São Paulo Antes de incêndio, Memorial tentava se popularizar para atrair novos públicos

Antes de incêndio, Memorial tentava se popularizar para atrair novos públicos

Sem aumento de verba, centro enfrenta dificuldades para promover atrações gratuitas 

  • São Paulo | Ana Ignacio, do R7

Incêndio de grandes proporções atingiu auditório do Memorial

Incêndio de grandes proporções atingiu auditório do Memorial

Daia Oliver/R7

Antes do incêndio que destruiu o auditório Simón Bolívar do Memorial da América Latina, na região da Barra Funda, o centro cultural passava por uma fase de reformulação. Apesar da importância do conjunto arquitetônico, o sucesso e a lotação do passado não se repetiam mais.

A dificuldade em trazer shows e atrações gratuitas com apelo de público e a burocracia necessária para a realização das apresentações "travam" o andamento natural do centro. Sem aumento substancial de verba, manter o gigante conjunto em funcionamento – e lotado de gente – não é das tarefas mais fáceis. Diante disso, o diretor-presidente da instituição, João Batista de Andrade, foi em busca de um "novo memorial".

— Eu disse: qual a primeira medida? Agir na praça Cívica, que é ligada ao metrô, usar a praça como área de lazer e cultura e atrair quem passa. No fim de semana a gente coloca brinquedos infantis, teatro de rua, barracas, alimentos, banca de livros.

No aniversário de 24 anos da instituição, comemorado em março deste ano, Andrade deu início a um processo de popularização para atrair novos públicos. 

— Era preciso reencontrar e rediscutir o sentido e o papel do Memorial.  É uma mudança importante, temos que pensar em outro modelo. Quando eu entrei eu achei que o Memorial precisaria passar por popularização, oferecer cultura e lazer para uma população crescente na região, lembrando que o memorial está do lado do metrô, por onde passam 400 mil pessoas por dia.

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Após incêndio, atrações culturais no Memorial são parcialmente retomadas

Em 2013, o centro cultural conta com um orçamento de cerca de R$ 16 milhões e 70 funcionários são responsáveis por mantê-lo em funcionamento. Nos últimos tempos, o recorde de público foi a exposição Guerra e Paz, de Portinari, iniciada em fevereiro de 2012. Em dois meses, cerca de 250 mil pessoas foram visitar os famosos painéis do artista brasileiro, segundo a assessoria de imprensa do centro.

O presidente explica que os primeiros meses do “novo memorial” já estavam surtindo efeito.

— Estávamos em um processo crescente de público e isso é lento. Precisa de continuidade para poder se firmar.

Comportamento cultural

Para Lisbeth Rebolo Gonçalves, presidente da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte) e professora da Escola de Comunicações e Arte da USP, a questão de público do Memorial é sintomática de um problema geral enfrentado pelos museus e centros culturais do País.

— Não sei se é trazer de volta ou se é conquistar o público. Infelizmente no Brasil não existe um comportamento cultural que busca uma convivência com esses espaços, não tem essa ideia de usar tempo livre ou de encaixar na sua agenda um compromisso de aprender com questões culturais, o que é uma pena porque temos uma oferta incrível.

Apesar disso, Lisbeth acredita que é possível reverter o quadro.

— Temos que insistir, insistir e insistir. Ter uma forma mais obrigatória de frequentar, envolvendo as escolas, oferecendo e chamando ações que envolvam a família toda porque em algum momento a gente consegue mudar o comportamento. O grande desafio da sociedade brasileira é a educação. Enquanto não tiver educação sólida, não vai ter uso desses espaços culturais.

O memorial

Idealizado por Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro, o local é vinculado à Secretaria de Estado da Cultura e possui gestão independente. Há pelo menos cinco anos trabalha com orçamento médio de R$ 14 milhões.

Instituído por uma lei assinada em junho de 1989 pelo então governador do Estado de São Paulo, Orestes Quércia, a Fundação Memorial da América Latina foi criada três meses após a inauguração de centro.

O memorial foi atingido por um incêndio na tarde do dia 29 de novembro. O fogo destruiu cerca de 90% do auditório Simón Bolívar, incluindo a tapeçaria da artista plástica Tomie Ohtakeque cobria a lateral do auditório. Ao todo, 25 bombeiros ficaram feridos, sendo quatro em estado grave.

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