São Paulo Armas falsas representam 40% das apreensões de roubo em SP

Armas falsas representam 40% das apreensões de roubo em SP

Falta de regulação e fiscalização sobre a compra de armamentos de pressão colaboram para o aumento de crimes patrimoniais

Mais fáceis de ser adquiridas, armas falsas vem sendo mais utilizadas em crimes contra o patrimônio

Mais fáceis de ser adquiridas, armas falsas vem sendo mais utilizadas em crimes contra o patrimônio

Getty Images

Armas de pressão, normalmente utilizadas por esportistas, vem sendo desviadas para crimes patrimoniais. Um estudo do Instituto Sou da Paz detectou que uma em cada quatro armas apreendidas em São Paulo são simulacros, ou seja, armamentos de brinquedo. Em crimes de roubos, esse percentual é ainda maior: chega a 40%.

Fontes da Polícia Federal que atuam na repressão ao tráfico de armas nas fronteiras do país confirmam o aumento do número de armas do tipo airsoft que chegam ao território nacional. “Percebemos que armamentos desse tipo tem chegado entre os produtos contrabandeados tanto para comercialização na internet, quanto em pontos físicos”, afirma uma fonte da Polícia Federal.

Alguns fatores fazem com que esse tipo de arma seja mais procurado por criminosos em casos de crimes patrimoniais. “Elas são mais baratas, a regulação feita pelo Exército é frágil e elas podem ser facilmente compradas em lojas e páginas na internet”, afirma Bruno Langeani, gerente da área de Sistemas de Justiça e Segurança Pública do Instituto Sou da Paz.

A reportagem entrou em contato com três lojas virtuais de armas de pressão. Em duas delas havia o aviso de que o produto só poderia ser vendido para pessoas com mais de 18 anos e com a apresentação do documento de identidade. Na terceira, não havia nenhum tipo de aviso ou restrição ao comprador. De forma geral, a compra desse tipo de armamento não oferece restrições ou limitações aos compradores interessados.

Por que caem no crime

Armas de pressão ou de brinquedo são preferidas por autores de crimes de roubo pela possibilidade de ameaçar a vítima e, caso o suspeito seja pego em flagrante, será penalizado de forma mais branda do que se estivesse portando uma arma de fogo. A punição para quem é porta uma arma de fogo varia entre dois e quatro anos, se a arma for de uso permitido. Se for de uso restrito, a pena é de três a seis anos.

Já o porte de armas de pressão não é considerado crime. Em casos de roubos com esses equipamentos, o crime é considerado roubo simples com pena de 4 a 10 anos e multa. Em casos envolvendo arma de fogo, é considerado roubo qualificado e a pena é aumentada para seis a 15 anos de reclusão.

Segundo Langeani, um dos fatores que colabora com o aumento dos desvios desse tipo de armas para o crime é a falta de fiscalização sobre o perfil dos compradores desse tipo de produto e sobre os crimes que se alimentam desses armamentos. “Historicamente, o Exército vem atuando no sentido contrário de facilitar a retirada das armas de pressão da parcela de produtos controlados.”

As armas esportivas, obrigatoriamente, vêm com a ponta colorida de laranja ou alguma outra cor para sinalizarem que não se tratam de armamentos de fogo. Não é incomum, porém, que criminosos pintem ou raspem a pintura que as diferencia das armas de fogo. Nas redes sociais, existem vídeos que ensinam a retirar a ponta laranja das armas. No momento de confronto, explica Langeani, a ponta laranja é quase sempre despercebida.

Mesmo sendo armas falsas, as conquências para as vítimas são quase as mesmas. “Apesar de ter menos chances de se tornar um latrocínio, o trauma e o prejuízo para a vítima é o mesmo”, diz Langeani. “As forças de segurança não olham para esse problema. Em termos práticos. Não tem ninguém tentando coibir o uso de simulacros no crime.”

Exército

Por meio de nota, o Exército afirmou que seu papel é controlar, fiscalizar e regular atividades desenvolvidas com Produtos Controlados pelo Exército (PCE) em todo o país. Entre esses se encontram as armas de pressão. Em relação à crítica feita por especialistas de que o Exército faria um controle frágil sobre esses armamentos, o Exército diz que “é incumbido do poder de polícia administrativa, motivo pelo qual é competente para a fiscalização tão somente do comércio legal de armas.”

“O comércio ilegal e o uso ilícito de armas são atividades criminosas de competência dos Órgãos de Segurança Pública, responsáveis pela investigação e combate àquelas modalidades ilegais”, afirmaram em nota.

O Exército informou ainda que comerciantes e fabricantes devem ser registrados por meio de um certificado de registro e ter o controle de todas as armas vendidas com os dados de qualificação dos compradores. A fiscalização sobre produtos controlados é feita, segundo o Exército, sem aviso prévio, em operações de grande porte em todo o País.

O Exército atribuiu o aumento na apreensão em diversos tipos de produtos controlados, entre eles o airsoft, ao “incremento das Operações de Fiscalização com a participação integrada dos diversos órgãos de ordem e segurança pública e de agências de fiscalização fazendária.”

O R7 entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo mas até o fechamento dessa reportagem não obteve retorno.