Os reais protagonistas das manifestações não podem ser esquecidos

Uma multidão composta por idosos e crianças se mobilizou de forma pacífica e pediu por liberdade e justiça, mas, ato histórico foi considerado antidemocrático

400 mil pessoas. Essa foi a estimativa do número de pessoas que passaram pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, nas manifestações de Sete de Setembro. Segundo informações da Polícia Militar, o último evento que reuniu tanta gente por lá foi na comemoração do tetracampeonato do Brasil na Copa do Mundo, em 1994.

Em São Paulo, as fotos também impressionam: 125 mil pessoas se reuniram na Av. Paulista, de forma pacífica. Os atos aconteceram em todas as capitais do país e, ao contrário do que grande parte da imprensa divulgou, não foram antidemocráticos.

Brasileiros se reuniram na Av. Paulista para protestar contra censuras e injustiças

Brasileiros se reuniram na Av. Paulista para protestar contra censuras e injustiças

Reprodução / Divulgação

Enquanto muitos direcionaram suas atenções apenas ao presidente Jair Bolsonaro, os verdadeiros protagonistas não podem ser esquecidos: a população. 

O povo finalmente mostrou que não aceita ser massa de manobra daqueles que estão acostumados com o "poder e a caneta".

E fez bonito! Famílias inteiras clamaram por um país mais justo, por liberdade de expressão, por melhores condições de saúde, de empregos, de educação. Foi sim, um dia histórico.

Mas, infelizmente, quem não aceita que já existe no país uma crescente conservadora, está fazendo uso desse acontecimento para acentuar ainda mais o "nós contra eles".

Fiquei perplexa quando vi uma cobertura em que o repórter dizia que o lado que estava hasteando bandeiras vermelhas com símbolos comunistas e nomes de partidos, pedindo inclusive por uma ditadura do proletariado, era considerado o lado que estava a favor da democracia, enquanto isso, todas as milhares de pessoas que estavam vestindo verde e amarelo, sem qualquer referência a partidos políticos, foram consideradas fascistas. 

"O que a grande imprensa fez nas últimas horas foi desenvolver todo tipo de narrativa para desmoralizar os patriotas e conservadores que protagonizaram uma das maiores manifestações da história do país. Do ponto de vista meramente midiático, é ridículo acompanhar as narrativas sobre fascismo e atos antidemocráticos quando vimos manifestações pacíficas e repletas de famílias – enquanto as manifestações da esquerda incluem destruição de estátuas e confronto com a polícia", observa o sociólogo, especialista em educação e política, Thiago Cortês.

Em pauta democrática, manifestantes pediram liberdade de expressão

Em pauta democrática, manifestantes pediram liberdade de expressão

Luidgi Carvalho / Divulgação

Ingenuidade ou interesse?

Essa atitude nos faz questionar: por que a voz dessa multidão foi silenciada? Para Cortês, há uma explicação para isso. "A verdade é que jornalistas e intelectuais em geral aprenderam a enxergar a realidade social sob a ótica do marxismo – ainda que um marxismo superficial – e têm uma visão abstrata do que seria o povo: um agente coletivo à disposição das causas de esquerda. O que vemos, contudo, é que o povo ama sua Pátria, a família e a liberdade. E isso nunca foi uma pauta de esquerda. Os jornalistas estão com dificuldades para interpretar essa manifestação, portanto, preferem rejeitá-la em nome da uma visão abstrata de povo. Quando o povo real sair às ruas, a partir de agora, será chamado de fascista", lamenta.

Além disso, em "Os Donos do Poder - Formação do Patronato Político Brasileiro", clássico de 1958, o jurista e intelectual brasileiro, Raimundo Faoroque, analisa como os portugueses influenciaram a formação política brasileira atual. Para o autor, eles teriam transportado para o Brasil uma estrutura burocrática que tomou posse do Estado, de suas instituições e, principalmente, de seus recursos.

Apesar das milhares de pessoas presentes em diversas capitais do país, as manifestações foram pacíficas

Apesar das milhares de pessoas presentes em diversas capitais do país, as manifestações foram pacíficas

Reprodução / Divulgação

"Assim, formou-se um tipo de política acostumada a convocar o povo apenas para validar seu esquema de poder, por meio do voto, sem qualquer espaço para protagonismo ou uma pauta de real interesse para o Brasil. Raimundo Faoro, portanto, já alertava sobre esses 'Donos do Poder' que tomam conta do Estado, controlando as instituições 'em nome do povo', mas sem consultá-lo, mesmo que não tenham sido eleitos ou tenham qualquer legitimidade popular", opina o sociólogo.

Por isso, as manifestações são uma grande reação popular contra a máquina do poder. "As pessoas estão nas ruas lutando por soberania, pelo direito de terem suas escolhas políticas reconhecidas e legitimadas, estão lutando pela democracia real, que não passa, de forma alguma, pela tutela dos 'Donos do Poder', estejam eles no STF ou na imprensa", conclui Cortês.

Assim, o que está acontecendo é muito maior do que apenas uma disputa entre esquerda e direita. Só não vê quem realmente não quer ou está preocupado em defender ideologias de partidos políticos. 

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