Zema cita limite de testes e admite subnotificação da covid-19 em MG

Estado contabiliza 121 mortes e 3.320 casos de covid-19. Estudo da UFMG aponta, no entanto, que esses números podem ser até sete vezes maiores

Zema durante coletiva sobre as ações de enfrentamento ao coronavírus

Zema durante coletiva sobre as ações de enfrentamento ao coronavírus

Luidgi Carvalho / Folhapress / 27.03.2020

O governador Romeu Zema (Novo) admitiu nesta terça-feira (12) que há subnotificação de casos de infecção pelo novo coronavírus no Estado de Minas Gerais, que contabiliza 121 mortes e 3.320 casos confirmados de covid-19. Um estudo da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) aponta, no entanto, que esses números podem ser até sete vezes maiores.

“Podemos ter pessoas infectadas e não notificadas, porque em muitas pessoas, na grande maioria, a infecção é assintomática. Agora, qualquer óbito, se existe a suspeita, é testado”, afirmou Zema em entrevista exclusiva ao R7 Planalto.

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Questionado sobre a possibilidade da realização de testes em massa, Zema disse que “não tem condição de testar”. “A maioria dos testes tem 40% de falso positivo, 30% de falso negativo, e isso torna quase que julgar cara ou coroa. Não temos hoje segurança em relação aos testes e Minas ainda tem o problema da dificuldade financeira”, argumenta.

O governador rechaçou também qualquer ideia sobre o afastamento ou a saída de seu partido, o Novo. “Eu fico. E estou muito satisfeito. Eu fico no Novo ou saio da política, porque eu não coaduno com a prática da grande maioria de partidos, que existem muitos mais para atender alguns poderosos do que propriamente para ter um plano, uma representatividade em relação à população”, defendeu.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista com Romeu Zema:

- O senhor lançou o programa Minas Consciente, que restabelece a reabertura do comércio em cidades mineiras. Quantos municípios aderiram ao programa até o momento? Quais aspectos foram considerados na elaboração do programa? De que forma o Estado pretende monitorar o nível de eficácia de medidas de isolamento e da volta do comércio?

O número exato dos municípios eu não tenho porque é algo muito dinâmico. Nós temos casos de prefeitos que reativaram a economia, e o Ministério Público foi contrário naquela localidade, e acabou tendo uma decisão judicial. Isso ocorre a todo momento. Mas, a minha visão, é de hoje mais de 90% dos municípios mineiros já estão com a sua economia parcialmente reativada.

E, com relação ao segundo ponto, essa reabertura tem levado em consideração a incidência da covid-19 naquela região do Estado e a disponibilidade de leitos hospitalares. Então nós temos regiões do Estado que são consideradas muito seguras, porque têm grande quantidade de leitos disponíveis e um baixíssimo número de infectados. E temos a situação oposta também. Isso depende de cada região, está sendo monitorado, e essa reabertura leva esse fato em consideração.

- Críticos afirmam que o programa é um risco à saúde dos mineiros, mesmo em municípios que registraram infectados em menor escala. Qual a garantia de que essas cidades continuarão registrando poucos infectados mesmo com maior aglomeração?

A garantia que nós temos é a eterna vigilância. Não adianta você começar esse processo de reativação somente porque tem bons índices e esquecer, nós estamos diariamente acompanhando, e é um processo reversível. De certa maneira, nós temos como levar adiante, porque hoje apenas 6% dos leitos de UTI estão sendo ocupados por portadores ou suspeitos da covid-19, é um número muito baixo, Então isso nos dá um colchão de conforto. Mesmo que a quantidade de infectados venha a aumentar, nós vamos ter condição de acusar isso muito antes do sistema de saúde ficar sobrecarregado.

Vale lembrar que nós temos também todo um sistema de contingência, um hospital de campanha com quase 800 leitos que está disponível, que até o momento, graças a Deus, não foi utilizado. Já compramos respiradores em grandes quantidades que começam a chegar no início do mês que vem. Então, mesmo que a situação venha a piorar, no que diz respeito à quantidade de infectados, nós vamos ter um sistema de saúde muito bem preparado para atender. Não é o número de infectados, é a capacidade do sistema de saúde.

