É um episódio triste que se encerra, diz irmão de Mércia após condenação de vigia

Evandro Bezerra da Silva foi condenado a mais de 18 anos por participação no crime

Márcio Nakashima chega ao julgamento do vigia acusado de participar da morte da irmã
Márcio Nakashima chega ao julgamento do vigia acusado de participar da morte da irmã Marcos Bezerra/Futura Press/Estadão Conteúdo

Evandro Bezerra da Silva, o vigia acusado de participar do assassinato da advogada Mércia Nakashima, foi condenado a mais de 18 anos de prisão. O julgamento terminou no início da noite desta quarta-feira (31) em Guarulhos, na Grande São Paulo. Para os parentes da vítima, como o irmão dela, Márcio Nakashima, é uma página que se vira. 

— Não sei se é o fim de um pesadelo, porque nada traz a Mércia de volta. Isso a gente vai carregar para o resto das nossas vidas. É um episódio muito triste da nossa vida que está encerrando.

A mãe de Mércia, Janete Nakashima também ficou aliviada com a condenação. 

— Eu saí satisfeita, mas pena nenhuma que fosse eu sairia contente. Não tem o que estar comemorando.

Caso Mércia: defesa quer afastar relação de amizade entre vigia e Mizael

Para a juíza Maria Gabriela Riscali, ficou claro que o vigia sabia do plano de Mizael Bispo de assassinar a ex-namorada. Evandro Bezerra da Silva teve um papel fundamental na fuga do patrão quando deu carona para Mizael em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo.  

A pena mínima para o réu era de 12 anos, mas a juíza considerou o meio cruel do assassinato e incapacidade de defesa da vítima. 

Terceiro dia

No último dia de julgamento, a acusação mostrou fotos de Evandro participando de festas durante o período que estava foragido, no Nordeste do País. Para o promotor Rodrigo Mérli foram os registros das ligações no dia da morte de Mércia que convenceram os jurados. Ele saiu do fórum satisfeito com a sentença. 

— Esperava algo em torno de 18 anos por conta do Evandro ter uma qualificadora a menos que o Mizael. Então, em termos de pena, não dava para exigir mais do que isso: 18 anos e 8 meses. 

A pena de Evandro é quase igual a de Mizael, condenado em março a 20 anos de prisão. Na leitura da sentença, a juíza disse que o vigia é frio e mentiroso, e mudou o próprio depoimento duas vezes.

— Demonstrando, com tal postura, além da absoluta indiferença à vida humana que ceifaram, total desprezo aos sentimentos dos familiares da ofendida, que desesperados com o desaparecimento de Mércia, iniciaram uma incansável e incessante procura pela vítima. 

Os advogados de defesa já apresentaram recurso. Eles alegam que foram impedidos de trazer algumas testemunhas para dar depoimento e que há provas de que Mércia estava viva no dia 26 de amior, três dias depois da data em que Evandro buscou Mizael em Nazaré Paulista, como explica Ricardo Ponzetto, advogado do acusado.

— Ela é passível de recurso e, nesse contexto, dois elementos vão ser questionados perante o Tribunal de Justiça.

Após o julgamento, o vigia, agora considerado culpado, voltou para o presídio de Tremembé, no interior do Estado de São Paulo. 

Segundo dia

O segundo dia de julgamento terminou por volta das 20h20 desta terça-feira (30), com o encerramento do interrogatório do réu, que durou cerca de duas horas. Sete testemunhas foram ouvidas: uma de acusação, quatro de defesa e duas do juízo. Márcio Nakashima, irmão da vítima, foi um dos que prestaram depoimento. Ele respondeu a perguntas da juíza e da defesa do vigia. A pedido de Márcio, o réu foi retirado do plenário.

De acordo com o Ministério Público, Evandro Bezerra nega envolvimento na morte de Mércia e sustenta que apenas buscou o policial reformado Mizael Bispo na represa de Nazaré Paulista, no interior de São Paulo, no dia do assassinato da advogada. Foi neste local que bombeiros encontraram o carro e, um dia depois, o corpo de Mércia. A promotoria tentou mostrar aos jurados que o vigia “tinha ciência prévia do que iria acontecer”.

Em março deste ano, Mizael, que era ex-namorado da vítima, foi condenado a 20 anos de prisão pelo crime.

Primeiro dia

Durante quase dez horas, o primeiro dia do júri teve depoimentos, perguntas e discussões. A defesa, que prometia uma bomba capaz de mudar o rumo do julgamento, colocou em dúvida a data da morte de Mércia Nakashima, detalhe que poderia até livrar Evandro Bezerra da Silva das acusações.

Um homem diz ter visto Mizael Bispo e Mércia juntos em 26 de maio de 2010, três dias depois da data em que as investigações apontam que ela foi morta. Mas essa testemunha crucial não apareceu e a defesa tentou adiar os trabalhos. O impasse resultou em quase duas horas de atraso para o início do júri.

Um dos depoimentos foi de um engenheiro de telecomunicações. Eduardo Amato Tolezani explicou como funcionam as antenas de telefonia celular que captaram as ligações entre Evandro e Mizael no dia do assassinato. O técnico falou que esses registros podem ter erros. A informação foi usada pela defesa para tentar enfraquecer a acusação.

Um advogado da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que acompanhou o interrogatório de Evandro, também depôs e falou que não houve violência contra o réu. O vigia alega que confessou ter participado do assassinato após sofrer tortura.

A sessão terminou com desentendimentos entre advogados e o delegado que investigou o assassinato. A defesa questionou Antônio de Olim sobre informações e testemunhas que não foram apuradas e que poderiam ter dado outro rumo para o inquérito.

A juíza chegou a chamar a atenção do delegado, que foi irônico em alguns comentários. Enquanto isso, Evandro não esboçou reação. Apenas escutou os depoimentos. Ele nega ter participado do crime. 

Os parentes de Mércia acompanharam o julgamento. A mãe dela, Janete Nakashima, diz temer que Evandro receba uma pena ainda menor que a de Mizael.

— Vinte anos é ridículo pra quem vai daqui quatro, cinco, seis anos, não sei, ele pode estar na rua e fazendo tudo novamente.