A rapidez parlamentarista

Primeiros-ministros terão melhores condições políticas para atravessar essa crise de proporções inéditas

O primeiro ministro Boris Johnson

O primeiro ministro Boris Johnson

LEON NEAL/ EFE/ EPA/ 19.03.2020

Até sábado, eu estava com sorte. Estava em Gotemburgo, na Suécia, para um período de pesquisa acadêmica. Assisti, de longe, o pior da crise mundial. Houve uma morte na cidade, que é a segunda maior do país, há duas semanas por causa do coronavirus. De resto, a vida estava tranquila. O comércio não fechou. Bebidas alcoólicas continuavam vendidas na loja estatal, o Systembolaget. Mas começou um forte burburinho sobre o início da quarentena em Gotemburgo no fim de semana e decidi voltar.

Dado que a qualidade do governo sueco é imensa, o primeiro-ministro Stefan Löfven anunciou rapidamente um socorro financeiro de 29 bilhões de dólares para minimizar os efeitos econômicos da crise. A moeda local tende a se desvalorizar - a Suécia pertence à União Europeia, mas não adotou o euro –, mas o impacto econômico aqui será bem menor do que em países imensos como os Estados Unidos, Alemanha, China e Rússia.

A decisão de Löfven, referendada rapidamente pelo parlamento, foi possível porque em sistemas parlamentaristas o imbricamento entre Executivo e Legislativo é total. Estou simplificando, é claro. Conflitos políticos entre partidos e líderes existem em qualquer lugar. Mas o parlamentarismo é bem talhado para resolver as disputas com rapidez e legitimidade.

A Inglaterra segue a mesma toada, com números superlativos. O primeiro-ministro inglês, Boris Johnson (Partido Conservador), acaba de anunciar a terceira etapa de um pacote de 490 bilhões de dólares. Segundo os cálculos do economista Manoel Pires, da FGV, o estímulo fiscal definido por Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, equivale a 37% do PIB do país. No Brasil, por enquanto, é 4%.

Presidentes têm mais dificuldade do que primeiros-ministros. Em crises graves como esta, os líderes precisam de confiança dos cidadãos para lidar com a incerteza. São esses os dois principais elementos em jogo hoje.

O cérebro humano resolve incertezas de um modo simples: inventando uma realidade binária, em que as coisas se definem no “bem contra o mal”. Não há, de início, problema com isso. Muitas pessoas lidam com o futebol dessa maneira. Algumas exageram. Mas é uma maneira de simplificar a vida e nela achar sentido.

O problema é aplicar esse raciocínio a uma complexa crise economica, política e social. Mesmo dizer “defenda o SUS” serve para pouco. Ok, os “inimigos” políticos podem não querer a provisão estatal de serviços de saúde. Mas isso não ajuda a encontrar resposta política para o coronavirus.

Culpar a China, que desde o início de janeiro tenta encontrar uma vacina viável, segundo a insuspeita “The Economist”, tampouco é comportamento de um bom líder. Quem faz isso, como Donald Trump e Eduardo Bolsonaro, tende a perder a confiança dos cidadãos à medida que as pessoas morrem.

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)