São Paulo "Acredito na política, me preparei para isso", diz Bruno Covas

"Acredito na política, me preparei para isso", diz Bruno Covas

Em meio à crise de confiança da política, prefeito de SP não refuta o rótulo de político tradicional e afirma ter entre suas prioridades de governo a área social

Bruno Covas

Bruno Covas assumiu a Prefeitura de São Paulo na última sexta-feria (7)

Bruno Covas assumiu a Prefeitura de São Paulo na última sexta-feria (7)

Edu Garcia/R7

Na primeira semana como prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas, 38 anos, deixou clara a primeira diferença entre ele e o antecessor João Doria, ambos do PSDB.

Em entrevista exclusiva ao R7, em seu gabinete, ele afirmou que não renegará o passado e as origens na política, tampouco tentará ‘se vender como algo que não é’.

“Sou político porque acredito na política, me preparei para isso”, diz. “O que a população vai ver é uma diferença de estilos na forma de se relacionar”, afirmou.

A frase marca a primeira divergência entre ele e João Doria que, durante a campanha, refutou a imagem de político tradicional e preferiu o título de gestor.

Quanto ao programa de governo, Covas afirma que dará continuidade às propostas e políticas públicas iniciadas em 2017. “Tudo o que foi planejado será seguido. Vamos buscar corrigir erros, mas o plano de metas aprovado é o que norteará o governo.”

Dono de um estilo mais discreto e conciliador, segundo ele próprio, Covas afirma que sua preferência é pela área social, como educação, assistência e saúde. “O que me motiva a fazer política é poder mudar a vida das pessoas”, diz. Com 33 meses para cumprir 80% das promessas dessa e de outras áreas herdadas de seu antecessor, o atual prefeito terá pela frente questões complexas para tirar do papel.

Neto do ex-governador Mário Covas, integrante da juventude do PSDB, advogado, economista e ex-deputado estadual, Bruno diz não se preocupar com o futuro. “Vamos arando a terra, semeando, regando e um dia a gente colhe”, diz. “Meu desafio agora é governar a cidade e não organizar minha campanha para presidente da República daqui a x anos.”

Sem os mesmos recursos e a infraestrutura de Doria para fazer marketing nas redes sociais, o prefeito terá de encontrar seu próprio caminho para dialogar com a população, uma vez que, entre os projetos do ex-prefeito, ficaram políticas públicas em áreas que afetam radicalmente a rotina da população, como o sistema de transporte e saúde. Além disso, mudanças espinhosas, como a reforma previdenciária e a Parceria Público Privada da Iluminação, estão paradas.

Abaixo, confira a entrevista do prefeito sobre algumas das principais promessas que ainda não foram concluídas pela gestão:

 “Sou político porque acredito na política, me preparei para isso”, diz Bruno Covas

“Sou político porque acredito na política, me preparei para isso”, diz Bruno Covas

Edu Garcia/R7

R7 – As privatizações foram uma das principais bandeiras do prefeito João Doria. No entanto, segundo levantamento do R7, nenhuma delas chegou a ser concluída. Como o senhor pretende avançar nesses projetos?

Bruno Covas - Não é um programa para um ano. O projeto da venda de Interlagos está sendo discutido na Câmara Municipal; o projeto da concessão do Pacaembu já saiu o edital, devemos conhecer o vencedor no dia 13 de junho. O projeto do Anhembi foi aprovado em primeira votação na Câmara. Para junho ou agosto, vamos conseguir efetivar a venda do Anhembi.

R7 - O prefeito João Doria fez uma série de ações para acabar com a Cracolândia. Mas pouca coisa mudou e muitos usuários de drogas ainda permanecem desassistidos. O programa Redenção está funcionando?

Covas – Não é um problema fácil de ser resolvido em São Paulo e em todo o mundo. Mas não há como negar que a situação hoje é melhor do que a que encontramos em janeiro de 2017. O programa De Braços Abertos só financiou o consumo de crack na cidade de São Paulo. As pessoas chegavam aqui porque sabiam que iam receber recurso para consumir crack. Não era um programa de redução de danos, era um programa de perpetuação do dano. Decidimos, ainda durante a campanha, que deveria ser um programa eliminado e que a prefeitura deveria aderir ao Redenção.

Edu Garcia/R7

R7 – Mas a sensação para quem passa por lá é de que a situação segue sem solução.

Covas – Hoje, temos uma ação assistencial, os centros de atendimento oferecem alimentação, banho, local para dormir. Isso é redução de danos, um programa de saúde e de segurança. Em 15 meses, mil traficantes foram presos. João Dória colocou o dedo na ferida, o problema não foi solucionado, mas foi atenuado. Eu também passo por ali, o problema persiste, mas está numa situação melhor do que em 2017.

Edu Garcia/R7

R7 - Em seu governo, como a população de rua será atendida? Quais políticas públicas estão sendo pensadas para atender as necessidades dessa parcela da população?

Covas – Em 15 meses, foram inaugurados 17 CTAs (Centro Temporário de Acolhimento) e com isso mais de 3 mil vagas para moradores de rua. Somando aos albergues já existentes, conseguimos atingir a meta de 90% de vagas para população em situação de rua. Vamos dar continuidade ao programa de busca de vagas de emprego para essa população. Até agora, mais de 2.000 foram requalificados e contratados. É a grande saída dos moradores de rua.

