Tragédia no centro de São Paulo
São Paulo Comum em ocupações, cobrança funciona como 'taxa de condomínio'

Comum em ocupações, cobrança funciona como 'taxa de condomínio'

Moradores de outros prédios ocupados relatam que "vaquinhas" ajudam a manter a limpeza, segurança e a organização do local. Valor chega a R$ 400

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Um dos andares da ocupação do Wilson Paes de Almeida

Um dos andares da ocupação do Wilson Paes de Almeida

Lidiane Maciel/Reprodução Facebook

Pagamento de taxas, mensalidades e “vaquinhas” são comuns em ocupações de imóveis por famílias de sem tetos ligadas a movimentos sociais no centro de São Paulo, mas os valores têm uso específico e são fundamentais para a organização da ocupação.

O R7 conversou com moradores de diversas ocupações no centro da capital paulista sobre a questão. Em todas elas, a reportagem constatou que há alguma cobrança de valores, mas com propósitos específicos.

“A taxa é natural desde que se saiba o uso desse dinheiro e que ele seja para a melhoria das coisas de uso comum na ocupação, como portaria, limpeza, manutenção”, explica Luiz Tokuzi Kohara, doutor em urbanismo pela Universidade Federal do Grande ABC que estuda e acompanha as ocupações no centro de São Paulo.

Em algumas ocupações, as lideranças estipulam uma taxa que funciona como o condomínio cobrado em prédios residenciais. Em outras, é feita uma coleta de valores em que cada um ajuda com o que pode. Há também casos de pessoas que se aproveitam das condições e exigem cobranças, como as relatadas na ocupação que desabou.

Em uma das mais antigas ocupações de São Paulo, a ocupação Mauá, por exemplo, os moradores pagam uma taxa mensal de R$ 180 em média. “É como um condomínio, o dinheiro é usado para pagar os porteiros, a limpeza de áreas comuns, manutenção de pequenas coisas no prédio e os advogados que trabalham na ação da ocupação”, explica uma coordenadora da ocupação.

“Aqui tem até extintores nos andares e a rede elétrica foi toda arrumada com o dinheiro que pagamos”, explica Maria Aparecida, que trabalha como ambulante e mora em uma ocupação no centro de São Paulo há pelo menos 6 anos.

Na ocupação Mauá, moram 237 famílias distribuídas nos 180 quartos do prédio. A portaria funciona 24 horas, os porteiros são moradores do prédio e recebem salário, assim como as pessoas que fazem a limpeza das áreas comuns. Também existem câmeras de segurança para monitorar o fluxo de pessoas.

Em alguma ocupações as taxas pagam porteiros e até extintores

Em alguma ocupações as taxas pagam porteiros e até extintores

Lidiane Maciel/Arquivo Pessoal

Já em outra ocupação próximo ao terminal Bandeira, no centro de São Paulo, os moradores afirmam que, todo mês, é “passado o chapéu” — termo usado para contribuições voluntárias dos participantes da ocupação. O dinheiro arrecadado tem funções semelhantes a de uma taxa de condomínio, assim como na ocupação Mauá.

"Quando tem algo que precisa ser consertado, pessoal faz a vaquinha e resolve", diz uma moradora.

Na ocupação do antigo prédio do INSS na avenida Nove de Julho, o sistema é semelhante ao que funciona na ocupação Mauá. Os moradores pagam as despesas comuns para manter o prédio. O dinheiro também serve para custear advogados que cuidam da ação judicial relacionada a ocupação.

A reportagem do R7 não conseguiu confirmar ser obrigatório o pagamento das taxas para permanecer no local. "Se não dá pra pagar, é só conversar com os coordenadores, eles sabem que a grana é curta", relatou um morador. 

Já na ocupação no Largo do Paissandu, os moradores afirmam que pagavam para coordenadores do MLSM (Movimento Luta Social por Moradia) taxas de até R$ 400. O R7 apurou que a mesma cobrança era feita em outras ocupações associadas a este movimento.

Alguns moradores afirmaram ainda que, além das taxas, muitas vezes tinham que pagar outros valores para a limpeza do prédio e manutenção, por exemplo.

Movimento fora d'água

Após o incêndio que resultou no desmoronamento do edifício Wilton Paes de Almeida na madrugada da terça-feira (1º), moradores acusaram lideres do movimento social que coordenava a ocupação de cobrar pelo "aluguel" dos quartos no prédio.

Líderes e coordenadores de diversos movimentos com atuação tradicional na ocupação de prédios para moradias populares, consultados pela reportagem do R7, afirmam que não conheciam o movimento que liderava a ocupação do prédio, o qual colapsou após o incêndio.

“Não é um grupo que tem interlocução e participa de atividades comuns de outros grupos e ações coordenadas na defesa de políticas públicas de habitação”, diz Luiz Kohara.

As acusações feitas contra os coordenadores do MLSM chamam atenção, pois, além dessa, outras siglas aparecem esporadicamente atuando na ocupação de espaços, mas sem participar das discussões e articulações feitas pelos movimentos mais sérios em busca de solução para o déficit habitacional paulistano.

“Essas siglas que aparecem aqui e lá e somem com a mesma velocidade em que aparecem. Acaba confundindo a população e atrapalhando quem desenvolve um trabalho sério”, completa Kohara.

As notícias das cobranças de taxas e alugueis no edifício que desabou também geraram discussões acaloradas nas redes sociais e uma onda de notícias falsas, generalizando a cobrança como algo ílicito por parte de diversos movimentos sociais que atuam na área de habitação.

"Oportunistas existem em todos os lugares [...], então é preciso separar o joio do trigo, você não pode fazer uma generalização indevida por conta de um caso e utilizar isto para criminalizar os movimentos sociais", diz Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), um dos movimentos mais antigos atuando no setor.

A Polícia Civil afirma que está investigando as pessoas suspeitas de fazer as cobranças no prédio que desabou e procura os responsáveis apontados pelos moradores.

O R7 tentou contato com um deles, que seria o líder da ocupação, mas ele não retornou os contatos e chegou a apagar sua conta nas redes sociais após ter seu nome ser divulgado.