"Ele não vai nos deixar em paz", diz mãe de Bianca Consoli sobre Dota

Marta Consoli está decepcionada e amedrontada após saber da recente absolvição do ex-genro das acusações de estupro dos netos dela

Sandro teve a pena reduzida em quase 79 anos após absolvição por estupros

Sandro teve a pena reduzida em quase 79 anos após absolvição por estupros

Reprodução/Rede Record

Depois de Sandro Dota ter sido absolvido da acusação de estupro dos dois enteados, na época, uma menina de 6 e um menino de 11 anos, a avó das crianças, Marta Maria Ribeiro Consoli, cobra justiça. "É um absurdo. Como que a nossa lei permite que um cara que assassinou e estuprou a minha filha, que tem passado como estuprador, seja inocentado? Estou horrorizada em ver o descaso da justiça com as crianças", afirmou ao R7

Sandro está preso na penitenciária II de Tremembé, no interior de São Paulo, pela morte e estupro da cunhada, a universitária Bianca Consoli, em setembro de 2011. A jovem teve a casa invadida e morreu por asfixia. Ele confessou o assassinato, mas alegou que houve uma discussão e luta corporal entre os dois.

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Pelo crime, ele cumpre 21 anos de prisão e já teve duas reduções de pena. Agora que foi inocentado das acusações de estupro de vulnerável, Sandro deixa de cumprir outros 78 anos e 9 meses de reclusão.

"Ele não vai nos deixar em paz. Quero justiça. Se ele for solto, vamos viver com medo. Ele manda cartas pra mim e pra minha filha com palavras doces e ameaças sutis. A última foi em 20 de outubro. Ele sabe tudo da vida da gente", revelou Marta, mesmo a família tendo mudado de endereço após a morte de Bianca.

A avó teme pela segurança de todos e pela saúde mental dos netos: "A mente deles fica eternamente ferida. Ninguém vai esquecer. A palavra dos meus netos não foram suficiente para provar que ele abusou das crianças. A vítima tem que ter razão. Eles falaram a verdade, deram detalhes, eu acredito em cada vírgula que eles dizem".

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Os abusos teriam ocorrido entre 2009 e 2011 quando Sandro passou a morar com Daiana Consoli, mãe das crianças. Como ela trabalhava o dia todo no salão de beleza, ele, que era motoboy, ficava em casa com os enteados.

Segundo o relato das vítimas, ele entrava no banheiro durante o banho das crianças, alegava que precisava passar sabonete e passava as mãos nos corpos. O mesmo aconteceria no quarto das vítimas.

A menina afirma que tinha 6 anos na primeira vez que foi estuprada pelo réu, em 2009. Ela relatou sofrer ameaças para que não contasse a ninguém: "Por medo, fingia que estava dormindo, mas mesmo assim ele sussurrava em seu ouvido que caso ela gritasse ou contasse os fatos para alguém, ele a mataria e mataria todos de sua família, a começar por sua avó".

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Ela dividia o quarto com o irmão, que confessou, em juízo, ter vivenciado a mesma situação. O garoto relatava a avó que odiava Sandro, mas não dava detalhes. O jovem, hoje com 19 anos, contou que o padrasto usava uma almofada ou travesseiro para sufocá-lo e abafar os gritos durante o abuso. Ele diz ter claustrofobia por causa do trauma.

"Não contava nada para mãe porque tinha medo das ameaças e porque não queria que ela se sentisse culpada", relatou o jovem.

Marta afirma que já desconfiava das atitudes de Sandro que não permitia que os netos ficassem muito tempo com a avó, mas disse não ter provas. "São muitos os sinais, mas é difícil provar. Meu neto ficava nervoso, gritava que odiava o Sandro. As crianças tinham medo dele e obedeciam por causa das ameaças", conta.

Abusos e traumas

Apesar dos abusos, as crianças não contaram nada à família até 2017, quando a garota, já adolescente, se abriu com a mãe. "Ela começou a se cortar nos braços, voltou ao psicólogo. Tinha 13 anos e falou: 'sabe aquelas coisas que homem faz com mulher, ele fazia comigo'. O menino não queria falar", lembra a avó.

Marta conta que o neto não conseguia namorar e só passou a ter um relacionamento sério após a condenação do padrasto pelos estupros. "O Sandro acabou com a minha vida, dos meus netos, da minha família. Quem sofre a violência não tem a justiça do nosso lado. No Brasil, a vítima é a culpada", desabafa.

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Para a mãe de Bianca Consoli, o ex-genro é um psicopata: "Ele manipulava a mente da minha filha, que acreditava que ele a ajudava. Ele parece a melhor pessoa do mundo, mas planeja, te ganha e age por trás".

No julgamento do caso dos abusos, que ocorreu no Fórum da Penha, Marta conta que eles nem tinham advogado e que só souberam da data dois dias antes. Ela garante que, ainda ao deixar o local no camburão, Sandro fez ameaças e intimidações à família: "Tinha umas nove pessoas comigo. Ele mandou um beijo pra minha neta e virou pra minha filha e disse: 'sua linda, eu vou te matar'. Tenho várias testemunhas. Meu neto esmurrava o carro e xingava".

Agora que a família soube da absolvição de Sandro dos estupros, vai procurar um advogado e recorrer da decisão. "É um descaso. Muito difícil lidar com isso. É uma decisão numa canetada. A vida dos meus netos não será nunca mais a mesma. Estamos planejando o que fazer se ele for solto. A gente sabe do que ele é capaz", ressalta.

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Sandro havia sido condenado a 39 anos, 4 meses e 15 dias para cada um dos estupros dos enteados. "Nos delitos de natureza sexual a palavra da ofendida, dada a clandestinidade da infração, assume preponderante importância, por ser a principal se não a única prova de que dispõe a acusação para demonstrar a responsabilidade do acusado", escreveu a magistrada na decisão.

Mas a defesa de Sandro fez uma apelação que foi atendida em favor do réu, alegando que não havia provas dos abusos nem laudos médicos que comprovassem os estupros. Destacou também que o fato teria ocorrido 6 anos antes da formalização da denúncia na delegacia.

"Você acha que ele merece que tirem a condenação de quase 80 anos de prisão?", questiona a avó das vítimas.

Em 21 de julho, Sandro foi absolvido pelo princípio in dubio pro reo (na dúvida interpreta-se em favor do acusado). Ele já até assinou o alvará de soltura por estes  crimes, mas permanece em regime fechado.

Alvará de soltura de Sandro Dota assinado na penitenciária de Tremembé

Alvará de soltura de Sandro Dota assinado na penitenciária de Tremembé

Reprodução