Combate a bailes funk exige menos bomba e mais prevenção em SP

Finais de semana registram ações policiais, sobretudo nas periferias, para coibir eventos. Em quatro meses de pandemia, houve mais de 3 mil denúncias

Registro de baile funk na zona leste durante a pandemia

Registro de baile funk na zona leste durante a pandemia

Reprodução/Facebook

Mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus que há pouco mais de quatro meses mudou a rotina das pessoas, os bailes funk em São Paulo continuam acontecendo. Entre março e julho, foram registradas mais de 3 mil denúncias de pancadões de rua no Estado.

Após o recebimento dessas denúncias, as forças policiais costumam fazer um trabalho para combater a realização do evento. Algumas vezes com repressão e, outras, prevenção.

“Os bailes de rua estão acontecendo a todo vapor como sempre aconteceu, e responsabilidade não é apenas de quem faz, mas também do próprio Estado”, diz o ativista de direitos humanos e produtor cultural Darlan Mendes, 30 anos, que atua principalmente na zona leste de São Paulo.

Ele acredita que a atuação do Estado, com uso da polícia, deveria ser feita sempre de forma preventiva, evitando as ações com violência, incluindo uso de bombas e balas de borracha, quando os bailes estão acontecendo.

“A polícia local sabe onde é que vai acontecer o baile, então o ideal seria chegar horas antes e deixar uma viatura fazendo o bloqueio, isso evitaria transtornos, violência policial”, diz Mendes.

O sociólogo Benedito Mariano, ex-ouvidor de polícias de São Paulo, disse que a melhor forma das forças de segurança agir em bailes funk é "chegar antes de começar ou no final, na dispersão". Afirma ainda que, durante a pandemia e necessidade de impedir aglomerações, "a melhor forma é mapear os locais  e chegar antes para não iniciar a atividade".

Imagens feitas por moradores do Jardim Robru, na zona leste de São Paulo, mostraram uma ação de policiais para acabar com um baile funk no começo deste mês. Na atuação, os policiais usaram bombas para dispersar as pessoas. Os vídeos foram anexados a uma denúncia encaminhada para Ouvidoria de Polícias em 12 de julho.

PM em ação preventiva na zona leste

PM em ação preventiva na zona leste

Reprodução/Facebook

Duas semanas depois, a ação policial foi diferente. Segundo Mendes, os policiais chegaram cedo no bairro e começaram fazer uma operação preventiva, para impedir possíveis aglomerações.

Nas redes sociais, o prefeito regional de Itaim Paulista, Gilmar Souza Santos, escreveu sobre a operação policial e disse que o objetivo era “evitar aglomerações e coibir a perturbação do sossego que, há anos, tem causado transtornos aos moradores da região”.

Neste último final de semana, a polícia militar realizou a operação Paz e Proteção, em bairros da região do Sapopemba, zona leste paulistana. No domingo (26), a PM abordou 71 pessoas e vistoriou 31 veículos. Além disso, realizou 12 autuações por infrações de trânsito. Segundo a polícia, não houve registro de aglomeração.

Em outro ponto da cidade, no Jabaquara, zona sul, a Polícia Militar também atendeu um chamado de baile funk no domingo. Por volta das 23h foi até o endereço e encontrou jovens reunidos. Com a aproximação da equipe policial, houve a dispersão, sem registro de violência, e ninguém foi detido.

Darlan Mendes, que acompanhou a operação policial durante este final de semanana zona leste, acredita que “esse deve ser o procedimento, sem violência".

Durante a pandemia, Mendes acredita que as autoridades devem atuar juntamente à população para conscientizar sobre a importância de não fazer aglomerações e, quando as atividades voltarem ao normal, afirma que é necessário o Poder Público disponibilizar espaços para realização de bailes funk nas periferias.

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo disse que mapeia os locais que possivelmente acontecem os bailes e "dentro do critério técnico, direcionadas as viaturas para impedir sua instalação".

A pasta afirmou ainda que "quando já iniciado, a PM mantém o policiamento pelas imediações, para garantir o direito de ir e vir das demais pessoas e evitar que o evento aumente".

Segundo a secretaria, durante o período de quarentena "foram realizadas 1.299 operações “Paz e Proteção”, resultando em 91 pessoas presas, 42 procurados recapturados, 10 armas de fogo e cerca de 29 kg de drogas apreendidas, além de mais de 10 mil autuações de trânsito".

Embora ainda esteja acontecendo com frequência, está longe de ser o normal como antes da pandemia. E isso o MC Danilo Boladão, que há mais de 20 anos sobrevive de apresentações em bailes funk diz com propriedade, por sentir no bolso a falta dos eventos.

Danilo, que mora e costuma fazer os shows em pancadões da Baixada Santista, afirma que desde março, quando começou a quarentena, não realizou nenhuma apresentação. Segundo ele, os eventos organizados por moradores e lideranças comunitárias estão suspensos e a situação dele fica ainda mais agravada por ter diabete e, portanto, ser do grupo de risco.

Os eventos que acontecem nas ruas das periferias, sobretudo da capital paulista, costumam ser organizados de forma espontânea, por jovens que costumam se encontrar em determinados pontos dos bairros, como praças e parques, e potentes sons de veículos ditam o ritmo da festa.

Já nos bailes que Danilo Boladão costuma se apresentar, apesar de também ser na rua e formato semelhante aos que acontecem durante a pandemia, existe a contratação de carros de som e palcos. Este tipo de evento, segundo o artista, está suspenso e com mais restrições.