Dia do Tietê: SP tem desafio para despoluir 15% dos 1.100 km do rio

Aumento da poluição no rio é tema de primeira reportagem de série sobre saneamento. Conheça também Vital da Costa, que por anos remou no Tietê

Rio Tietê continua sendo depósito de esgoto na capital paulista

Rio Tietê continua sendo depósito de esgoto na capital paulista

Edu Garcia/R7

Um dia, no passado, o Rio Tietê já foi um cenário de beleza e lazer na capital paulista. Desde sua nascente, em Salesópolis, até onde deságua, no rio Itapura, divisa com o Mato Grosso do Sul, o rio ainda resiste em seus cerca de 1.100 km, apesar de ter 163 km (15%) como um dos mais poluídos do mundo. 

Rio já foi cenário de regatas históricas que mobilizavam a cidade

Rio já foi cenário de regatas históricas que mobilizavam a cidade

Divulgação/Arquivo Histórico Clube Esperia

A história dos rios se misturam com a das pessoas. Como elas, há que se fazer diferenciação entre um e outro. Há os mais resistentes. Há os que necessitam atenção especial, por serem diferentes. Únicos, correndo em direção a um destino.

É o caso do Tietê, especial por correr em direção ao interior e não ao oceano, como a grande maioria. Mas, como um velho senhor, desgastado, introspectivo, abatido, só os que o conheceram na plenitude o compreendem. O dia 22 de setembro é considerado o aniversário do rio, quando se comemora o Dia do Rio Tietê, sem se referir a uma idade específica.

Vital da Costa (centro) disputava competições no rio

Vital da Costa (centro) disputava competições no rio

Divulgação/Arquivo Histórico Clube Esperia/Vital da Costa

Nadar ou remar em suas águas era uma das rotinas mais saudáveis até os anos 50, na capital paulista, para o sr. Vital da Costa, de 81 anos, nascido em Caicó, sertão do Rio Grande do Norte.

Tendo chegado a São Paulo aos 18 anos para trabalhar, ele encontrou no esporte uma maneira de se relacionar com a cidade. Já jogava basquete desde os 12 e se apegou ao remo nas águas paulistas.

Poluição do rio registrou um aumento após três anos de queda

Poluição do rio registrou um aumento após três anos de queda

Willian Moreira/Agência Estado/19-09-19

“Treinávamos de terça a domingo das 5h45 às 7h20 da manhã, com o barco n’água. Eram treinos puxados porque havia muitas competições durante o ano. Tudo culminava no final de novembro com o Campeonato Paulista, que era o grande acontecimento do ano. Nossa rotina era essa, convivendo diariamente com o nosso Rio Tietê lindo, arborizado e limpo. Era muito prazeroso na madrugada sentir o cheiro da natureza”, lembra.

Tristeza com o rio

O sr. Vital se enraizou em São Paulo. Conseguiu abrir a própria empresa de cartões para embalagem e papéis, que tem até hoje, no Bom Retiro, após trabalhar por 10 anos na Heidelberg, com máquinas gráficas.

Conheceu sua esposa no clube Esperia, às margens do rio. Casou-se há 55 anos, teve três filhas e dois netos. Mas, até hoje, com todas as conquistas, sente falta daquele rio que na verdade foi quem melhor ouviu seus anseios diante da então desconhecida cidade grande. Agora, Vital se lamenta pelo fato de ser um dos poucos que ouvem os apelos do rio doente, sem poder fazer muita coisa além de torcer pela recuperação do amigo "das antigas".

“Eu sinto muita tristeza pelo pouco caso desses governos anteriores, que contribuíram para deixar este rio maravilhoso nessas condições, é muito triste.”

Trecho de 163 km do rio está poluído, mantendo oxigenação em praticamente 0%

Trecho de 163 km do rio está poluído, mantendo oxigenação em praticamente 0%

Willian Moreira/Agência Estado/19-09-19

A urbanização e a industrialização ocorreram de modo caótico, provocando, a partir dos anos 40, uma degradação que foi afastando turistas e frequentadores do local. O lixo foi se acumulando ao longo da margem e as águas passaram a ser depósito de resíduos e esgoto. Os mais jovens, hoje, associam o rio à sujeira.

Desde os anos 80, o processo de despoluição do rio passou a ser um desafio para os governos. Mas que ainda não foi superado. Em 1993, por exemplo, foi lançado o Projeto Tietê, financiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), com a promessa de que o Tietê estaria limpo em 2005.

Em quase 30 anos, foram gastos US$ 2,8 bilhões para ampliação e melhorias do sistema de esgotamento sanitário de São Paulo, no projeto de despoluição do rio. Mas ainda este trecho de 163 km do rio está poluído, mantendo a oxigenação em praticamente 0% (o mínimo para a existência de peixes é de 5%), segundo a ONG SOS Mata Atlântica.

Segundo a engenheira ambiental Amanda Rodrigues Inácio, pesquisadora da Unicamp, mestre em Engenharia Civil - Saneamento e Ambiente e coordenadora do Sistema de Gestão Ambiental do Senac Campinas, o tratamento de esgoto ainda não é efetivo em todo o Estado de São Paulo. E todo esgoto, tratado ou não, tem como disposição final os rios, conforme ela afirma.

