, frequentes, ignorados, seculares.

No experimento (também realizado em vários países europeus e nos EUA, com o mesmíssimo resultado), a Record TV simulou em situação de abandono duas meninas, uma branca e uma negra. No meio de uma praça. Sozinhas. As cenas que mostram os tratamentos distintos que as pequenas receberam são de uma maldade e uma clareza constrangedoras.

Todos nós – mesmo o que se julgam pessoas de bem, cristãs, desprovidas de preconceitos –  podemos reservar alguns segundos de sinceridade interior e admitir que, sim, sabemos o que está acontecendo com os negros deste país. Se servir de consolo (spoiler: não serve), recordem que não é exclusividade brasileira o racismo estrutural.

O que tem sido prerrogativa nossa é o número assustador (e banalizado em forma de estatísticas) de pessoas de pele negra que morrem, diariamente, em cada canto deste país miscigenado, multicolorido, ecumênico, repleto de riquezas e sabidamente miserável.

Não precisamos que novas crianças negras subam ao altar do sacrifício em que o lindo menino Miguel está colocado. E, por favor, ele é não nosso George Floyd. Miguel é um pequeno pernambucano que podia estar na Maré, no Capão Redondo, em Manaus, no Distrito Federal. Ou dentro de nós, protegidos.

A maior homenagem que podemos prestar – ainda mais em um momento tão difícil, de pandemia e isolamento social – é hastear uma bandeira de luto e outra de paz em nossas consciências. Toda infância é sagrada. Todas as vidas importam. Mas as vidas negras, neste momento, precisam ser vistas e respeitadas, finalmente. Agora.