Em São Paulo, o recomeço para mulheres agredidas e venezuelanos

Com histórico de vulnerabilidade, 30 pessoas se formaram no curso de copeiro hospitalar, promovido pela Sodexo, no mês de setembro

O recomeço profissional de mulheres violentadas e venezuelanos em São Paulo

Com blusa listrada, venezuelana Leomaris Leon; ao seu lado, Johneska Canizalez

Com blusa listrada, venezuelana Leomaris Leon; ao seu lado, Johneska Canizalez

Divulgação ACNUR

Recomeço. De acordo com o dicionário Michaelis, significa ato ou efeito de recomeçar, de começar novamente, de reinício. E essa palavra fez sentido para 21 imigrantes venezuelanos e 9 mulheres vítimas de violência nesta terça-feira (1°), data da formatura do grupo no curso de copeiro hospitalar em São Paulo. Tais alunos enfrentaram e ainda enfrentam diversas situações de vulnerabilidade, como emocional, linguística, cultural, física e profissional, mas enxergaram no projeto um novo início para suas vidas.

“Eu fui agredida pelo meu namorado com uma faca no pescoço. Nesse momento, eu disse basta. Estava determinada que era preciso seguir em frente, recomeçar uma nova vida”, lembra a venezuelana Leomaris Leon, de 23 anos. O cenário de hiperinflação na Venezuela também contribuiu para que ela deixasse Maturín, uma cidade com cerca de 300 mil habitantes e a 500 km da capital Caracas, e migrar para Pacaraima (Roraima) em 2017. Em terras brasileiras, a situação não teve um salto de melhora, pelo menos não rapidamente.

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Leon conta que morou, pelo período aproximado de seis meses, em um quarto de 10 m². “A mulher me ofereceu o lugar e em troca eu cuidava do filho dela”, diz. Quando a noite caia na cidade que faz fronteira com a Venezuela, a jovem dormia sob uma colcha. “Eu não tinha dinheiro o suficiente para sobreviver, muito menos para comprar um colchão. Eu tive que fazer escolhas e essa foi uma delas”, argumenta. O destino da venezuelana era cada dia mais incerto. Depois desse semestre, uma família de brasileiros a acolheu. “E até hoje eu tenho muito respeito por eles. É a mãe que eu não tenho aqui no Brasil.”

Passados quase dois anos, neste último maio, a jovem se inscreveu na Operação Acolhida, projeto que realiza o trabalho de interiorização de venezuelanos. Desde o seu início, mais de 12 mil imigrantes já foram interiorizados, a fim de atender a demanda do constante fluxo de refugiados oriundos do país governado por Nicolás Maduro. A ação opera com a atividade de recepção, identificação e acolhimento de estrangeiros que chegam ao Brasil pela fronteira com o Estado de Roraima.

O recomeço de Leon estava prestes a ocorrer. Na capital paulista, conseguiu um abrigo para chamar de casa, onde dividia o espaço com outras refugiadas. “E não durmo em colcha, mas sim num colchão”, diz. No dia 9 de setembro, uma oportunidade. Começou a fazer o curso de copeiro hospitalar, promovido pela Sodexo em parceria com o Senac e International Finance Corporation, braço financeiro do Banco Mundial.

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Durante 10 dias, a venezuelana e outras 29 pessoas aprenderam sobre atuação de copeiro hospitalar, público-atendimento, postura profissional, higiene pessoal e na manipulação dos alimentos, legislações sanitárias, manutenção preventiva, armazenamento de alimentos, pré-preparo de comida, coleta e guarda de amostrar, padrão de dietas hospitalares, dietoterapia e vias de administração das dietas, processos de auditoria e segurança do paciente e no trabalho. O período intenso de aprendizagem se encerrou no dia 20 de setembro. Nesta terça (1°), foi a vez de celebrar a conquista em uma formatura.

