Luta dos pais para cuidar de Pablo acende alerta sobre depressão

Por conta do transtorno emocional, jovem convive com graves sequelas. Especialistas comentam o aumento expressivo de crianças e adolescentes que apresentam comportamentos depressivos durante a pandemia

"Pai, estou sentindo um vazio dentro de mim, uma tristeza que aparece do nada, sem motivo". Quando ouviram esse desabafo, os pais do jovem Pablo, Rozilma e Osmar Novais ficaram muito preocupados e decidiram buscar ajuda.

"Meu filho não era uma criança que aparentava ser triste, pelo contrário, sempre foi alegre, inteligente e estudioso. A única coisa que me chamava atenção é que ele se cobrava muito! Mas, para nós, foi uma surpresa quando ele disse que não tinha mais vontade de viver. E o desabafo não ficou apenas nas palavras. Ao final de 2017, quando estava com 14 anos, ele tentou tirar sua vida pela primeira vez", lembra o pai do adolescente.

Pais de Pablo têm esperança na recuperação do filho e alertam para que as famílias não ignorem sinais de depressão nos jovens

Pais de Pablo têm esperança na recuperação do filho e alertam para que as famílias não ignorem sinais de depressão nos jovens

Reprodução / Arquivo Pessoal

Os pais de Pablo conseguiram um tratamento psicológico para o adolescente, mas, segundo eles, não trouxe efeito positivo. Então, a família buscou, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a possibilidade de uma internação psiquiátrica. "Ele estava disposto a receber auxílio para vencer o transtorno, mas não tínhamos como pagar uma intervenção particular e não conseguimos que ela acontecesse de forma pública", acrescenta Osmar.

Enquanto isso, Pablo tentou o suicídio outras vezes. "Não desistimos de buscar ajuda e começamos a vigiá-lo. Eu e minha esposa não o deixávamos sozinho. Mas, bastou eu precisar ir ao banheiro para ele ter outra crise".

Quando Osmar retornou ao quarto, Pablo já estava sem sinais vitais. Porém, quando chegaram ao Pronto Socorro, o coração do jovem voltou a bater. "Ele teve morte encefálica e ficou mais de cinco meses internado. Pablo sobreviveu, mas, hoje, aos 17 anos, é dependente de aparelhos para respirar e perdeu todos os movimentos do corpo. Não consigo aceitar o que aconteceu e, como mãe, sofro muito", desabafa Rozilma.

A rotina do casal é voltada para cuidar de Pablo. "Não é fácil, sofremos muito, tanto emocionalmente quanto financeiramente. Vivemos para ele e nos dividimos, a Rozilma trabalha durante a noite e eu durante o dia. Além disso, muitas pessoas são solidárias e nos ajudam. Um colega da escola dele, Leonardo, por exemplo, faz questão de vir aqui em casa todos os dias para ficar com o Pablo. Acreditamos na recuperação dele porque presenciamos pequenas evoluções diárias", detalha Osmar.

Alerta aos jovens

A história de Pablo é triste e a torcida é para que ele consiga se recuperar e conquistar uma vida saudável. Mas, ao mesmo tempo, o que aconteceu com ele serve de alerta para pais e filhos. "Até então, para mim, depressão era bobagem, frescura. Mas, não é. É uma doença silenciosa e grave. Os pais precisam ficar atentos, ainda mais nesse período de pandemia", observa o pai.

Pablo aparentava ser um menino normal, mas dizia aos pais que sentia uma tristeza interior que não conseguia controlar

Pablo aparentava ser um menino normal, mas dizia aos pais que sentia uma tristeza interior que não conseguia controlar

Reprodução / Arquivo Pessoal

Ele está certo. Um monitoramento realizado com mais de 7 mil crianças e adolescentes de todo o país, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), concluiu que uma em cada quatro crianças e adolescentes apresentou ansiedade e depressão durante a pandemia com níveis clínicos, ou seja, com necessidade de intervenção.

Os números realmente impressionam. Ainda segundo o estudo, atualmente, uma em cada seis crianças e adolescentes no mundo são afetadas por algum transtorno mental. Somente no Brasil, dos 69 milhões de pessoas com 0 a 19 anos, há registro de 10,3 milhões de casos de transtornos.

Outros dados divulgados pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos revelaram que as tentativas de suicídio aumentaram 50% no período da pandemia. 

Então, é preciso falar sobre o assunto. "A adolescência é uma fase de transição, onde os hormônios são componentes que contribuem para as alterações de humor e o jovem buscar ser aceito... É um período bem complicado... Assim, a tristeza é uma emoção presente, por isso, sempre oriento os pais a redobrarem a atenção, a paciência, o diálogo e o afeto", observa a psicóloga Viviane Silva. 

Cerca de dez mil voluntários do grupo Depressão Tem Cura levam auxílio espiritual e esperança a quem precisa. Os projetos gratuitos atuam em vários segmentos da sociedade e o objetivo deles é mostrar que existe uma luz na escuridão

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Divulgação / Valorize sua Vida

Além disso, a também psicóloga Cláudia Gindre lembra que muitos jovens estão imbuídos do impulso de se livrarem da dor da alma, do sofrimento e da angústia. "Assim, pensam que tirando a vida vão se livrar dos problemas, um grande engano", lamenta. 

A especialista em estratégia para Saúde da Família, Elisângela Lacerda, reforça a necessidade de os pais estarem atentos a qualquer mudança de comportamento. "Quando está com depressão, o jovem costuma mudar a forma de se vestir, passa a dizer palavras negativas, como por exemplo 'preferia estar morto', 'sou um perdedor', entre outras. Por isso, os responsáveis precisam observar a postura dos filhos e buscar ajuda se necessário".

Prevenção

Para Cláudia, no processo de criação, as famílias não devem adotar a postura de "poupar" seus filhos e filhas de quaisquer frustrações, por menores que sejam. "Na prática, sabemos que a vida humana é repleta de perdas e conquistas. Tentar evitar que as crianças entrem em contato com ambas, poderá acarretar um impacto maior quando elas crescerem e perceberem que as limitações são inevitáveis. Uma segunda postura desconsidera o valor do diálogo, da atenção e esclarecimento das dúvidas das crianças, como se não fossem legítimas, ou se pudessem esperar para receber suas respostas mais tarde. Uma infância bem-informada, com argumentos sólidos e esteio afetivo, pode trazer a segurança que será tão necessária ao longo do seu crescimento", orienta.

O ato de Pablo trouxe sequelas que atingiram não apenas ele, mas toda família. Por isso, sua história clama por mais atenção à esse tema.

Alguns grupos fazem um trabalho voltado a pessoas que sofrem com problemas emocionais. O projeto Depressão Tem Cura (DTC), por exemplo, realiza o acompanhamento daqueles que reconhecem que precisam de ajuda. É possível ter mais informações por meio do Instagram a.depressaotemcura ou por meio do número de WhatsApp (11) 3573-3662.

Toda campanha contra o suicídio deve ser incentivada, inclusive nas escolas e nos grupos comunitários, sobretudo para que os jovens possam se expressar, serem ouvidos e acolhidos. 

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