São Paulo Assaltos cinematográficos: por que o crime pode se intensificar?

Assaltos cinematográficos: por que o crime pode se intensificar?

Abastecimento de caixa, acesso a informações sobre auxílio e falta de estrutura da polícia são razões por trás do aumento de crimes

  • São Paulo | Fabíola Perez, do R7

Grupo coloca fogo em caminhão em frente ao batalhão de polícia de Criciúma

Grupo coloca fogo em caminhão em frente ao batalhão de polícia de Criciúma

Guilherme Hahn/EFE - 01.12.2020

Explosões em instituições bancárias provocadas por homens fortemente armados que aterrorizaram moradores de pequenas e médias cidades de todo o país em 2020 podem se intensificar nos primeiros meses de 2021. Marcados por trocas de tiros, ataques a batalhões da Polícia Militar, fugas por rotas alternativas e uso de reféns, esses crimes revelam a falta de estrutura e investimento em inteligência da polícia.

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De acordo com o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, Luís Antônio Boudens, o anúncio do auxílio emergencial e de verbas repassadas pelo governo em função da pandemia do novo coronavírus colaboraram para que essa dinâmica criminal se repetisse.

“A distribuição de dinheiro, de verbas federais para atender as necessidades impostas pela pandemia deu início a um novo fenômeno. Os recursos alcançaram municípios pequenos. E a segurança pública não alcançou esses municípios nessa mesma proporção.” Segundo Boudens, o crime organizado tem informações sobre a liberação desses valores em cada cidade. “Essas organizações se mostraram informadas e se prepararam para executar esses atos.”

"Nesse ano, houve um novo fenômeno que foi a distribuição de dinheiro, verbas federais para atender as necessidades impostas pela pandemia"

Luís Antônio Boudens, presidente da Fenapef

Há uma constante necessidade, explica ele, por parte das organizações criminosas de abastecerem os caixas. "Isso para compensar uma grande apreensão da polícia ou se fortalecer em poder e armamentos", diz Boudens. 

Falta de integração e inteligência

A repetição deste tipo de crime, que vem sendo chamada por especialistas de "nogo cangaço" ou de estratégia de "domínio de cidades" expõe a falta de integração entre os bancos de dados das polícias civis e federal. "Temos hoje duas polícias trabalhando separamente, são 27 estruturas das polícias civis que não se comunicam. Ao mesmo tempo, a união entre os criminosos permite que essas ações se repitam da mesma forma: fugas, abordagens intimidadoras, ataques."

Como estes problemas são recorrentes, grupos tendem a repetir esse tipo de atuação se aproveitando de gargalos e fragilidades do sistema de segurança pública. 

"Temos duas polícias trabalhando separadamente, são 27 estruturas das polícias civis que não se comunicam. Ao mesmo tempo, a união entre os criminosos permite que essas ações se repitam."

Luís Antônio Boudens, presidente da Fenapef

Segundo o policial federal, a integração precisa ocorrer ao mesmo tempo em que a polícia deve passar por um processo de reestruturação. "Não podemos integrar estruturas que não funcionam, elas não vão contribuir no todo", disse. Além disso, outra mudança necessária, segundo ele, é a desburocratização das investigações. "Não podemos fazer dois processos judiciais, um na polícia e outro no Ministério Público."

A falta de comunicação entre as polícias é, para ele, outro gargalo. "É necessário estruturar as polícias, de forma que no comando tenham policiais eficientes. Tem investigadores que demoram 20 anos para assumir uma investigação." Boudens defende ainda que pessoas presas por participação em assaltos a bancos cumpram penas nos presídios de segurança máxima, com o mesmo padrão dos presídios federais. "Precisamos aumentar nossa capacidade de correção do sistema carcerário brasileiros."

Abaixo, relembre os assaltos e ataques a bancos em todo o país:

Em maio, uma troca de tiros entre criminosos e policiais militares assustou moradores de Ourinhos, cidade localizada no interior de São Paulo. A ação ocorreu no dia 2 de maio quando pelo menos 15 homens armados tentaram roubar uma agência do Banco do Brasil, uma da Caixa Econômica Federal e outra do Itaú. De acordo com a polícia, os homens estavam divididos em quatro veículos. Além das agências bancárias, um posto policial foi alvejado pelo grupo.

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Ataque em Ourinhos tem confronto entre PMs e grupo armado

Ataque em Ourinhos tem confronto entre PMs e grupo armado

Divulgação

Segundo a polícia, os homens teriam agido com a ajuda de drones, que sobrevoaram a cidade para monitorar a movimentação das equipes. O caso foi registrado no 1º DP de Ourinhos. Na ocasião, praticamente todos os setores do município cancelaram suas atividades em razão do clima de insegurança nas ruas e diversos relatos sobre ações de captura pela cidade. 

Botucatu (SP)

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Em julho, a cidade de Botucatu, também no interior de São Paulo, viveu terror parecido com o ocorrido em Ourinhos. Um grupo de criminosos armados atacou, mais uma vez, pelo menos cinco agências bancárias na madrugada do dia 30. Além das instituições, o grupo também invadiu o Batalhão de Polícia Militar do município. 

