São Paulo A vida sob ameaça de deslizamento: “Quando chove, a gente nem dorme”

A vida sob ameaça de deslizamento: “Quando chove, a gente nem dorme”

Moradores voltam a ocupar casas interditadas por deslizamento em Barueri

  • São Paulo | Diego Junqueira, do R7

Parte de trás de sobrado cedeu após chuvas de junho de 2016; do lado direito, a parede fechada após a reforma

Parte de trás de sobrado cedeu após chuvas de junho de 2016; do lado direito, a parede fechada após a reforma

Arquivo pessoal

De longe fica claro o risco. Duas casas no topo, três andares cada, construídas até o limite do barranco. Rachaduras à vista, encanamento ao ar livre, pedaços de uma parede caída sobre a terra exposta, que deslizou em junho passado e atingiu parte das duas casas que ficam embaixo. Quando chove — o que tem sobrado neste verão na Grande São Paulo —, a lama escorre pelas casas. Traz também o medo de tudo vir abaixo de uma vez.

Olhando de perto, contudo, nada é fácil de entender. Os vizinhos não entram em acordo sobre o que fazer com a terra remexida em junho. Vereadores deixam na memória promessas de uma solução que nunca vem. E a prefeitura, que se mostra ágil quando a terra desliza, não fiscaliza as obras de reparo e ignora quando os moradores voltam a ocupar residências interditadas. Ninguém parece ser responsável pelo que acontece ou pelo que pode acontecer.

É nesse clima que vivem quatro famílias do Parque Imperial, em Barueri, na Grande São Paulo.

“Quando chove, a gente nem dorme”, resume Jacinto Angelo Madureira, 50 anos, o Alemão, que mora com a mulher e os dois filhos em uma das casas no pé da pequena encosta.

O Parque Imperial surgiu à margem dos famosos condomínios de alto padrão e do polo industrial da cidade, nos bairros de Alphaville e Tamboré, que também avançam sobre áreas de Santana de Parnaíba.

Alphaville e Parque Imperial cresceram separados por um morro e pela desigualdade. De um lado, na planície que vai até o rio Tietê ficam os espaçosos conjuntos residenciais. Do outro, num terreno acidentado e com uma única entrada e saída está o Imperial, apinhado de gente, sobretudo de trabalhadores que migram diariamente para as casas e fábricas dos bairros famosos.

A terra ainda se acumula nos fundos da casa de Alemão

A terra ainda se acumula nos fundos da casa de Alemão

Diego Junqueira/R7

Na noite de 6 de junho de 2016, o único acesso ao Imperial cedeu parcialmente após uma chuvarada. A rua Chicó Mendes caiu exatamente no ponto onde passa sobre o trecho norte do Rodoanel Mário Covas, isolando o bairro e seus moradores, que enfrentaram quatro meses de obras utilizando apenas um dos sentidos da via.

Naquela mesma noite caiu também a parede dos fundos da casa de Robson Hudson da Silva, de 40 anos, na Rua Cristóvão Colombo. O muro se arrastou pela encosta após a terra se movimentar, destruindo dois cômodos das casas que ficam embaixo, na Rua Adoniran Barbosa.

As casas de baixo

Às 22h daquela noite, Alemão estava colocando a comida no micro-ondas quando tomou um susto. Ouviu nos fundos da casa um estrondo que nunca tinha escutado. Gritou pela mulher e pelos filhos e saiu correndo. Da rua, viu um buraco nos fundos do sobrado de seu vizinho de cima.

A terra que deslizou invadiu os fundos de sua casa, destruindo uma parede e o teto da lavanderia.

Na manhã seguinte, a Seurb (Secretaria de Planejamento e Urbanismo de Barueri) interditou a residência. Alemão e a família foram morar de aluguel. Ele é dono de uma oficina de motos instalada embaixo de sua casa que, mesmo com a interdição, continuou aberta.

Rodrigues perdeu o quarto que ficava nos fundos de sua casa

Rodrigues perdeu o quarto que ficava nos fundos de sua casa

Diego Junqueira/R7

A casa de Haroldo Rodrigues Mateus de Lima, 31 anos, vizinho de lado do Alemão, também foi interditada. No caso dele os prejuízos foram maiores. Rodrigues, que mora com a mulher e o filho, perdeu um quarto que fez de forma improvisada com pedaços de madeira para abrigar o cunhado.

— A casa [de cima] ficou praticamente pendurada.

As duas famílias saíram imediatamente do local. Segundo dizem, a prefeitura de Barueri lhes prometeu pagar o aluguel social no período, o que não aconteceu. Questionada pelo R7, a prefeitura afirma que os pagamentos não foram feitos “porque a área é particular”.

As casas de cima

Nas notificações que decidem pela "imediata desocupação" dos imóveis por "risco iminente de desabamento", a Seurb determinou que as duas casas de baixo só voltassem a ser ocupadas “após elaboração e apresentação de laudo técnico, elaborado por profissional habilitado (engenheiro/arquiteto), garantindo as condições mínimas de uso”.

A reforma foi feita por Robson, o proprietário da residência cuja parede caiu, mas sem o acompanhamento de fiscais da prefeitura. Ele não mora ali, mas coloca a casa para alugar.

— Tinha a promessa [da prefeitura] de ajudar com a obra, tirar o barranco, tirar o muro [caído], mas nada. Paguei particular, fiz dois muros de arrimo. Na falta de um fiz dois. Rapaz, agora nunca mais aquilo ali desliza, foram R$ 30 mil. Ali pode subir um prédio que eu quero ver cair. Eu garanto.

