PT virou partido de elite, e Lula, coronel, diz professor de filosofia

Em entrevista ao R7 Planalto, Gustavo Bertoche explicou quais são as críticas ao ex-presidente 

Professor de filosofia aponta prática de coronelismo nas ações de Lula

Professor de filosofia aponta prática de coronelismo nas ações de Lula

Reprodução Facebook Gustavo Bertoche

Filiado ao PSB (Partido Socialista Brasileiro) há 24 anos, o professor de filosofia Gustavo Bertoche viu seus textos em redes sociais com críticas ao PT e ao ex-presidente Lula se popularizarem. Em entrevista ao R7 Planalto, o professor da Universidade Iguaçu avalia as indicações e decisões de Lula como “monocráticas” e, por isso, afirma que as “lembram um certo tipo de coronelismo moderno de esquerda”.

O professor é autor do livro Realidade e Realização: A dialética do real na epistemologia de Bachelard - o filósofo francês, por sua vez, propôs questões relativas à filosofia da ciência, que estuda fundamentos, pressupostos e implicações de ciências naturais e sociais.

A crítica de Bertoche de que o PT toma decisões vindas da cúpula, e não da base, é a conclusão da avaliação de que a sigla tem se transformado em um partido de elite, e não baseado em movimentos populares. “Para que a esquerda volte ao protagonismo das ruas, precisará voltar a dar voz e poder de decisão aos trabalhadores, aos estudantes, aos marginalizados”, defende.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:

- Qual a sua posição política? O senhor pode declarar em quem votou na última eleição presidencial?

Eu me defino como pertencente ao campo crítico radical. Isso significa que definitivamente não me posiciono na direita, mas não dá para me definir exclusivamente na esquerda, por que algumas posições minhas são heterodoxas, enquanto outras são ainda mais radicais do que aquelas que a esquerda adota. Na eleição presidencial, eu votei nulo nos dois turnos. Já fui militante, ainda sou filiado ao PSB (Partido Socialista Brasileiro).

- Desde quando o senhor é filiado ao PSB?

Desde 1996.

- Por que acha que a esquerda, então representada pelo candidato Fernando Haddad (PT), perdeu a eleição em 2018? Quais foram os motivos?

Houve um deslocamento das decisões da cúpula partidária, principalmente da do PT, e dos partidos que o acompanhavam, em relação à vida concreta da população, à rotina de quem pega ônibus, tem que trabalhar, vive na pobreza. Houve vários avanços no governo Lula e Dilma, mas as decisões da cúpula partidária impediram a eleição do Haddad. Ele, que perdeu a disputa em São Paulo, foi convocado pelo Lula para ser candidato a presidente. Decisão de cúpula que não correspondeu aos anseios nem mesmo do partido, acredito. Não houve convenções populares como as que existiam nos anos 80 e 90. Foi uma decisão monocrática – essa foi a razão, inclusive, pela qual não pude dar a ele o meu voto.

- Qual foi o maior erro do PT?

Creio que tenha sido justamente esse processo de afastamento das bases, um movimento que se iniciou talvez no final do primeiro mandato do governo Lula. Daí houve essa falta de mobilização popular, e também da imprensa, de apoiá-lo diante de escândalos como o Mensalão. Isso acabou mudando a opinião da população, sobretudo o jovem, o operário, que antes via brilhar o farol da esperança de uma vida melhor no Brasil, e de repente não viu mais essa luz. Vários integrantes do partido estavam ligados a um projeto que era pessoal, e não de país, e isso fica muito evidente quando a própria imprensa começou a noticiar, com muita força, esses assuntos. Embora eu tenha feito campanha para Lula e Dilma, eu reconheço que o PT perdeu a ligação com o povo.

- O que o PT deveria fazer para voltar a ocupar a presidência do país?

É preciso voltar às bases. É preciso dar menos importância à conquista eleitoral do que aos valores da fraternidade e da justiça social. É preciso aceitar, inclusive, eventualmente a possibilidade de derrota eleitoral em nome dos ideais. É preciso não compactuar com valores que são contrários aos do povo, ainda que isso signifique a derrota eleitoral. Talvez seja esse o único caminho para a esquerda voltar à Presidência do Brasil.

- O ex-presidente Lula não pode se candidatar por causa da lei da Ficha Limpa. No entanto, o petista recorre ao posto de presidente de honra e advoga sobre decisões do PT, principalmente sobre nomes que irão concorrer aos cargos públicos. Qual sua opinião sobre os movimentos de Lula?

As candidaturas devem ser construídas da base para a cúpula. É preciso retomar a prática democrática dentro do próprio partido. No fundo, precisamos entender que essas indicações monocráticas do Lula lembram um certo tipo de coronelismo, um coronelismo moderno de esquerda, e com isso não posso concordar.

- Como o senhor argumenta que essas indicações do Lula são um tipo de coronelismo moderno?