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O grupo fechou estradas que davam acesso a cidades vizinhas para dificultar o acesso das forças de segurança. A Rodovia Marechal Rondon, uma das principais que cortam a cidade, foi atravessada com um caminhão em chamas para dificultar acesso. Funcionários de uma farmácia foram feitos reféns pelos homens. Policiais militares de cidades vizinhas, como Bauru, Avaré e Piracicaba, prestaram socorro. 

Salvador (BA)

Em outubro, um grupo explodiu caixas eletrônicos de Salvador, capital da Bahia. A ação ocorreu na madrugada do dia 8. Enquanto uma parte entrou em uma instituição bancária, outros homens armados pararam os veículos que passavam pela rua. As pessoas foram obrigadas a sair dos carros para formar um escudo humano e confundir a polícia. Ninguém ficou ferido.

A explosão da agência bancária abriu um buraco na parede e parte da prédio desabou. Segundo a polícia, cerca de 10 homens participaram da ação e teriam fugido utilizando 10 veículos. A polícia montou uma força-tarefa para localizar o suspeitos.

Araraquara (SP)

Em novembro, o município de Araraquara, no interior de São Paulo, foi palco da ação orquestrada de homens armados e preparados para assaltar instituições bancárias. Uma quadrilha tentou invadir uma joalheria e uma agência localizada no centro da cidade, na madrugada do dia 24. Moradores da cidade compartilharam vídeos nas redes sociais da troca de tiros e relataram que tudo começou por volta de 2h30 da manhã.

Com a chegada da Polícia Militar, houve um intenso tiroteio com o grupo, que usava armas longas, como fuzil. Os homens colocaram fogo em alguns veículos para impedir a chegada dos policiais. Além disso, a saída de um Batalhão de Polícia foi fechada com um veículo incendiado. 

Criciúma (SC)

A cidade de Criciúma, em Santa Catarina, viveu no dia 1º de dezembro de 2020, o maior assalto da história do estado, segundo a Polícia Civil. Pelo menos 30 homens fortemente armados invadiram instituições bancárias de distribuição de dinheiro. 

Nas redes sociais, moradores relataram que o tiroteio começou por volta de meia-noite. Nos vídeos divulgados na internet, é possível ver que os homens abordaram moradores que caminhavam pelas ruas e fizeram trabalhadores da prefeitura de reféns. Os criminosos também atearam fogo em um túnel que interliga Criciúma à cidade de Tubarão para impedir que batalhões do município vizinho pudessem ajudar os policiais militares.

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"Podemos afirmar que foi o maior roubo da história de Santa Catarina", disse o delegado Anselmo Cruz, do Deic (Diretoria Estadual de Investigações Criminais). De acordo com o delegado, os homens portavam um farto armamento pesado, com fuzis calibres 556, 762 e armamamento calibre .50, de uso restrito das Forças Armadas. 

Os homens utilizaram cerca de 10 veículos para lançar um caminhão em chamas em frente ao 9º Batalhão da Polícia Militar. O fogo atingiu diversos cômodos do local, mas nenhum policial militar ficou ferido. Os carros foram encontrados em uma região de milharal no município vizinho de Nova Veneza. A polícia prendeu diversos suspeitos de participação na ação e segue investigando o caso. 

Cametá (PA)

Um dia após o assalto às instituições bancárias de Criciúma, outro grupo se valeu de técnicas semelhantes para atacar agências da cidade de Cametá, no interior do Pará. 

Mais uma vez, homens fortemente armados aterrorizaram o município do interior do Pará, na madrugada do dia 2 de dezembro, ao assaltarem cinco agências bancárias e fazerem reféns durante a fuga. O prefeito Waldoli Valente confirmou a morte de uma pessoa durante a ação.

Segundo relatos de moradores nas redes sociais, ao menos 30 homens participaram dos assaltos no município que fica a 235 quilômetros da capital Belém. Nos vídeos divulgados na internet é possível ver o desespero dos moradores com os tiros e os reféns caminhando por uma praça.

Floraí (PR)

Um grupo criminoso utilizou explosivos para invadir duas agências bancárias na madrugada do dia 1º de dezembro, em Floraí (PR), município situado a 479 km ao norte de Curitiba. A Polícia Militar declarou não ter visto relação do ataque com o roubo realizado em Criciúma (SC), na madrugada passada.

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Os homens fugiram com o dinheiro de apenas uma das agências — a dinamite que deveria abrir o cofre do segundo banco falhou —, deixando um rastro de terror e destruição. O valor roubado não foi divulgado pelas autoridades.

O grupo estava encapuzado e portava armas de grosso calibre. Depois, eles espalharam pregos na estrada que dá acesso ao município para dificultar a chegada das viaturas policiais.

A Polícia Civil suspeita que o grupo tinha informações privilegiadas sobre o funcionamento dos bancos, pois o ataque ocorreu exatamente no dia em que as instituições haviam recebido dinheiro para pagar os salários dos funcionários da prefeitura.

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