A reportagem do R7 acompanhou o evento, realizado na região do Ibirapuera, na zona sul da capital paulista. Sob o avanço do calor na parte da tarde, quando a máxima de 30°C foi registrada, os 30 alunos vibravam todos no círculo de sentimentos de felicidade, aprendizagem, oportunidade e recomeço. “É um novo passo dado na minha vida, na minha trajetória. E o meu maior sonho é ser chef de cozinha, então vejo estou caminhando para isso”, afirma.

Mulheres agredidas e venezuelanos se formam copeiros hospitalares

Mulheres agredidas e venezuelanos se formam copeiros hospitalares

Divulgação ACNUR

Durante a comemoração, uma das venezuelanas esbravejou o poema do chileno Pablo Neruda, pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalt e que recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1971: “eles podem cortar todas as flores, mas não podem parar a primavera”. O som ecoou por toda a sala. Em seguida, palmas e gritos. Sorrisos e abraços.

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De fato, a flor fora cortada de uma mulher pelo, na época, seu companheiro – a reportagem não descreve o nome da vítima a fim de preservar sua identidade. Ela contou em depoimento durante a formatura que foi esfaqueada diversas vezes e um de seus filhos presenciou o momento. Contada na versão de rap, a história fez com outras mulheres chorassem imediatamente. A seguir, trechos da canção:

“20 de julho a história começa
Deitada no quarto dormindo eu sonhava
Passei agora a hora acordar
Mas que coisa, sem saber o que acontecia
Acordei com alguém a me esfaquear
Pensei, gritei e me assustei. Quem seria
Meu Deus, era o meu esposo que me agredia”

Tudo que lá dentro estava, agora era cinzas e nada
Sentada, chorando, desolada, pensei
E agora, Senhor, eu supliquei
Sem tempo a perder, pensei
Levanta, hora da batalha
Batalha será árdua e insana, vou ficar acabada
Mas a minha vida vou reconstruir do nada”

Hoje estou aqui firme e forte e feliz
Estou lutando dia sim
Muitos amigos aqui eu fiz
Amigos legal
Que levantaram a minha moral
E o recado praquele cidadão
Que tentou tirar a minha vida com suas mãos, mas foi em vão
Agora vai amargar alguns anos na prisão
Levantem, acordem, venham para a batalha
Lutem pelas suas vidas, não fique calada
Meu sonho é sonhar e ler no jornal
Feminicídio virou página virada”

Para Andreia Dutra, diretora presidente da Sodexo On-site Brasil, o curso é justificado pelo cenário e situação envoltos nos alunos. “É um projeto de capacitação, tanto para os refugiados quanto para as mulheres violentadas. O que eles precisam, apenas, é de oportunidade”, diz. A diretora expõe, ainda, uma curiosidade da segunda turma do projeto. “E eu vejo um diferencial que é a vontade. Eles têm disposição, desejo, responsabilidade”, diz. Ela classifica o programa dentro da responsabilidade corporativa, um dos quatro pilares da empresa. A ideia e efetiva ação de diversidade no mercado é vista de forma diferente. “Nós fazemos diversidade não porque é mais lucrativo, mas porque é o certo a se fazer.”

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Agora, a empresa diz que irá abrir vagas para os formandos dentro da própria Sodexo e demais instituições. O emprego formal, no entanto, é uma luta que imigrantes enfrentam desde sua chegada ao Brasil. De acordo com uma pesquisa divulgada em março deste ano pela Organização Internacional para as Migrações, da Organização das Nações Unidos, apenas 9% dos venezuelanos que entram por Roraima conseguem um emprego formal nas primeiras semanas após a chegada, antes de seguirem para outros destinos. A agência da ONU revela que, em levantamento feito com mais de 4,1 mil pessoas em 13 municípios do Estado, 59% desses refugiados e migrantes estão sem trabalho. Além disso, um em cada três tem dificuldade em ter o que comer.

Nesta quarta-feira (2), o presidente Jair Bolsonaro (PSL) participou, inclusive, de cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, para assinatura de acordo na nova fase da operação Acolhida, que promove assistência a venezuelanos. Na ocasião, foram assinados dois documentos: um de criação de fundo privado de doações ao programa e outro de protocolo de intenções para incentivar municípios a acolherem refugiados.