Morte de Marielle Franco
Rio de Janeiro “Marielle estava sempre na linha de frente dos policiais”, diz amigo

“Marielle estava sempre na linha de frente dos policiais”, diz amigo

No Complexo da Maré, vereadora defendia crianças e intercedia pelos moradores. Depois de morrer, se tornou alvo de informações falsas

Marielle Franco assassinada

À dir, colega de faculdade Lourenço presta homenagem à vereadora

À dir, colega de faculdade Lourenço presta homenagem à vereadora

Fabíola Perez / R7

Nas favelas, segundo moradores, falar com a polícia é sempre um problema. “Mas ela conseguia estar na linha de frente”, diz Lourenço Cézar da Silva, morador da Maré, amigo de Marielle Franco há 20 anos e colega de faculdade. “Ela ficou cada vez mais habilidosa.” O sobrinho de Lourenço foi uma das crianças que morreu após ter sido atingido por uma bala no Complexo da Maré. “Policiais estavam buscando um traficante e na hora da mira, meu sobrinho deu alguns passos e foi alvejado.”

Em defesa do sobrinho do colega e de tantas outras crianças que morrem nas comunidades do Rio de Janeiro, Marielle organizou um protesto. “Fizemos um ato no centro da cidade e na avenida Brasil”, diz. “Os policiais da avenida disseram: vocês não vão passar. Marielle disse: 'o que prefere: ganhar notoriedade pelo massacre que vai acontecer ou por nos deixar passar de uma forma organizada?'”, lembra o colega. Depois de algum tempo, os manifestantes conseguiram. “Mas ela, não aliviava, questionava por que eles estavam mascarados e por que estavam filmando a população.”

Marielle e Lourenço se conheceram em 1998. Ambos estudavam no Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), um pré-vestibular que, de acordo com Lourenço, oferece uma formação específica para quem quer atuar como liderança local. “Marielle é uma das primeiras pessoas a resignificar o termo favela. Antes, os favelados não gostavam de serem chamados assim”, afirma. “Ela mudou isso e começamos a trabalhar com a memória dos moradores da Maré.”

Algumas vezes, a vereadora costumava levar a filha Luyara Santos ao Ceasm. “Ela participava das campanhas da mãe e até brigava com o pai, que apoiava um candidato ligado à direita.” A namorada de Marielle, Mônica Tereza Beníficio, também frequentou o mesmo centro de formação. Ambas se conhecem desde os 12 anos. “Marielle era muito dedicada mas, ao mesmo tempo, também gostava de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Gostava de resolver.”

Lourenço é formado em Geografia pela mesma faculdade em que Marielle se formou socióloga. Eles chegaram a cursar algumas disciplinas juntos. “Para nós, que trabalhávamos e militávamos, o diploma não era um fim em si. Mas foi uma conquista muito importante.” Lourenço teme que com a morte da amiga, muitos jovens da favela se sintam desestimulados a estudar. “Marielle era nosso exemplo de que as coisas podiam dar certo. Agora não sabemos como vai ser. Sem dúvida, a militância vai sentir receio.”

A enxurrada de fake news

Para Lourenço, antes de ter sido atingida pelos disparos, Marielle “foi alvo de preconceito e machismo”. Após sua morte, diversos comentários e notícias falsas foram divulgadas em redes sociais sobre a trajetória da vereadora. “Associar Marielle ao Comando Vermelho é um absurdo, ela morava numa favela da Maré que está sob domínio do Terceiro Comando”, diz Lourenço. “Ela sempre foi ligada às crianças que morrem entre tiroteios. A luta dela sempre foi pelas ações desastrosas do estado.”

Sobre um eventual envolvimento com um ex-traficante conhecido como Marcinho VP, Lourenço diz que “ela nunca conheceu essa pessoa.” E ainda: circulou uma notícia de que ela teria sido eleita com apoio do tráfico. Uma informação que, segundo amigos de Marielle, é falsa. “Ela foi eleita fora da Maré, aqui os moradores votam em pessoas mais conservadora. Foram apenas 2 mil votos na Maré e os demais em outras regiões do Rio.”

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O colega de faculdade diz ainda que a maior parte dos projetos da vereadora tinham como foco as mulheres em geral e a mulher negra das favelas. “No início, não tinham relação somente com segurança pública”, diz. À frente da Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, Marielle também recebia muitas visitas de familiares de policiais. “Todo policial quando morre, o estado ignora. Essas famílias iam até a Alerj para procurar apoio psicológico, assistência médica, previdência social e até mesmo para pedir mais investigação”, afirma Lourenço.

Contrária à proposta de intervenção militar, recentemente aprovada pelo governo federal, Marielle vivenciou, segundo Lourenço, dias em na Maré em que o exército não trouxe sensação de segurança. “Ela já havia presenciado ações desastrosas das Forças Armadas na Maré. Por isso, tinha propriedade para ser relatora da Comissão que investiga a intervenção.”