É impossível não usar animais na pesquisa de medicamentos, diz coordenador do Concea

Para Marcelo Morales, eliminar os testes representaria risco à população

Invasão de ativistas no Instituto Royal colocou em pauta a discussão sobre testes em animais

Invasão de ativistas no Instituto Royal colocou em pauta a discussão sobre testes em animais

Reprodução/Relatório-Sérgio Greif

Coordenador do Concea (Conselho de Controle de Experimentação Animal), órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, o professor Marcelo Morales afirma ser impossível atualmente abolir o uso de animais em pesquisas de medicamentos. De acordo com ele, há uma série de etapas que precisam ser seguidas, e pular qualquer uma delas pode representar risco à população.

— É impossível [não usar animais]. Não se saberia como esse fármaco funciona e qual a reação do organismo vivo. Juridicamente, nós somos obrigados a fazer os testes de fármacos em animais. Primeiro, fazemos os testes em ratos e camundongos. Não tendo nenhum problema, sabendo a dose, a reação, chegamos ao animal de maior porte com mais segurança. Este medicamento é novamente testado. É feita a dose de segurança, para que não haja nenhum risco para aquele animal. Depois, passamos para a fase de cobaia em seres humanos. Se pulássemos essas etapas, colocaríamos em risco a população.

Morales, que também é secretário da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), destaca que mesmo na fase de cobaias em humanos é preciso cumprir todas as etapas.

— Primeiro, temos a fase com cinco a dez pacientes para saber se aquele fármaco não vai causar nenhuma reação no organismo humano também, porque ele é um pouco diferente do dos animais. Depois, a gente passa para dezenas de seres humanos para saber se aquele fármaco vai  fazer efeito no tratamento para que foi criado. Em seguida, passamos para milhares de pacientes para saber se vai tratar realmente aquela doença. Só depois, ele chega às prateleiras da farmácia.

Jamais foi preciso testar em animais, afirma biólogo que fez vistoria no Instituto Royal

Instituto Royal se defende e afirma que beagles eram "tratados com carinho"

O coordenador do Concea contesta a concepção de que o modelo animal não seria adequado para o ser humano por se tratarem de organismos distintos.

— Isso é uma grande mentira. Não é científico. É achismo. Temos que fazer os testes em animais. Hoje não existe metodologia alternativa que comprove que aquela metodologia pode substituir o animal.

Testes cosméticos

Já em relação aos testes cosméticos, Morales reconhece que há alternativas ao uso de animais.

— Existem métodos alternativos que podem substituir com muita eficiência. Na Europa, por exemplo, foram abolidos os testes com animais. Só que no Brasil, nós não temos acesso às metodologias substitutivas. Uma das mais avançadas no mundo é o teste de irritabilidade de pele, que é um kit de pele humana produzido e comercializado na Europa. É uma metodologia cientificamente comprovada.

Em relação à importação do kit, o cientista aponta como problema o curto prazo de validade, que é de apenas uma semana.

— Imagina, chegar à alfândega, ser liberado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), chegar ao laboratório. Teria só um dia para fazer experimentos. Ou seja, os kits chegam sem validade.

Segundo ele, este teste foi encomendado para que cientistas brasileiros fizessem no País.

— Então, já está sendo feito um estudo da viabilidade desse teste de pele humana no Brasil. Sabe qual é o grande outro problema? Não se pode comercializar derivados de seres humanos no País. Então, existe uma lei proibitiva que isso ocorra. A intenção dessa lei era impedir a comercialização de órgãos. Mas impede a comercialização de pele humana. Como temos que desamarrar esse imbróglio? O Congresso Nacional tem que se debruçar sobre esses assuntos para que juntos, a ciência e o Congresso Nacional, possam desamarrar.

Parecer solicitado pelo MP aponta "condição insalubre" em um dos canis do Instituto Royal

Beagles eram condicionados a receber experimentos, diz relatório

Morales considera que se a questão for discutida, os testes cosméticos com a utilização de animais poderão ser excluídos em breve.

— Se a gente conversar, em tempo muito curto, poderá abolir os testes cosméticos no Brasil, mas com responsabilidade.

Métodos substitutivos

O professor também reconhece que a validação de métodos alternativos no País ainda é incipiente. Em nota divulgada na última quinta-feira (24), a Anvisa afirmou que, mais recentemente, “adotou medidas concretas de incentivo ao desenvolvimento de métodos alternativos àqueles que envolvem testes com animais, como o apoio à criação do Bracvam (Centro Brasileiro de Validação de Métodos Alternativos), ligado ao Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS-Fiocruz), e a Renama (Rede Nacional de Métodos Alternativos)".

Instituído em 2012, o Bracvam tem, entre outros, a prerrogativa de avaliar se o teste pode ser viabilizado no País. O centro envolve diferentes órgãos, incluindo o Concea. Morales admite que é preciso acelerar o processo.

— Ainda está muito no início. Nós precisamos acelerar o processo de validação de métodos alternativos no Brasil, porque esse centro [Bracvam] vai estudar a viabilidade desses métodos alternativos, que são pouquíssimos no mundo. É uma quantidade mínima. Eles levam dez, 15 anos para serem produzidos, mas os que já foram validados em outros países podem ser validados no Brasil.