Com rotina normal, Sapopemba lidera ranking da covid-19 em SP

Distrito tem 300 óbitos suspeitos pelo vírus e passou a Brasilândia, segundo dados da prefeitura. População não entende ou ignora riscos da doença

Distrito de Sapopemba lidera ranking de mortes por covid-19 com 300 óbitos

Distrito de Sapopemba lidera ranking de mortes por covid-19 com 300 óbitos

Divulgação / Projeto Fazenda da Juta

Com rotina sem alterações em meio à pandemia do novo coronavírus, Sapopemba, distrito da zona leste de São Paulo, tem 13,5 km², quase 285 mil habitantes e 51 bairros. A região desafia as autoridades e os riscos da covid-19. "É um estado de negação. A situação tem piorado muito nos últimos dias. No começo, até ficavam mais em casa. Hoje é vida normal", afirmou ao R7 o líder comunitário e responsável pelo Projeto Fazenda da Juta, Cassiano Ferreira da Silva.

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Entre os 96 distritos da capital paulista, Sapopemba lidera o ranking de mortes confirmadas ou suspeitas por covid-19: 300 óbitos, segundo levantamento da prefeitura entre 11 de março e 18 de junho. 

Até então, Brasilândia, na zona norte, tinha a pior situação na cidade. Agora ocupa a segunda posição, com 277 mortes por covid-19. Na sequência aparece o Grajaú, na zona sul, com outros 267 óbitos.

A evolução do aumento de casos em Sapopemba chama a atenção. Em 30 de abril, eram 101 óbitos pela covid-19, em 14 de maio passou para 152, em 28 de maio já eram 211, em 5 de junho subiu para 245 até chegar às 300 mortes em 18 de junho. O número hoje tende a ser ainda maior, mas a prefeitura não divulgou um novo boletim epidemiológico.  

Mas mesmo com a divulgação de que a doença se espalha pelo distrito, os moradores têm dificuldades para entender a gravidade da situação. "A gente conversa, fala pra não sair, mas eles dizem que precisam sair para comer. E se você vai falar, mandam a gente cuidar da nossa vida", revela Cassiano.

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Erineusa Ferreira Valdevino tem 48 anos, é faxineira de um prédio na zona leste e moradora de Sapopemba. Ela ficou afastada do trabalho por causa da covid-19 por quase um mês. Ela acredita que contraiu o coronavírus no ônibus, usado nos deslocamentos, mas não tem como garantir.

"No meu bairro, é muita aglomeração, gente sem máscara, é churrasco nas comunidades, pessoal em cima das lajes bebendo, tomando um no copo do outro. Usam o mesmo cigarro. É bagunça na avenida. Não teve quarentena nenhuma, por isso a doença se espalhou desse jeito. É feio o negócio. O povo devia ter mais consciência de ficar em casa", contou Erineusa.

Os primeiros sintomas (dor de cabeça, coriza, dor de garganta e perda de paladar) surgiram em 30 de maio, mas a confirmação do diagnóstico só veio no dia 6 de junho após o exame. Ela passou a ter dor fortes no corpo, febre e cansaço e foi para o hospital do Tatuapé: "Lá tava super lotado, médico me examinou, fez tomografia e já tinha atingido 50% do meu pulmão. Eu podia ser internada, mas preferi o tratamento em casa. Fiquei muito assustada".

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O tratamento foi à base de antibiótico, AAS pra trombose, antitérmico e corticóide. "Melhorei graças a Deus e aos médicos que me deram a medicação correta. Agora tô bem".

Ela mora com o marido e dois filhos. Apenas o casal foi contaminado. Ele perdeu o olfato e paladar e até agora não recuperou.

Distrito tem alta densidade demográfica, o que facilita aglomerações

Distrito tem alta densidade demográfica, o que facilita aglomerações

Divulgação / Projeto Fazenda da Juta

Festas e movimentação

Leila Maria Santos de Castro, de 38 anos, também mora na região com os dois filhos. Com medo de ser contaminada, ela pouco sai de casa, apenas para ir ao mercado, açougue e farmácia. Mas a vizinhança não está nenhum pouco preocupada: "Quando saio, vejo que a maioria não usa máscaras e tem festa todo fim de semana na minha vizinha. A agente de saúde falou que tem cinco casos de covid por aqui, mas não sei quem é".

Uma das maiores preocupações no distrito é combater os fluxos e os pancadões aos sábados. "Na periferia não mudou nada. Bares funcionando até 3h da manhã, um deles com 200 pessoas na rua, poucos com máscara. Prefeitura vem, eles mudam a festa de endereço. Virou as costas, os bares reabrem", conta Cassiano da Silva. 

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Um agente comunitário de saúde da região que não quer ser identificado revela que o maior desafio é mesmo respeitar o isolamento aos finais de semana: "Tem muito habitante na região, uma casa tem até 10 pessoas. Por ser família, acham que não correm risco. Na semana tá controlado, mas fim de semana é boteco cheio, churrasco para os mais 'chegados' e os parentes, que estão trabalhando, trazem o vírus".

Cassiano conta também que a quarentena não é respeitada nem por infectados pelo coronavírus: "As pessoas estão com covid-19, mas não vão aos postos de saúde. A gente sabe que eles estão com a doença, mas ficam andando pra lá e pra cá. Sei de pelo menos uns dez casos assim".  

Leila é diarista e perdeu o emprego na pandemia porque foi dispensada pelos clientes com receio de contaminação. Ela foi chamada para trabalhar em uma loja no Brás, na região central, mas não se sentiu segura para ir. O atual cenário fez com que ela desenvolvesse uma crise de ansiedade: "Sentia meu coração acelerado e falta de ar à noite. To tomando remédio. Eu morro de medo".

