Coronavírus obriga idosos a conviverem com crianças sem aulas

Mulheres idosas da periferia de São Paulo relatam falta de alternativas para abrigo dos jovens. Pessoas acima de 60 anos são as mais afetadas pelo vírus

Primeira vítima de coronavírus no Brasil tinha 62 anos (foto ilustrativa)

Primeira vítima de coronavírus no Brasil tinha 62 anos (foto ilustrativa)

ALESSANDRO BUZAS/ FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

A costureira Maria Lúcia Mariano Calixto, 63 anos, fala com tranquilidade da primeira segunda-feira acompanhada das três netas, após serem a dispensa das aulas em escolas estaduais por causa da pandemia do coronavírus. Mesmo com o fechamento total das unidades previsto para o dia 23, a família optou por se prevenir de mais aglomerações. A adolescente, de 17 anos, e as duas irmãs gêmeas, de 10, já não vão às aulas desde segunda (16).

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Estar no grupo de risco para vírus causadores de síndromes respiratórias não é novidade para a costureira, que foi diagnosticada com câncer há três anos. Porém, o medo do Covid-19 fez a idosa adotar ainda mais cuidados: "Estamos fazendo tudo de possível para manter a higiene de cada uma para não termos problemas. Dependendo do lugar que chegam vão direto para o banho", diz Maria.

O coronavírus trouxe mais uma criança para a casa dela, na Vila Santa Maria, zona norte de São Paulo. A avó, que já criava as netas sozinha, ficará também no período da tarde com o neto de sete anos de uma amiga, que não tem como cuidar do bebê sem interromper o trabalho.

Os idosos formam o grupo mais vulnerável ao coronavírus, com taxa de letalidade atingindo mais de 15% das pessoas com mais de 80 anos. O governo de São Paulo anunciou o fechamento gradual das escolas justamente para evitar que os pais repassem os cuidados das crianças aos avós. Depois do dia 23, as escolas estarão fechadas por tempo indeterminado. 

A falta de espaço nas residências e a condição financeira dos pais dependentes do ensino público estadual contribuem para o cenário, conforme relata a diarista Valéria da Silva, de 53 anos. Ela vive no Jardim Peri, zona norte da capital, com o marido idoso, de 62 anos, os dois filhos e está cuidando de dois netos: uma menina de 8 e um bebê de 3 anos.

A diarista também confirmou que está tomando maiores cuidados para a prevenção, mas que não vê nenhuma outra alternativa em casos como o seu. "Qual é a pessoa mais indicada além dos avós?", justificou. 

Maria Lúcia demonstra preocupação com o cenário recorrente no seu círculo social: mães trabalhadoras que dependem da escola para abrigar seus filhos. "Para estas mães sozinhas é muito difícil. Elas arrumam, mas vão ter que fazer um sacrifício a mais para pagar alguém para cuidar dos filhos deles", conclui.

Além de trabalhar em casa, Maria vai ter cuidar de três crianças nos próximos dias

Além de trabalhar em casa, Maria vai ter cuidar de três crianças nos próximos dias

Arquivo Pessoal

"Se um parar, tem que parar todos"

Ana Vieira, 75 anos

A pandemia do coronavírus provocou uma série de mudanças administrativas no estado de São Paulo. Na última sexta-feira (13), o governo do Estado anunciou a liberação de R$ 225 milhões em subsídios para conter os efeitos econômicos da crise. A gestão Doria ainda cortou viagens de servidores, afastou funcionários em grupo de risco e cancelou todos os eventos estaduais que agrupem qualquer número de pessoas por 30 dias.

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Com uma morte e pelo menos 164 casos confirmados no estado e com o registro de transmissão comunitária do coronavírus, o prefeito Bruno Covas decretou estado de emergência na capital.

A aposentada Ana Vieira, de 75 anos, é outra que procura manter a calma frente à pandemia. "Se eu esquentar a cabeça, minha pressão e diabetes solta, então é melhor ficar tranquila" disse a idosa, que mora com os cinco netos e os cinco filhos em um terreno no bairro Jardim São Carlos, em Itapevi, na Grande São Paulo.

Assim como as outras duas entrevistadas, a idosa não tem possibilidade de evitar o convivío diário e constante com netos e com os filhos adultos, que ainda saem de casa para trabalhar. Ela acredita que a melhor forma de prevenir o contágio do covid-19 seria a suspensão total das atividades em todo o estado. 

Valéria teme pela saúde de sua família por causa da mesma questão. Sua filha de 22 anos, operadora da caixa em um shopping, tem que percorrer cerca de 13 km pelo transporte público todos os dias para ir ao trabalho. "Tenho mais medo dessa viagem de ida e volta dela do que dos meus netos", relata.

A diarista também deve trabalhar nos próximos dias. A cada duas semanas, ela visita três casas. Para chegar a um dos seus clientes sem pegar o ônibus, Valéria precisa andar por pelo menos 40 minutos.   

Prevenção

Nas próximas semanas, as netas de Maria Lúcia devem sair de casa somente para atividades essenciais. Como prevenção, a família também cancelou aniversários e festas com a família neste mês. 

"As pessoas tem que ter mais conscientização. Temos que procurar ficar em casa para prevenir novos casos"- Maria Lúcia, costureira, 63 anos

Além das medidas básicas de higiene, especialistas também recomendam o arejamento dos ambientes e o distanciamento entre familiares e idosos, incluindo o contato físico, para prevenir a transmissão do covid-19. 

O coronavírus pode ser transmitido de pessoa a pessoa pelo ar, por meio de tosse ou espirro, pelo toque ou aperto de mão ou pelo contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido então de contato com a boca, nariz ou olhos.

O Brasil tinha 291 casos confirmados de coronavírus até terça-feira (17). Em entrevista coletiva, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, recomendou aos governos estaduais que médicos garantam receitas válidas pelo período de seis meses para pessoas que estão nos grupos de risco (idosos, doentes crônicos e pessoas imunossuprimidas).

O objetivo é fazer com que esses indivíduos saiam o mínimo possível de casa nestas semanas de crescimento dos casos.

*Estagiário do R7, sob supervisão de Clarice Sá