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Rio de Janeiro Pandemia acelera êxodo do Rio para cidades serranas do estado

Pandemia acelera êxodo do Rio para cidades serranas do estado

Pesquisa revela que aumento de casos e mortes impulsionaram em 42% a migração para Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo

Crise sanitária acelera êxodo do Rio para cidades serranas, como Nova Friburgo

Crise sanitária acelera êxodo do Rio para cidades serranas, como Nova Friburgo

Reprodução/Google Street View

O agravamento da pandemia da covid-19 impulsionou em 42% a migração de moradores da região metropolitana do Rio de Janeiro para as principais cidades da região serrana do estado, de acordo com pesquisa realizada pela Bateiah Estratégia e Reputação, instituição que engloba o Instituto Informa, Renoma e Balizah.

Os principais destinos são Teresópolis (61,3%), seguida por Petrópolis (44,4%) e Nova Friburgo (24,7%), segundo o levantamento, que entrevistou 313 pessoas no último dia 5 de março.

O sociólogo Fábio Gomes, presidente da Bateiah, Estratégia e Reputação, instituição que engloba outras três empresas de pesquisas de opinião pública e comunicação (Instituto Informa, Renoma e Balizah), responsável pelo estudo, avalia que o temor do contágio e da falta de leitos para o tratamento da doença aceleraram um fenômeno que já ocorria há algum tempo.

Para o especialista, o crescimento do home office entre as empresas foi outro fator importante para proporcionar a execução dos planos de mudança de muitos cariocas e moradores da Grande Rio.

"O Rio tem vários problemas na região metropolitana. As pessoas sempre tem ali uma relação de medo com a cidade. A violência no Rio é muito dramática. Isso já expressa nas pessoas o desejo de mudar. A pandemia impulsionou algo que os empresários tinham medo de experimentar, que é o trabalho em casa.

A história do casal de empresários Ercília Maria Vasconcellos Bittencourt e Humberto Bittencourt capta o sentimento que moveu a busca por um local mais seguro, tranquilo e confortável. Há sete meses, ela e o marido se despediram da residência na Barra da Tijuca, bairro de classe média da zona oeste do Rio.

"Meu marido sempre teve esse sonho de morar em um lugar tranquilo. Passamos por um arrastão na avenida Brasil e ficamos com muito medo. Como já conhecíamos Friburgo, porque temos uns amigos que moram aqui, ficou fácil. Aqui tem tudo. É uma cidade bem estruturada. Não sinto falta de nada".

A empresária notou que o crescimento da pandemia também já impacta o serviço de saúde mesmo de cidades menos populosas do estado fluminense. No entanto, ainda considera a troca benéfica para a família em comparação ao quadro dramático já enfrentado pelos cariocas.

"Aqui em Friburgo, estava muito tranquilo [a questão da covid-19]. Mas Teresópolis ficou com um a taxa bem elevada de pessoas contaminadas e lá não tem hospital. Aqui tem o [hospital] Raul Sertã, que é bem grande. Trouxeram todo mundo de lá. Aí, lotou o hospital. Agora, tá sobrecarregado aqui. Estamos na bandeira roxa. Mas, ainda assim, continua sendo bem mais tranquilo que o Rio"

Atualmente, Ercília mantém uma confeitaria caseira e não pretende retornar ao Rio. "Não posso falar nunca mais, mas a gente não pretende voltar, apesar de morar em um lugar muito legal. Mas não tenho saudades. A única pessoa que deixou saudades é a minha mãe, que mora lá. Estou doida para trazê-la para morar comigo, mas ela não está querendo".

Percepção da migração

Segundo o sociólogo Fábio Gomes, o fenômeno migratório de moradores do Rio para os municípios serranos já foi observado pela população local. "Há uma percepção grande da migração", acrescentou.

No entanto, os pontos sondados pela pesquisa sobre a sensação das qualidades e defeitos da migração por parte dos habitantes serranos dividem opiniões.

Para 57,9% dos entrevistados, a migração representa problemas e piora no bem-estar, enquanto outros 42,1% veem esse fluxo de forma positiva, com possível desenvolvimento e melhorias para o seu município.

A dicotomia encontra explicação nas faixas de renda. Quanto menor o poderio econômico do morador, mais intenso é o medo de que não tenha benefícios em razão da dependência do serviço público — e o consequente temor de sobrecarga no setor.

Em contrapartida, os moradores que possuem renda mais alta — porção formada em grande parte por empresários e comerciantes locais, que lucram com o aumento da população maior — não identificam pontos negativos no aumento populacional.

"Essa é uma questão interessante. Quem tem negócios na cidade quer mais negócios. Eles pensam mais nisso. Quem está indo em busca de tranquilidade, torce para poucos irem [para as cidades serranas], para que não se transformem nos dilemas que a região metropolitana já impõe", finalizou o sociólogo Fábio Gomes.

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