Apesar da palavra de Robson, nenhum engenheiro se dispôs a assinar o laudo técnico exigido pela Seurb. 

Rodrigues voltou para casa com a família após quatro meses, pressionado pelo gasto extra com o aluguel.

Já a família do Alemão retornou depois de seis meses e muitas visitas à Prefeitura. Ele chegou a pedir a um amigo engenheiro que assinasse o laudo, mas o profissional não se dispôs a colocar o nome embaixo da obra. As casas de Rodrigues e Alemão seguem oficialmente interditadas.

— Fui atrás da Secretaria de Habitação, mas eles não fizeram o laudo, se recusaram, porque disseram que um engenheiro não poderia assinar o laudo de uma obra que eles não acompanharam. A prefeitura não parece estar muito preocupada. Queria pelo menos que concretasse, que fizessem um muro de arrimo. Para a prefeitura isso não é nada, mas para mim seria uma fortuna.

Quando a parede de Robson caiu, parte do banheiro de sua vizinha também cedeu.
A aposentada Vilma de Lourdes Cesário, 61 anos, estava na Praia Grande, na casa de uma filha, quando lhe avisaram que sua casa tinha caído.

— Eu passei mal, achei que tinha perdido minha casa e fui parar no hospital.

Só no dia seguinte ela soube que era a parede do vizinho que havia cedido, levando um pedaço de seu banheiro.

No quarto de dona Vilma, água mina pela parede 24 horas por dia

No quarto de dona Vilma, água mina pela parede 24 horas por dia

Diego Junqueira/R7

Ela hoje enfrenta outro problema: uma infiltração eterna em seu quarto, que lhe obriga a manter um ventilador ligado 24 horas por dia virado para a parede, além de conviver com o cheiro de mofo e a umidade.

— Quando chove parece que tem uma torneira aqui dentro.

Dona Vilma diz não ter condições de construir um muro de arrimo nos fundos de casa e que faz esse pedido para a prefeitura desde o final da década de 1990, sem sucesso.

A dona de casa Celina de Cássia, 34 anos, filha de Vilma, também mora no local com o marido e os dois filhos. Ela diz ter "receio" de acontecer algum acidente, mas afirma não ter condições financeiras para bancar um aluguel.

— A defesa civil falou para mim que eu estou colocando a minha vida e a vida dos meus filhos em risco, mas o que eu vou fazer? É fácil falar para sair, mas eu vou ficar.

Contra o poder público

Se os vizinhos não se entendem com relação às reformas da encosta e aos encanamentos que invadem as casas uns dos outros, eles se unem para criticar a prefeitura e o vereador Jânio Gonçalves Oliveira (PMDB), representante do bairro que está em seu sexto mandato consecutivo — desde 1996 ele é o vereador com mais votos no município.

Vilma e Robson, que moram na parte de cima, não poupam críticas pelas promessas de construção do muro. Rodrigues e Alemão, embaixo, criticam o abandono após serem obrigados a sair de casa.

"Quando cai vem todo mundo. Polícia, bombeiro, defesa civil, o Jânio", critica Alemão.

O vereador se defende.

— Não prometi ajuda para ninguém. Me comprometi a ajudar, prometi amenizar o sofrimento daquele povo. Em várias faixas daquele local [entre as ruas Cristóvão Colombo e Adoniran Barbosa] já foi feito muro de arrimo. E a responsabilidade seria do proprietário.

Ele afirma que a nova gestão da prefeitura, sua aliada política, já está a par da situação e que ele irá interceder junto à Secretaria de Obras para que o local receba reparos em março ou abril.

— O nosso compromisso é de rever cada situação do bairro.

A prefeitura de Barueri informou ao R7, por meio de sua assessoria, que a responsabilidade pelas reformas é dos proprietários, já que a área é particular. Diz ainda que "os proprietários não apresentaram projeto para recuperação dos imóveis", cuja análise ficaria a cargo da Seurb, mas com execução dos proprietários, assim como a emissão do laudo técnico.

"Via de regra, os municípios dos grandes centros urbanos foram quase que invadidos por pessoas que não tinham mais como morar na periferia ou nos cortiços da grande cidade, onde as condições de infraestrutura eram precárias e o custo de vida era alto. Assim deslocavam-se para as cidades vizinhas onde encontravam uma situação mais vantajosa e davam início a construções clandestinas e irregulares pelo sistema de autoconstrução e em mutirão. A fiscalização tem procurado inibir essa prática, mas, o afluxo de pessoas tem sido muito grande", diz a prefeitura, por meio de sua assessoria de imprensa.

Ainda segundo a prefeitura, a Defesa Civil irá vistoriar os imóveis, que continuam interditados.

Para ter uma sensação maior de segurança, Alemão está refazendo a lavanderia e o muro dos fundos de sua casa. Ele também está reformando a parte de cima da lavanderia, que irá transformar em quarto de aluguel.

— Se tivesse alguém pra comprar aqui, a gente ia [embora]. Mas quem vai querer?

Já Rodrigues não teve condições de fazer qualquer reparo. O cômodo que perdeu segue exposto à chuva e à lama, que continua escorrendo pela casa a cada nova chuva. Para se livrar do problema de uma vez, ele colocou a casa à venda.

— Mas como vou vender desse jeito? Enquanto não arrumar, não tem jeito.

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