Três Pontos Macho não sabe se comportar nem se a mulher é a melhor do mundo

Macho não sabe se comportar nem se a mulher é a melhor do mundo

Ada Hegerberg é a melhor boleira do mundo, mas recebeu em troca um pedido para rebolar. Quando vamos parar de passar vergonha?

Ada Hegerberg: ela é a melhor jogadora do mundo, só isso

Ada Hegerberg: ela é a melhor jogadora do mundo, só isso

David Ramos/Getty Images - 24.5.2018

Ada Hegerberg tem 23 anos e é um fenômeno do futebol. Isso deveria ser de domínio público, mas o mundo quadrado e machista da bola redonda impede que esses dados cheguem a você.

Não importa como ela se veste e qual sua aparência, mas o que ela joga. São três títulos de Liga dos Campeões e quatro campeonatos franceses pelo Lyon. Nem Juninho Pernambucano, maior astro do clube na primeira década dos anos 2000, chegou a esse feito continental. São 92 jogos em cinco temporadas e incríveis 116 gols, uma média de 1,26 gol por partida.

Ada foi premiada pela revista France Football na segunda-feira (3) como a melhor do mundo, mas o assunto foi abafado pelo comportamento inadequado do anfitrião do prêmio Bola de Ouro, o DJ Martin Solveig. Ele pediu que Ada rebolasse, o que ela não concordou.

Solveig fez essa relação porque o mundo ainda está acostumado a passar pano para esse tipo de comportamento de macho. Ele é o espelho de um grupo que ainda vê a mulher por seus dotes físicos e não por sua habilidade, técnica e talento. Ele não soube lidar com uma mulher loira e jovem que recebia o primeiro prêmio da revista francesa para a melhor do mundo.

Ele certamente não faria isso com um homem, como não fez com Modric, o croata eleito o melhor do mundo. As mulheres podem rebolar; os homens, não.

O DJ não está sozinho nesse mundo que vê as mulheres sempre de maneira sexualizada. Já reparou como nunca ninguém se referiu à seleção de vôlei masculina como a dos “garotões” da modalidade, mas a feminina sempre será a das “meninas”? Ou na diferença de tratamento entre os gigantes homens do tênis e as mulheres? Que, a cada competição, uma musa será eleita e nenhum atributo profissional será considerado nessa escolha?

Não adianta pedir desculpas, como Solveig fez horas depois. O mundo está se transformando, permitindo que mulheres digam não como fez Ada logo após o pedido. Crianças já questionam porque apenas homens têm destaque no competitivo mundo do futebol. Essa estrutura que estamos acostumados começou a ruir — e reforço: ainda bem.

A cada provocação, a cada oportunidade que uma mulher for rebaixada a um brinquedo de satisfação masculino, elas vão responder da mesma forma como fez a norueguesa. Vão dizer não, sem nenhum obrigado.

E, a propósito, você já viu como a Ada joga?

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