Alerta do Waze para áreas de risco constrange moradores em SP

Ferramenta que avisa sobre locais com maior risco de crime gerou polêmica. Câmara Municipal cobra explicações da empresa, que suspendeu o serviço

Periferia de SP, como a Brasilândia (zona norte), sofre restrição por alerta do Waze

Periferia de SP, como a Brasilândia (zona norte), sofre restrição por alerta do Waze

Divulgação/Prefeitura de São Paulo

A ferramenta criada pelo aplicativo Waze para avisar os usuários sobre locais apontados pelo serviço como perigosos na cidade de São Paulo tem causado mal-estar em moradores de áreas incluídas nessa "rota violenta" calculada pelo recurso. 

Na Vila Brasilândia, zona norte da capital paulista e uma das regiões onde há localidades classificadas como pontos de risco pelo Waze, são vários os relatos de constrangimento da população.

Porém, os problemas vão além de aspectos subjetivos. Muitas pessoas encontram restrições no atendimento de motoristas particulares devido à classificação do bairro como perigoso. 

"Aqui onde moramos, temos que subir até a rua de cima para conseguir chamar o Uber [aplicativo de transporte]. Na rua debaixo, não conseguimos, porque é considerada área de risco", revelou a autônoma Isabel Lopes Silva, que mora na Rua José da Natividade Saldanha, mas precisa ir até a Rua Tiro ao Pombo para que os motoristas aceitem o chamado.

Também morador do bairro, o comerciante Antônio Ocílio Vasconcelos da Silva disse que testemunhou inúmeras queixas de pessoas da comunidade que se sentiram incomodadas.

"Já vi muitos casos. Vizinhos reclamaram. Quando a pessoa vem [para a região], é avisada que, na Brasilândia, o motorista pode ir somente até um determinado ponto", contou.

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Apesar de dizer que entende a recusa dos motoristas de aplicativos de transporte em aceitar corridas para algumas áreas mais afastadas, o morador demonstrou constrangimento por saber que trechos do bairro onde mora são discriminados. "É muito chato. O cliente tem que ser atendido e chegar no destino dele", lamentou.

Zona leste

Almir Lucas Fernandes, o presidente do Conselho de Segurança da Penha, na zona leste da capital paulista e outra região apontada pelo Waze como perigosa, enfatizou que o constrangimento para a comunidade "é muito grande" e questionou os critérios — não disponibilizados pela empresa — para a definição dos pontos listados pelo dispositivo.

"Péssimo. O que mais tem de problema na Penha são os pontos localizados de furtos de carros deixados nas ruas no entorno do Metrô [estações] Penha e Vila Matilde. Devem ter se apegado a índices antigos. A violência é uma constante em maior ou menor escala em toda a cidade", ponderou.

O líder comunitário ressaltou que a inclusão do bairro no "Alerta para Áreas com Maior Risco de Crimes" do Waze gera diversos problemas e pode inibir potenciais investidores da região.

"Como ir para um local que se diz melhor, mas se apresenta com problemas de segurança? Gera mais do que prejuízo, pois espanta compradores de outras regiões e de bairros do entorno. E afasta investidores potenciais. Temos problemas pontuais que não dependem somente da segurança pública, mas de todo o poder público municipal e estadual", frisou.

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O presidente do Conseg da Penha também revelou que a classificação como área perigosa na ferramenta do Waze impactou no mercado imobiliário da região. "Vamos ter muita oferta e pouca procura. E estes imóveis abandonados serão, sim, um prato cheio para invasores e especuladores", avaliou Almir Lucas.

Mercado Imobiliário

O presidente do CRECI-SP (Conselho Regional dos Corretores de Imóveis de São Paulo), José Augusto Viana Neto, explica que questão da segurança é fundamental na busca de um interessado por um imóvel. Segundo ele, regiões violentas têm uma frequência baixa de negócios.

"Com a pessoa sabendo que o bairro é violento, vai procurar outro lugar e quando diminui a procura pelo imóvel, o preço é menor. Quanto maior a dificuldade para a venda de um imóvel, menor o preço do metro quadrado".

Câmara cobra explicações

A Câmara Municipal de São Paulo vai cobrar esclarecimentos sobre a metodologia implementada no mapeamento para definir as áreas violentas na capital paulista.

O vereador José Police Neto (PSD) deverá ter, nesta sexta-feira (22), o que chamou de conversa técnica com o Google, proprietário do Waze, para solicitar informações sobre a ferramenta que determina quais são as áreas de risco na cidade.

Penha está entre as regiões tidas como violentas

Penha está entre as regiões tidas como violentas

Reprodução/Google Maps

Segundo o parlamentar, a empresa revelou somente que utiliza dados do Infocrim (sistema que reúne as estatísticas criminais do Governo do Estado de São Paulo) e a "percepção dos usuários".

Police Neto frisou ainda que a sua intenção não é barrar o alerta do Waze, mas sim garantir a validade técnica e social da ferramenta para que não cause desconforto à população. 

"Existem regiões violentas na cidade e não adianta tentarmos esconder isso. Precisamos reduzir a criminalidade. Mas a questão é qual metodologia é usada para medir [a violência] e quem a divulga. Estigmatizar regiões não ajuda a melhorá-las", frisou o parlamentar paulistano, que pretende levar o debate para a sessão da Comissão de Política Urbana da Câmara da próxima quarta-feira. 

Serviço suspenso

Em nota, o Waze justificou que a cidade de São Paulo representa um mercado muito importante para a empresa e que o Alerta de Áreas com Maior Risco de Crimes tem sido bastante solicitado.

De acordo com o texto enviado pela assessoria de imprensa do aplicativo ao R7, depois do lançamento, o Waze recebeu muitos feedbacks dos usuários, parceiros e clientes. Por isso, o recurso foi suspenso até que os comentários recebidos sejam analisados.

Uber

A Uber, por meio de nota, ressaltou que, para aumentar a segurança de motoristas parceiros e usuários, o aplicativo pode impedir solicitações de viagens de áreas com desafios de segurança pública em alguns dias e horários específicos.

A empresa tem adotado no Brasil a tecnologia de inteligência artificial para identificar riscos com base na análise, em tempo real, dos dados das milhões de viagens realizadas diariamente por meio do aplicativo.

A ferramenta usa algoritmos que aprendem de forma automatizada a partir dos dados para bloquear as viagens consideradas potencialmente mais arriscadas, a menos que o usuário forneça detalhes adicionais de identificação.

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