São Paulo Em SP, mortes por causas mal definidas subiram 36,6% em um ano

Em SP, mortes por causas mal definidas subiram 36,6% em um ano

Para especialista, motivo vai da má qualificação dos profissionais à falta de atendimento. Número pode influenciar políticas públicas de saúde

Em SP, mortes por causas mal definidas subiram 36,6% em um ano

Número de mortes por causas mal definidas saltou de 1.684 a 2.301

Número de mortes por causas mal definidas saltou de 1.684 a 2.301

Wiki Commons/P.J.L Laurens

Um levantamento da Rede Nossa São Paulo aponta que, em 2018, o número de mortes por causas mal definidas na capital paulista teve um aumento de 36,6% em relação a 2017 – um salto de 1.684 no ano retrasado para 2.301 no passado, segundo dados fornecidos pela Prefeitura ao estudo.

Médico e vice-diretor do SVO (Serviço de Verificação de Óbitos), Luiz Fernando Ferraz da Silva explica a definição desta categoria: “Quando não é possível saber a causa do óbito por falta de acompanhamento médico ou tempo para diagnóstico após a morte”.

Segundo Silva, dois aspectos principais indicam a importância da definição dos óbitos de uma região ou país: populacional e individual.

Sobre o primeiro, o médico afirma que “quando falamos das principais causas de mortes no país, todo esse processo é feito com base nos dados das informações das declarações de óbito. Quanto mais informações temos, mais reais são esses dados. Quanto mais diminuir [número de mortes por causas mal definidas], melhor para a aplicação de políticas públicas”.

O aspecto individual se dá pela genética: “A determinação da causa [de uma morte] pode ser importante para as famílias. A informação não resolve o paciente que morreu, mas pode ser relevante para os filhos desses pacientes, por exemplo. Muitas doenças são avaliadas por aspectos genéticos. Tem um efeito para a saúde do indivíduo. É fundamental ter uma noção exata do motivo da morte de seus familiares”.

Das informações disponíveis pelo SUS (Sistema Único de Saúde), a tipificação “sinaliza a disponibilidade de infra-estrutura assistencial e de condições para o diagnóstico de doenças, bem como a capacitação profissional para preenchimento das declarações de óbito”.

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Como exemplifica o médico, o trabalho do SVO, que em São Paulo está vinculado à USP, é investigar os óbitos de “pacientes que morreram sem assistência e acompanhamento médico, ou aquele que morreu no hospital e esteve internado por pouco tempo”. “Isso já pode ser um problema grande nas regiões metropolitanas do país. Imagine, então, no interior do Brasil. Em muitos desses lugares é maior a incidência [de mortes por causas mal definidas]. Onde não há estrutura, os números são sempre muito maiores”, completa.

Qual é a causa e como corrigir

Para o vice-diretor do SVO paulistano, o acompanhamento médico é o fator de maior influência em aumentos ou diminuições do número de óbitos por causas mal definidas, mas não o único. “Primeiro é a questão estrutural, do acompanhamento. Em segundo, a qualificação dos profissionais. E outro aspecto é a disponibilidade do serviço de verificação de óbitos”, explica ele, que completa:

“Toda vez que um desses três pontos é falho, aumenta a taxa. Quando tudo funciona bem, esse número tende a diminuir.”

A fim de se reduzir o número de mortes por causas mal definidas e melhorar a qualidade das informações nas declarações de óbito, o caminho, segundo Luiz, “deve ser uma estratégia de se abordar todos esses itens de forma multifatorial. Primeiro capacitar os profissionais envolvidos. Dentro do possível, fortalecer a atenção básica de saúde, porque é a porta de entrada do sistema. Esse segmento precisa ser fortalecido”.

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Por fim, prossegue Luiz, “investir recursos no auxílio e determinação das causas de óbito. Deve ser um trabalho em conjunto, um trabalho articulado entre as secretarias municipais e estadual. E também fortalecer os serviços que fazem essa identificação não só em capitais como no interior dos estados”.

Bairros com maior incidência

Brasilândia esteve entre bairros com maior incidência em quase todos os anos da década

Brasilândia esteve entre bairros com maior incidência em quase todos os anos da década

Reprodução Google Maps

Entre os 96 distritos estudados no Mapa da Desigualdade de São Paulo, Brasilândia, Cidade Tiradentes, Sapopemba e Itaquera aparecem com maior incidência de mortes por causas mal nos últimos anos.

O fato de estarem entre os locais mais populosos da capital não é o único fator de influência, já que Grajaú e Jardim Ângela, por exemplo, com 360 mil e 295 mil habitantes, respectivamente, não possuem números tão altos quanto os outros citados. 

Na avaliação de Silva, diferentes fatores podem influenciar para que um bairro tenha uma incidência maior de casos. 

Um aspecto importante, segundo o médico, é se esses bairros são de moradia ou de encaminhamento. “Um paciente pode morar num bairro vizinho a Itaquera, mas quando está com um problema agudo vai para o pronto socorro no hospital mais próximo, em Itaquera, por exemplo... e lá eles constatam o óbito”, exemplifica.

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Há, também, de acordo com ele, “a possibilidade de uma região [ser] mais ou menos assistida por unidades de saúde”, o que implicaria na dificuldade de acompanhamento médico.

Dados não territorializados

Entre as mortes por causas mal definidas na capital paulista em 2017 e 2018, os óbitos não territorializados, ou seja, sem especificação de local, subiram 15% de um ano ao seguinte – 247 a 291.

A reportagem do R7 questionou a Secretaria Municipal de Saúde sobre o aumento nesta subdivisão, sobre a razão para os números altos nos quatro distritos citados e outros pontos. Em nota, a secretaria afirmou que a Prefeitura de São Paulo não comenta pesquisas sobre as quais desconhece a metodologia.