R7 – Em sua opinião, os pancadões são um problema de polícia ou devem ser vistos como uma ausência de políticas públicas culturais para jovens da periferia?

Covas – A ação na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, demonstra que é possível enfrentar esse desafio, o prefeito regional envolveu a área de cultura, a GCM e a Polícia Militar e acabou com os pancadões. Eram mais de 40 pontos. Eles se iniciavam na sexta à tarde e iam até segunda pela manhã. Não se consegue dormir, se locomover, sair de carro. Não é porque existe a falta de equipamentos culturais que se deve permitir a utilização desregulada da rua. É preciso dar a oportunidade cultural, mas é preciso agir de forma enérgica dentro da lei.

R7 – O senhor declarou que pretende ampliar a rede de wi-fi pela cidade, mas há alguma previsão de que o sinal chegará também às periferias?

Covas - A rede será espalhada pela cidade como um todo. Não faz sentido colocar o wi-fi na Paulista, na Aclimação, no Parque do Ibirapuera, que atende a população que tem condição de pagar a conta de 3G e 4G. Esses espaços serão principalmente em periferia, o foco será a periferia.

Edu Garcia/R7

R7 - O balanço trimestral da Ouvidoria Geral do Município revelou que 66% das reclamações dos paulistanos se referem à zeladoria, área administrada pelas Prefeituras Regionais e pasta que o senhor foi secretário. O Cidade Linda não cumpriu seus objetivos?

Covas – O Cidade Linda tem como meta ações concentradas de zeladoria em espaços definidos. A existência do programa não quer dizer melhorias na cidade como um todo. Hoje, a equipe de tapa-buraco tapa 10% a mais do que no início da gestão. Começamos um trabalho de inteligência para melhorar o trabalho da equipe. Em janeiro de 2017, a cada dez buracos que a prefeitura ia tapar, três não existiam mais. Embora não estejamos em uma situação perfeita, estamos bem melhores do que na gestão Haddad.

R7 - Outro projeto que vem causando impacto na população é a reestruturação no sistema de transporte, com a redução de 936 ônibus. Como a prefeitura pretende esclarecer as mudanças aos usuários?

Covas - A reorganização das linhas vai necessitar de menos ônibus para serem operadas. A readequação permite que o mesmo ônibus opere mais vezes na mesma linha. O sistema de linhas que temos hoje é do final da década de 1970, o que não condiz mais com a cidade. Com o novo sistema, a população vai levar menos tempo para ir de casa ao trabalho. Mas ainda estamos em fase inicial. A partir do momento que formos começar com as novas linhas, vamos comunicar a população para reduzir as críticas.

R7 – A prefeitura pretende fechar mais de 100 AMAs (Assistências Médicas Ambulatoriais). A mudança preocupa a população, que teme ser prejudicada no atendimento imediato. Essa reestruturação deve funcionar na prática?

Covas – As 114 AMAs serão requalificadas para serem UBSs ou UPAs. As AMAs, que não estão previstas no Ministério da Saúde, exigem que a prefeitura pague integralmente por elas. Ao readequá-las, poderemos entrar no financiamento do SUS e receber recursos que hoje não recebemos. Esse recurso vai ampliar as equipes da Saúde da Família, que hoje atendem 5 milhões de pessoas. Mas temos 6,5 milhões de dependentes do SUS em São Paulo. Esse 1,5 milhão excedente vai ser atendido com a expansão do programa Saúde da Família. Pode acontecer uma dificuldade inicial, mas teremos que propagar bem para a população para que ela entenda.

R7 – Na gestão Doria, o programa Corujão da Saúde prometia zerar as filas para exames na cidade. No entanto, uma nova fila surgiu com novos pacientes. Pode-se dizer que a fila foi zerada?

Covas – Quando chegamos, tínhamos 486 mil pessoas aguardando para realizar um exame na cidade. O Corujão fez a limpa na fila que existia e deixou como teto até 30 dias para a realização do exame. Se percebermos que a população está esperando novamente 2 ou 3 meses para fazer exames, voltamos com o programa. Sobre a fila das cirurgias, iniciamos o programa Corujão das Cirurgias, mas uma cirurgia é muito mais complexa. Estamos no meio desse processo para zerar também as filas das principais cirurgias em São Paulo.

R7 – Outro desafio da prefeitura é a PPP da iluminação. A Controladoria Geral do Município continua investigando a regularidade do processo de seleção? Será realizado um novo processo licitatório?

Covas – Estamos aguardando a Corregedoria terminar seu estudo para que possa apontar se houve qualquer vício no processo, se houve ação irregular em alguma etapa. E, se ocorreu, se é possível retomar desse ponto ou se é preciso retomar.

R7 – Como a prefeitura avaliou a retirada do projeto da reforma da previdência da pauta, uma vez que Doria havia anunciado que possuía os votos para aprová-la?

Covas – A proposta não saiu de uma mesa fechada, a Secretaria de Gestão realizou inúmeras reuniões com vários sindicatos e servidores. Agora, está com a Câmara dos Vereadores, que está montando uma comissão de estudos. O Executivo sabe que não é dono da verdade e que, muitas vezes, é necessário receber o aperfeiçoamento do processo no meio do caminho.