Tragédia no Flamengo
Três Pontos Tragédia no Flamengo: a busca por lucro vai eliminar quantas vidas?

Tragédia no Flamengo: a busca por lucro vai eliminar quantas vidas?

Quando garotos com 15 anos morrem em um acidente evitável, fica a pergunta: os centros de base continuarão sendo só depósito de meninos?

Christian Esmério, goleiro da seleção sub-15, uma das vítimas da tragédia

Christian Esmério, goleiro da seleção sub-15, uma das vítimas da tragédia

Divulgação/Flamengo

Pelé tinha 15 anos quando chegou a Santos. Um ano depois, estrearia na seleção e em 1958 seria campeão do mundo. Ronaldo Nazário abriu mão de frequentar a base do Flamengo porque se recusaram, segundo ele, a pagar seu gasto com transporte. Preferiu o São Cristovão, na zona norte carioca, mais próximo do subúrbio em que morava, em Bento Ribeiro.

Juvenis do São Paulo entre as décadas de 1970 e 1990 moravam sob as arquibancadas do Morumbi — entre eles, estiveram Serginho Chulapa, Muricy Ramalho, Muller, Silas e Rogério Ceni — antes de o Centro de Treinamento ser instalado na Barra Funda e depois em Cotia.

É triste pensar em um garoto, como Pelé foi, entre as vítimas do incêndio no alojamento do Ninho do Urubu, do Flamengo, no Rio de Janeiro. Vinícius Júnior, hoje em constante ascensão no Real Madrid, estava lá havia poucos anos.

Há sete anos, quando editava a revista Placar, fui a um dos jogos do sub-20 do Corinthians em Campo Limpo Paulista. Era notória a diferença entre a estrutura do clube paulista e a do adversário — para pior, claro. Enquanto os garotos do Red Bull Brasil chegavam em ônibus top de linha, com ar-condicionado, os do Corinthians vinham no velho Mosqueteiro II, uma peça de museu, com bancos frouxos e desconfortáveis e ventilação apenas pelas janelas abertas. Vi os atletas recebendo massagens e colocando proteção para o jogo do lado de fora do vestiário. Algo parecido com a várzea.

Ou seja, enquanto os grandes clubes de futebol montam elencos caros e estruturas pomposas para as estrelas que recebem, os garotos — parte importante na construção do patrimônio, tanto histórica quanto financeiramente — vivem no pior do século 20.

Este post não tem a intenção de ser leviano, mas os alojamentos do centro de treinamento do Ninho do Urubu, no Rio, não pareciam os mais adequados. Os clubes, salvo exceções como São Paulo e Santos, por exemplo, não têm cuidado com a excelência dos departamentos de base. Atletas são deixados ao relento, em uma estrutura que remete a clubes do interior sem dinheiro.

Em 2011, quando visitei o local onde ficavam os jogadores do Corinthians, debaixo do estádio de Guarulhos (Grande São Paulo), me assustei com as condições. A estrutura era de madeira, com 270 atletas do sub-11 ao sub-23. Havia apenas três chuveiros e faltavam toalhas. Sim, as condições melhoraram — hoje os garotos ficam na Casa do Atleta, próxima ao Parque São Jorge —, mas ainda assim estão longe do nível do tratamento dado às estrelas do profissional.

Quando garotos com apenas 15 anos, como o goleiro Christian Esmério, com passagem pela seleção brasileira, morrem em uma tragédia facilmente evitável, eu me pergunto: quantas vítimas mais a transformação de centros de base em depósito de meninos vão fazer? Quanto dinheiro mais será racionado para que times e empresários lucrem com garotos que para eles são apenas cifras, e não adolescentes em busca de um sonho?

Meninos sonhadores, gente como já fomos antes de nos tornamos adultos. Vidas interrompidas pelo desleixo daqueles que pensam apenas no dinheiro. Quanta perspectiva de lucro vai eliminar mais vidas? Não é um fato isolado: o futebol brasileiro precisa olhar urgentemente para as condições de seus elencos de base. Ou mais tragédias ocorrerão.