Rio de Janeiro Em vídeo apresentado por delegado, testemunha diz que foi torturada na casa de Amarildo

Em vídeo apresentado por delegado, testemunha diz que foi torturada na casa de Amarildo

Outro homem afirmou que casa do pedreiro era alugada para o tráfico

Em vídeo apresentado por delegado, testemunha diz que foi torturada na casa de Amarildo

Amarildo e sua mulher são apontados como suspeitos por delegado

Amarildo e sua mulher são apontados como suspeitos por delegado

Fernando Frazão/01.08.2013/ABr

Além do depoimento de moradores e policiais, o relatório apresentado pelo delegado Ruchester Marreiros, que aponta o pedreiro Amarildo Dias e sua mulher, Elizabete Gomes da Silva, como suspeitos de ligação com o tráfico de drogas, se sustenta em dois vídeos. Nas imagens, duas testemunhas, que não se identificaram, revelam relação entre o casal e traficantes da Rocinha. A casa da família seria alugada para que os criminosos realizassem sessões de tortura. O material coletado por Ruchester, que era delegado adjunto da Delegacia da Gávea (15ª DP) — responsável pelo caso —, veio à tona após ele ser transferido para a Delegacia de Repressão a Crimes de Informática.

Uma das testemunhas que gravaram depoimento aparece com as duas mãos enfaixadas e diz ter sido torturada na casa onde Amarildo vivia com a família.

— Eles me botaram sentado na escada da porta da Bete. Ela é conhecida minha. Aí ela comentou: “você vai tomar um coro, né?”. Eu falei: “pô, acho que vou”. Então você vai ser o nono [disse ela]. Quebraram minhas duas mãos e me queimaram todo, no peito, na barriga, tudo.

A outra suposta testemunha afirmou que Amarildo era traficante e que sua mulher alugava o quintal a criminosos.

— [O Amarildo era pedreiro?] Não, era traficante. Ele era envolvido, guardava drogas para os caras. A Bete alugava o quintal para torturar pessoas.

O advogado da família de Amarildo, João Tancredo, disse que as acusações são falsas.

— É um absurdo. Tenta-se criminalizar a vítima para justificar medidas absurdas como essa que é o desaparecimento do Amarildo. [Se isso fosse verdade] A gente devia usar a casa da família do Amarildo para dizer aos garotos de comunidades para não irem para o tráfico, porque é uma casa miserável, com um único cômodo. É um fato negado pela família.

Tancredo, porém, admitiu que, como acaba sendo recorrente em favelas, a família do pedreiro pudesse conhecer traficantes.

— Existe tráfico e circula na comunidade inteira. É evidente que eles conheciam traficantes, moram lá há mais de 40 anos. Mas daí a associá-los ao tráfico é muito barra pesada. Há uma tentativa de vinculá-los à conduta criminosa.

Segundo o material apresentado pelo delegado Marreiros, que participou das investigações da Operação Paz Armada, que prendeu traficantes na Rocinha, Elizabete seria suspeita de associação com o tráfico, ao dar cobertura a ações de traficantes, enquanto Amarildo é suspeito de tráfico e associação ao tráfico. Marreiros diz que Amarildo era conhecido como Boi e receberia ordens de traficante na Rocinha.

No relatório produzido após a transferência, Marreiros pedia a prisão da mulher de Amarildo. Ao R7, ele disse que não pediu a prisão de Amarildo por ele estar morto — a polícia faz buscas pelo corpo do pedreiro na Rocinha. Por considerar que há falta de provas, o delegado titular não deu prosseguimento ao pedido de prisão da mulher de Amarildo.

A Polícia Civil informou, por meio de nota, que segundo Orlando Zaccone, o documento feito por Ruchester Marreiros foi usado "apenas como peça de informação do inquérito, uma vez que Ruchester, quando o assinou, não estava mais lotado na delegacia e, portanto, não era a autoridade com atribuição para fazê-lo".

O relatório final da investigação foi produzido por Orlando Zaconne, que o encaminhou na quarta (7) ao Ministério Público. Zacone diz que não havia elementos que comprovassem que a "Bete" citada no relatório de Marreiros fosse esposa de Amarildo. O delegado afirmou ainda que não há dois relatórios sobre o caso, apenas o documento assinado por ele.

O R7 tentou contato com a família de Amarildo, mas não conseguiu retorno até a publicação da reportagem.

Assista ao vídeo:

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