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- Levantamento feito pelo R7 mostra que Minas está entre os estados que menos testam os pacientes com suspeita de Covid-19 no país. Nesta segunda, o secretário de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, afirmou que não há previsão de ampliar a testagem. Como o governo de Minas pretende desenvolver ações de combate sem saber, de fato, quantas pessoas foram infectadas? O senhor confirma subnotificação em Minas?

Primeiro, podemos ter pessoas infectadas e não notificadas, porque em muitas pessoas, na grande maioria, a infecção pelo vírus da covid-19 é assintomática, ou seja, a pessoa tem ou já teve o vírus e não sentiu absolutamente nada. Isso é o que acontece na grande maioria dos casos. Agora, qualquer falecimento, qualquer óbito, se existe qualquer suspeita de que tenha sido covid-19, ele é testado. Então, nós podemos dizer que, entre vivos, existe subnotificação. Entre aqueles que faleceram, não. Há um controle de óbitos muito bem conduzido.

Segundo, nós não temos condição de testar, porque a maioria dos testes tem 40% de falso positivo, 30% de falso negativo, e isso torna quase que julgar cara ou coroa. Não temos hoje segurança em relação aos testes, e Minas ainda tem o problema da dificuldade financeira. Nós estamos gastando o pouco que temos com leitos. Dessa maneira, mesmo que os casos venham a aumentar, o mineiro vai ter leitos disponíveis. E o teste não salva vidas, é igual termômetro.

Agora, toda pessoa que tem um sintoma mais forte, é testada. Hoje, Minas está testando cerca de 2 mil pessoas por dia. Então não é por falta de teste que nós podemos ter alguém sendo prejudicado, de forma alguma.

Filiado ao Novo, foi eleito governador de MG em 2018 com 6.963.806 votos (72%)

Filiado ao Novo, foi eleito governador de MG em 2018 com 6.963.806 votos (72%)

Alexandre Rezende / Folhapress / 06.11.2019

- O senhor tem protagonizado alguns embates com a direção do Novo. Recentemente, o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) foi expulso do partido. Qual sua avaliação sobre a saída de Salles? O senhor pretende sair da sigla?

Em primeiro lugar, o Novo é um partido que tem uma diferença gritante dos demais, porque nós temos uma separação muito grande entre a operação partidária, ou seja, a administração e gestão do partido, e os mandatários. Eu e os demais vereadores, deputados estaduais e federais, somos proibidos pelo regulamento de exercer qualquer cargo dentro do partido. Nós somos sim monitorados e até fiscalizados se estamos exercendo o nosso mandato de forma adequada. Então, todos nós, quando entramos e filiamos ao partido, temos de ter ciência disso. Estou muito confortável com isso. Eu venho do setor privado, e sempre fui muito cobrado por um conselho de administração. E aqui eu tenho o partido que me cobra. E o Brasil estaria muito melhor se todos os partidos procedessem dessa maneira, ao invés de ficar acobertando muitas vezes criminosos. O Novo não procede dessa maneira.

Se o ministro [Ricardo] Salles fez alguma coisa, e eu não acompanho as atividades partidárias, como eu te disse no caso se ele fez algo em desacordo com o partido e foi expulso, com certeza o partido deve ter tido os seus motivos. Mas eu não tenho aqui essa informação, até porque não acompanho. Mas o partido tem um comitê que acompanha e está sujeito a acontecer a qualquer um, inclusive comigo.

- Mas e o senhor?

E eu fico. E estou muito satisfeito. Eu fico no Novo ou saio da política, porque eu não coaduno com a prática da grande maioria de partidos, que existem muitos mais para atender alguns poderosos do que propriamente para ter um plano, uma representatividade em relação a população.

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- Qual a sua avaliação sobre a forma que o governo federal tem trabalhado para combater o novo coronavírus?

O programa do partido Novo, o programa que eu julgo correto para a economia, tem muita semelhança, muita sobreposição com o governo federal tem feito. Nós acreditamos que precisamos de um Estado menor, de cortar privilégios no setor público, que esse é o caminho. Nessa pauta, nós estamos totalmente juntos.

Agora, eu, como membro do Executivo, que tenho fazer a gestão de um Estado, não entro em pontos que não dizem respeito a mim. Cabe ao Parlamento estar discutindo essas questões.

- Mas o presidente tem dito, por exemplo, que é favor do isolamento para pessoas do grupo de risco, da volta da economia, o que mostra um descompasso com os outros três governadores do Sudeste, região que o senhor faz parte. O senhor apoia as afirmações feitas por Bolsonaro?

