Novo Coronavírus

Rio de Janeiro Indígenas de Angra dos Reis (RJ) são diagnosticados com covid-19

Indígenas de Angra dos Reis (RJ) são diagnosticados com covid-19

Atendimento na comunidade respeita as características culturais dos indígenas, que consideram o pajé, como médico oficial dos indígenas 

  • Rio de Janeiro | Da Agência Brasil

Dois indígenas foram internados na cidade

Dois indígenas foram internados na cidade

EFE/ Raphael Alves

Dois indígenas da Aldeia Sapukai, no bairro do Bracuí, em Angra dos Reis, no sul fluminense, foram diagnosticados com o novo coronavírus e estão internados em UTIs do Centro de Referência Covid-19, que funciona no Hospital da Santa Casa, no centro do município.

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O cacique Domingos começou a apresentar os sintomas da covid-19 no dia 14 deste mês e no 9º dia fez o teste que confirmou a contaminação. Domingos começou a sentir falta de ar na terça-feira (23) e foi até a unidade de saúde localizada dentro da aldeia. Em princípio, por causa da sua cultura, o cacique resistiu às orientações dos profissionais, porque aguardava o término do ritual de pajelança. Depois de conversar com os especialistas, o indígena aceitou ser tratado.

Ainda hoje (26) mais um indígena será levado para a unidade hospitalar. A médica cedida pela prefeitura a pedido dos indígenas, responsável pelo posto de atendimento de saúde da Aldeia, Carmen Vieira de Moraes, pediu a transferência do vice cacique Aldo Fernandes, que é diabético e mesmo assintomático precisa ter o estado de saúde avaliado no Centro de Referência.

“Os pacientes com comorbidades estamos dando a prioridade de descer [para o centro onde fica o hospital] estão sendo monitorados, todos com testes positivos e hoje estou descendo mais um porque ele é diabético e a saturação está caindo”, contou em entrevista à Agência Brasil, a médica que trabalha com indígenas desde 1996.

Esses casos não são os únicos na Aldeia Sapukai. A doutora Carmen disse que mais há mais 40 registros do novo coronavírus na comunidade indígena, que foram identificados com uma ação constante de busca ativa. Todos eles estão sendo acompanhados e monitorados pelo Departamento de Saúde Coletiva, por meio do Programa Especial de Saúde Indígena e Vigilância Epidemiológica do município.

Para a médica, é preocupante a situação da aldeia. Ao todo são 300 indígenas que moram em japiguás, termo indígena dado às unidades familiares, que concentram muitas pessoas. A aglomeração dificulta o trabalho de contenção da doença no local.

“As unidades familiares aqui são muito grandes, temos japiguás e em cada existem, pelo menos, de 15 a 25 pessoas morando no mesmo local. Isso torna o isolamento muito difícil e daí as estratégias criadas pela equipe de Saúde. Toda síndrome gripal é notificada, Nós entramos com medicação para tentar uma profilaxia e todos os pacientes são monitorados e o teste é agendado como se preconiza”, relatou.

“Uma pessoa infectada que entrar em uma unidade familiar com 25 pessoas, se um for contaminado, passa para os outros e vai ter uma contaminação em massa. Só nos resta pedir para os outros não visitarem aquele japiguá. Já tivemos japiguás aqui em que as pessoas foram contaminadas, foram tratadas e hoje estão bem”.

Segundo a médica, como ocorre nas cidades país a fora, nem sempre as várias orientações dos profissionais de saúde, são seguidas. Os indígenas recebem máscaras, álcool em gel, produtos de higiene e limpeza, mas é uma dificuldade respeitarem o isolamento.

“A única coisa que não conseguimos, mas isso não conseguimos nem no branco, o juruá, é convencer a todos, o que é uma coisa impossível, de não sair. Temos pacientes que são etilistas, são psiquiátricos, temos os jovens que estão rebeldes e cansados de ficar em casa. Então, eles descem vão para bares para jogar sinuca ou para beberem, ou trazem familiares para cá. Isso a gente não tem como tomar conta, apesar de todas as orientações”.

O atendimento na comunidade respeita as características culturais dos indígenas, que consideram o pajé, como médico oficial. Ainda que seja dada uma medicação para o paciente, a equipe médica não tem certeza se ela está sendo seguida e se quando a pessoa vai ao pajé se ele também está usando máscara. “Não pode dizer para ele não ir ao pajé agora e ir para a unidade de saúde. Não pode. Isso é da cultura deles, se não respeitar, a gente perde o paciente. Às vezes tem que conversar com o pajé, que a medicação do juruá vai cuidar da parte física e a dele da parte espiritual para fazer as duas coisas juntas e poder tratar”, observou.

Segundo a médica, o pajé Márcio não foi diagnosticado com a doença e passa bem. Ele tem sido monitorado pela equipe médica. “O pajé é uma autoridade médica dentro da cultura indígena”, completou, destacando que tem recebido apoio da Secretaria de Saúde, inclusive na comunicação, porque o sinal de telefone no local nem sempre é bom.

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