Na casa de Leila, a única renda é o salário do marido, que viaja a trabalho a maior parte do tempo. Ela também não conseguiu o auxílio emergencial de R$ 600 pago pelo governo federal. 

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Ela se preocupa com o atual cenário da pandemia porque os dois filhos já apresentaram sintomas. Primeiro foi a filha que ficou em isolamento, depois foi a vez do filho. Mas nenhum deles fez o teste para confirmar o diagnóstico. "Meu filho conhece gente que morreu de covid-19 e amigos até falam do baile do Corona aqui na região", disse.

O agente comunitário de saúde entrevistado pelo R7 também foi infectado pelo coronavírus. Ele e pelo menos outros três agentes da região, nenhum com gravidade. "Muita gente chega na UBS com sintomas leves e dá positivo o teste. Fui infectado, mas não tomei remédio, fui assintomático. Só fiquei em quarentena".

Ele diz ter percebido um crescimento no número de casos porque muitos usam máscara no queixo, não se cuidam, ficam nas ruas com as crianças, mas a grande preocupação é agora com o inverno: "Pro coronavírus não tem idade. Todo cuidado é pouco. No frio, a gente não sabe como será".

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Isolamento improvável

Sapopemba é também um distrito com alta densidade demográfica. São mais de 21 mil pessoas por km², segundo dados da Secretaria de Subprefeituras. Em Marsillac, no extremo sul, são 41 pessoas por km², para efeitos de comparação.

Para o professor em Saúde Pública da USP e ex-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Gonzalo Vecina Neto, o maior desafio é conseguir manter o isolamento nas periferias, que tem casas pequenas e muitos moradores por habitação. Em geral, eles não têm reservas financeiras e lutam para sobreviver em meio à crise gerada pela pandemia. O sanitarista lembra que a população sai às ruas "para conseguir comer e colocar o alimento em casa".

Em ocupações e favelas, manter o isolamento nas casas é improvável

Em ocupações e favelas, manter o isolamento nas casas é improvável

Divulgação / Projeto Fazenda da Juta

Cassiano Ferreira confirma que o isolamento é improvável de acontecer nas casas. "Na verdade, dificilmente fazem e acabam contaminando a família toda. Minha tia pegou covid numa casa com três cômodos. Ela ficou em um. Tem casas ainda menores, muita ocupação e favelas na região", alertou.

Para que os moradores de comunidades consigam fazer o isolamento adequado para barrar a propagação do novo coronavírus, uma alternativa seria a criação de abrigos. Em Paraisópolis, na zona sul da capital, duas escolas foram transformadas em centros temporários de acolhida para os infectados que tenham sintomas leves.

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Outra opção seria o aluguel de quartos de hotéis, que estão ociosos por causa da pandemia, desde que fossem adotados os devidos cuidados de higiene e proteção. A ideia foi até cogitada pela prefeitura de São Paulo, mas para abrigar a população de rua.

Há ainda uma alternativa mais radical, já adotada no Mato Grosso do Sul: a colocação de tornozeleiras eletrônicas, como a dos presos em regime semiaberto, em quem furar o isolamento. A medida, no entanto, tem que ter o aval da Justiça.

Solidariedade

Uma forma de movimentar a economia local e, ao mesmo tempo, beneficiar a comunidade foi a confecção de máscaras. A iniciativa é uma parceria com o Instituto Bei. Foram contratadas 200 costureiras moradoras da região que recebem R$ 1,20 por cada uma. 

Costureiras da região ganham R$ 1,20 por máscara

Costureiras da região ganham R$ 1,20 por máscara

Divulgação / Projeto Fazenda da Juta

São 40 mil máscaras de pano entregues por semana. As doações vão para moradores, comerciantes, voluntários, profissionais de saúde, limpeza e segurança. 

Como o uso da máscara não é tão comum no distrito, o projeto quer entregar duas delas para cada morador naquele velho método: batendo de porta em porta.

O agente comunitário de saúde garante que nunca faltou materiais de proteção para os profissionais, mas algumas rotinas foram alteradas: "A gente recebe luva, máscara e álcool em gel. Não entramos nas casas como antes, pacientes não assinam mais as fichas e, para evitar aglomeração nos postos, a gente leva insulina para os diabéticos, troca receitas de remédios controlados, mas não paramos de atender".  

Cada agente é responsável por cerca de 200 famílias e faz ao menos 200 visitas por mês.

Ações da Prefeitura

Numa ação de higienização que ocorreu há uma semana, tratores passaram pelas ruas do distrito e lançaram o produto. Nas vielas, o trabalho teve de ser manual. No entorno do hospital Sapopemba é comum a higienização.

Segundo o líder comunitário Cassiano, que também é conselheiro na UBS Fazenda da Juta I, "não falta assistência médica em Sapopemba, mas tem sido alta a procura para fazer o exame de covid-19, por isso há demora para conseguir fazê-lo".

Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que a região possui 25 UBSs, sendo quatro Integradas a AMAs (Assistência Médica Ambulatorial) e uma AMA isolada que trabalha na identificação e tratamento da covid-19.

Higienização das ruas com o uso de tratores

Higienização das ruas com o uso de tratores

Divulgação / Projeto Fazenda da Juta

A Secretaria Municipal de Saúde ressaltou que os agentes comunitários de saúde realizaram, até 12 de junho, 1,2 milhão de abordagens, com visitas e orientações em cerca de 8 mil ações, levando em consideração as particularidades de cada território.

Já as equipes da Estratégia de Saúde da Família fazem visitas diárias às casas para orientar a população também em locais públicos sobre a doença, práticas e higiene.

Ainda em nota, a prefeitura informou que utiliza diversas ferramentas para divulgação, como carro de som e cartazes, monitora os casos com sintomas leves de gripe por telefone e, se houver necessidade, em visita domiciliar.