Os coronéis dos partidos, em reuniões dominadas pelo seu grupo político, indicavam os candidatos, determinavam as alianças, as estratégias e as táticas políticas nos seus redutos, e se preocupavam mais com a vitória eleitoral do que com os interesses da população. Quando um líder do partido aponta que esse será o candidato, que essas serão as alianças, que essa será a estratégia, encontramos, guardadas as várias diferenças, a prática desses coronéis do passado. Não há nada mais distante, numa candidatura do campo democrático, do que isso.

- O Lula tem pressionado, de certas formas, Fernando Haddad a ser candidato na disputa em São Paulo, mesmo este tendo dito que não quer. É um exemplo de coronelismo?

Mais do que isso. O que eu quero dizer é que a base deveria participar da convenção do partido, formar chapa, bater chapa. A indicação feita pelo líder não é uma indicação da base. Nos anos 90, a figura do Lula se tornou muito poderosa no PT, hegemônica. As próprias pessoas que o questionavam foram afastadas. Fernando Gabeira, Hélio Bicudo, figuras que acompanharam o crescimento do Lula e o apoiaram, foram deixados de lado quando questionaram algumas práticas antidemocráticas do partido. Eu reconheço a enorme importância do Lula, mas ele não pode ser a liderança incontestável do grupo crítico. Ele não pode ser dono da esquerda brasileira.

- Manifestações estão marcadas para ocorrer neste mês (dias 8, 14 e 15). Como o país irá acordar após esses atos?

Não sei dizer, mas, independentemente de como irá acordar, é importante que a população perceba que existe um problema na relação entre os poderes. É preciso levar essa questão e discuti-la independentemente da posição política. As decisões tomadas agora não serão só do presidente Bolsonaro. Não se pode tomar decisão com base na circunstância de quem está no poder. É preciso tomar decisão, levantar bandeiras e ir para manifestações com foco na democracia.

- A nossa democracia está abalada?

Vivemos num país que ainda é democrático. Concordo que politicamente ainda é democrático, embora socialmente não seja. Quando a gente pode criticar o governo e não receber punição por isso, significa que ainda vivemos numa certa democracia plena.

- Críticos apontam que a esquerda não consegue levar milhões às ruas como antigamente. O senhor concorda? Quais são os motivos?

Eu discordo. Quando falamos de levar milhões, estamos falando das manifestações de 2013, que não foram atos da esquerda ou da direita, foram das duas juntas, embora os partidos disputassem a liderança das manifestações. As pessoas estão cansadas de partidos que tenham donos. Se uma manifestação é realizada a partir da base, e não da cúpula, sempre dá certo, independentemente da quantidade de manifestantes, seja de direita ou de esquerda.

- Os partidos foram expulsos das manifestações de 2013. Isso foi e pode ser perigoso caso aconteça em um novo ato?

Sim, a expulsão dos partidos de esquerda das manifestações de 2013 certamente foi algo muito perigoso, mas também foi compreensível. Foi perigoso porque tirou a legitimidade de um grupo político e atribuiu o protagonismo exclusivamente a outro grupo político, o que não foi verdade. E foi compreensível porque os partidos de esquerda, e aí eu coloco o dedo na ferida do PT, que liderava e lidera a esquerda, acabaram quase sempre se transformando em partidos da elite, e não mais em movimentos populares. Para que a esquerda volte ao protagonismo das ruas, precisará voltar a dar voz e poder de decisão, dentro dos próprios partidos, aos trabalhadores, aos estudantes, aos marginalizados.

- O Palácio do Planalto enfrenta escalada de tensão com o Congresso Nacional. Isso é bom para um dos lados?

Eu reconheço que isso faça parte do movimento da própria democracia. Nós vemos no Brasil, há pelo menos 30 anos, que os três poderes têm a prática de arrogarem direitos que pertencem a outros poderes. O Legislativo agora está com o pacote de amarrar o Orçamento. A gente sabe qual o papel de cada poder. Agora, os poderes estão interferindo nos papeis de outros poderes. Qual será o resultado? Não faço ideia.

- Por quanto tempo a direita estará no comando do país?

Historicamente a gente vê processos de ascensão da direita que duram de 10 a 20 anos. Talvez não a figura do Bolsonaro em si, mas provavelmente o atual movimento da direita estará ativo por uns 10 a 20 anos, o que corresponde ao tempo de uma geração política. Eu não sei, inclusive, se Bolsonaro terminará esse mandato, mas ainda que não termine, os seus valores permanecerão vivos em boa parte do eleitorado.

- 2020 é ano de eleições municipais para prefeitos e vereadores. Qual sua avaliação sobre o atual cenário?

O cenário está muito polarizado e qualquer tentativa de fazer uma previsão é arriscada. Não acho seguro apontar nenhum prognóstico.