Tudo é relativo. Nós aqui em Minas fizemos um isolamento que perdurou por quatro cinco semanas. O Estado ficou praticamente paralisado. E diferente dos outros Estados do Sudeste, principalmente de Rio e São Paulo, nós estamos hoje com mais de 90% dos municípios operando em semi-normalidade. Eu faço em Minas aquilo é certo para Minas.

Na minha opinião, seria um erro adotar as mesmas medidas pra cidades distintas. Nós temos de cidades como Juiz de Fora, que ainda está paralisada porque tem uma quantidade muito grande de casos, e temos muitos municípios que não têm sequer um infectado. Adotar o mesmo remédio para situações distintas não seria adequado e vejo que, no caso de um país, querer o mesmo medicamento para todos os Estados não seria adequado. Eu não compartilho com a opinião de querer uniformizar o que é diferente.

- O senhor planeja vender a Codemig, considerada a galinha de ovos de ouro de Minas Gerais. O projeto está parado e não há previsão de data do novo leilão. É por esse motivo que o senhor tem se esquivado de críticas mais contundentes ao governo federal?

Como eu disse, eu sempre, desde a campanha, desde o início do governo, nós temos essa proximidade com o ministro Paulo Guedes [Economia], que defende uma agenda liberal, e o nosso partido é um partido liberal. Em relação a isso, nós vamos estar sempre próximos ao governo. Estávamos antes da questão da pandemia, da Codemig, e vamos continuar. Agora, se amanhã o presidente tomar um rumo com o qual nós discordamos, nós vamos também deixar isso muito claro. Nós somos um partido de propostas. Nós temos propostas. Aquilo que o governo federal fizer, e que nós julgarmos ser bom para o Brasil, nós vamos apoiar. Se aquilo que ele fizer e nós julgarmos como ruim, nós vamos ser contrários, como a bancada nossa no Congresso tem agido.

- Mas o senhor tem conversado com integrantes do governo sobre essa questão específica da Codemig?

Nós sempre conversamos com o governo federal. Desde que eu assumi, eu devo ter me reunido com o presidente seis, oito vezes e o ritmo não mudou. Agora, da última vez que eu estive com o presidente e com o ministro (Paulo Guedes), eu realmente solicitei a eles uma atenção especial ao caso da Codemig, que estava para fazer uma operação, e com o advento da pandemia, o mercado financeiro está todo paralisado. Hoje, não há nenhuma empresa fazendo abertura de capital.

E eu disse ao presidente que esse é o momento do BNDES inclusive ganhar dinheiro, porque é uma operação muito rentável para quem está do outro lado, e é boa para o Estado. E amanhã seria uma oportunidade do próprio governo federal de ter participação nessa mina de nióbio, que é um metal estratégico, e não só Minas ficar proprietária dessa mina. Minas e o governo federal poderiam estar dividindo essa propriedade desse metal que é tão estratégico para o Brasil, e que tem a se tornar mais ainda, já que está iniciando o uso dele em baterias de carros e de celulares.

- Antes da pandemia, no início do ano, cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, incluindo a capital, foram atingidas pelas fortes chuvas, causando destruição e mortes. O que está sendo feito para que isso não se repita no período chuvoso do próximo ano?

A questão das chuvas tem muito a ver com habitações que foram erguidas em locais totalmente impróprios. Com relação a isso, é possível sim se fazer. Vale lembrar que essa ação é de cada prefeitura, mas o Estado deu todo apoio a essas prefeituras para estarem preparando projetos junto ao governo federal e ao Ministério da Cidadania, para que essas habitações em risco venham a ser demolidas e construídas outras em locais apropriados.

Nós temos, infelizmente, situação como a que visitei em Governador Valadares, onde a cidade está à margem de rio. Quando esse rio sobe, não há o que fazer a não ser aquela parte ser inundada. O que foi feito, e muito bem feito, foi uma previsão que avisou todos os moradores e nós não tivemos nenhuma vítima. A solução de um problema desses seria realocar a cidade, o que operacionalmente é meio difícil.

- Impossível nesse caso, né?

Sim, impossível. Então continuaremos sujeitos a ter esse tipo de inundação quando o regime de chuvas for muito intenso. Talvez alguém venha com uma solução, mas no momento não há quando essa questão de o rio sair da calha e a cidade ter sido construída num local que não é tão seguro.