Ataque à estátua de Borba Gato, novas ameaças e divisão política

Monumento incendiado no último sábado representa uma involução, já que "pagar o mal com o mal" nunca é a melhor alternativa

Já não é mais novidade o ataque à estátua do bandeirante Borba Gato, que aconteceu no último sábado (24), na zona sul de São Paulo. As 20 pessoas que bloquearam a Avenida Santo Amaro e atearam fogo no monumento de 13 metros deixaram claro que, para elas, a solução para os problemas históricos, ou não, é o ódio.

Grupos da esquerda manifestaram apoio ao que estão chamando de atitude revolucionária e deixaram recados em tom de ameaça, como foi o caso de uma publicação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) no Twitter. "Ação direta, ataque à simbologia da opressão! Borba Gato foi um assassino que entrou para a história por dizimar e escravizar a população indígena originária do Brasil. Para os genocidas do passado e do presente, fica o recado: o clima está esquentando".

Por outro lado, grupos da direita alegaram que foi uma atitude terrorista. Além deles, diversos especialistas - que são contra qualquer tipo de racismo - refutaram a destruição da estátua de Borba Gato. Até mesmo o jornalista e escritor Laurentino Gomes já se posicionou sobre o tema. "Estátuas, prédios, palácios e outros monumentos são parte do patrimônio histórico, devem ser preservados como objetos de estudo e reflexão", disse em suas redes sociais.

Por que ele?

Para entender melhor, Borba Gato nasceu em 1649 e se tornou um bandeirante paulista. Os bandeirantes costumavam ser descendentes de portugueses e participavam de expedições em busca de terras, ouro e outras riquezas e de escravos.

Estátua de Borba Gato foi incendiada no sábado (24)

Estátua de Borba Gato foi incendiada no sábado (24)

Gabriel Schlickmann / Estadão Conteúdo

Segundo historiadores, eles foram um dos principais responsáveis pela expansão de todo território brasileiro, ultrapassando as barreiras do Tratado de Tordesilhas. Mas, apesar desse esforço positivo, os bandeirantes também contribuíram com o regime de escravidão que era mantido na época do Brasil Colônia, porque capturavam escravos foragidos e indígenas. No caso de Borba Gato, há acusações de que ele também era contrabandista de ouro.

O fato de Borba Gato ser considerado um escravagista motivou o ataque, já que está na moda, desde o assassinato de George Floyd em 2020, atacar monumentos de personagens históricos.

Nos últimos meses, alguns manifestantes chegaram a destruir estátuas de personagens considerados heróis nacionais, como Thomas Jefferson e George Washigton. A justificativa é que eles foram proprietários de escravos.

Gravidade

De qualquer forma, a conduta de depredar bens públicos ou privados é extremamente problemática. Primeiro porque é vandalismo, uma vez que o ato configura crime contra o patrimônio público. Um suspeito, inclusive, foi preso no domingo. As investigações estão buscando os demais autores. É preciso que haja punição para que crimes como esse não se repitam.

A estátua do estadista Jefferson Davis, presidente dos Estados Confederados da América durante a Guerra Civil Americana, foi derrubada em Richmond, nos EUA

A estátua do estadista Jefferson Davis, presidente dos Estados Confederados da América durante a Guerra Civil Americana, foi derrubada em Richmond, nos EUA

Parker Michels-Boyce / AFP

Segundo porque se a população for julgar de forma tão agressiva, em pleno século XXI, a conduta das pessoas que viviam séculos atrás enfrentaremos um problema sério. Como bem lembrou o jornalista Diogo Schelp, além de não mudar o passado nem o presente, iniciaria uma revisão sem fim de monumentos e de nomes de lugares e até de ruas.

Olhar para frente

A lei do "olho por olho, dente por dente" fazia parte do Código de Hamurabi em 1770 a.C e ela dizia que se um homem arrancasse o olho de outro homem, este deveria também ter o olho arrancado ou se um homem quebrasse os dentes de alguém, quem causou o estrago também deveria ter esse fim. 

Com a evolução da humanidade, as leis também evoluíram, mas esses manifestantes não. Ao vandalizar, agem de forma similar ao que tanto criticam. Afinal, se eu não concordo ou não gosto de alguém, tenho direito de agredí-lo? Em que século estamos vivendo, mesmo?

Guardar rancor e mágoa do passado só paralisa a vida e impede a capacidade de ter sentimentos positivos e bons. Quando a vingança vira uma fixação, a pessoa se perde e pode ter atitudes cujas consequências acabarão com o seu futuro.

Então, se a vingança está relacionada à irracionalidade é preciso vencê-la para que a razão prevaleça. No caso de monumentos, pode-se usar de meios legais para pedir a proibição e até a retirada deles. 

O ódio nunca é a melhor resposta. É muito mais inteligente pensar no que se pode fazer de diferente daqui para frente. Viver o presente, para construir um futuro melhor.

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