"Primeiramente, precisamos parar de poluir, ou seja, parar de lançar esgoto neste rio. E também é necessário lembrar da importância de se preservar as áreas de mananciais. Com o aumento dos aglomerados urbanos, tais áreas vão sendo ocupadas de forma irregular e causando danos ao rio também", ressalta.

Investimentos ainda não conseguiram deixar o rio despoluído

Investimentos ainda não conseguiram deixar o rio despoluído

Edu Garcia/R7

A professora Amanda considera o rio Tietê e, consequentemente, o Pinheiros, exemplos que ilustram esse problema. Ambos estão inseridos na Bacia do Rio da Prata.

"A situação em que o rio Tietê se encontra é resultado de uma série de problemas, que vão desde a falta de tratamento de esgoto até a expansão urbana e ocupação de áreas irregulares."

Tal situação, segundo ela, tem trazido prejuízos não só para a cidade de São Paulo, mas para uma região muito mais ampla.

"A poluição do Rio Tietê traz prejuízos sociais, econômicos e ambientais em âmbito local e regional, principalmente, considerando que o rio abrange mais de um município. Tais prejuízos vão desde a contaminação da água e, consequentemente, o impedimento de usá-la para abastecimento público, até mesmo à impossibilidade de práticas de esporte e lazer, como era costume há algumas décadas."

Tietê: água verdadeira

Para a Sabesp, a poluição do rio Tietê tem total relação com a urbanização desordenada da região metropolitana de São Paulo.

“Ocupações irregulares, sobretudo em áreas de preservação ambiental, e descarga clandestina de esgotos residenciais e industriais, tornam ainda mais desafiadora a expansão do atendimento sanitário em um dos maiores aglomerados urbanos do mundo. Atualmente, de acordo com avaliações do IBGE, a região metropolitana de São Paulo possui aproximadamente 19% de sua população em áreas irregulares”, diz a empresa em nota, antes da divulgação de novos números, pela ONG SOS Mata Atlântica.

Mas a empresa argumenta que a situação do rio já foi muito pior, já que, dentro do Plano Diretor de Esgotos da região, citado pela instituição, houve a execução de ligações domiciliares de esgoto (1,77 milhão) e instalação de interceptores, coletores-tronco e redes coletoras de esgoto (4,4 mil km).

“Pode parecer pouco perceptível visualmente, mas como resultado desse trabalho, a vazão de esgoto tratado nas estações metropolitanas saltou de 4 para os atuais 18,7 mil litros por segundo. Esta diferença de 14,7 mil litros por segundo equivale ao esgoto gerado por aproximadamente dez milhões de pessoas – contingente semelhante à soma da população do Rio de Janeiro e do Distrito Federal. A coleta de esgoto que atendia 70% da área urbanizada da região metropolitana de São Paulo em 1992 saltou para 87% no final de 2018. E o tratamento dos esgotos ampliou de 24% para 70% do volume coletado”, completa a Sabesp.

O sr. Vital tem 81 anos de idade

O sr. Vital tem 81 anos de idade

Divulgação/Vital da Costa

Pelo estudo da SOS Mata Atlântica, divulgado no dia 18 de setembro último, a mancha de poluição no Tietê aumentou 34% em 2019 em relação ao ano anterior. O novo resultado reverte três anos de melhora da qualidade do rio. O trecho poluído passou a ser de 163 km, entre as cidades de Mogi das Cruzes e Cabreúva, passando pela cidade de São Paulo.

O desafio, portanto, ainda não foi alcançado. Ainda há muito a ser feito para se conseguir o que governantes já prometeram: fazer as pessoas voltarem a nadar no rio, o que aumentará a qualidade de vida e as receitas com Turismo na capital. Tietê, em tupi, significa água verdadeira.

É com isso que o sr. Vital sonha. Fazer seus netos desfrutarem do rio como ele um dia conseguiu fazer. E não se ver como o único privilegiado em sua família e na cidade que adotou. Até hoje, quando joga basquete com os veteranos no Esperia, ouve um murmúrio vindo lá do rio, como se fosse um morador de rua pedindo um pouco de atenção.

“Temos que pensar nos nossos jovens, para que eles desfrutem em breve dessa riqueza que é o nosso Rio Tietê e que nossa São Paulo também merece. Como eu sou um caboclo sonhador nascido no sertão, a despoluição do rio está caminhando a passos largos e em uma década nós teremos o nosso rio maravilhoso, não tem mais saída para postergar. A população quer”, diz.

O sr. Vital tem fé em que as coisas melhorem para o velho companheiro. E ele até já sabe o que faria para comemorar o reencontro. Entraria com um barco e, suavemente, daria algumas remadas pelas águas. Seria uma carícia de agradecimento, por tudo o que o velho rio um dia deu a este caboclo, que chegou com tão pouco a São Paulo. E nele aprendeu a remar o curso da sua própria vida. A ideia o emociona.

“Seria um grande prazer, se eu ainda estiver por aqui.”

Arte/R7