São Paulo Enem na periferia: Estudantes dão 'jeitinho' para ter tempo de estudar

Enem na periferia: Estudantes dão 'jeitinho' para ter tempo de estudar

Uma jovem da Grande SP usa tempo de trajeto da casa ao trabalho para se preparar. Outra, da zona norte, estuda enquanto a filha de 2 anos dorme

Enem 2018

Amanda pretende usar nota do Enem para voltar à faculdade

Amanda pretende usar nota do Enem para voltar à faculdade

Arquivo pessoal

Assistindo vídeos, acompanhando redes sociais de professores e lendo apostilas antigas durante o tempo de viagem entre a casa e o serviço que a atendente de telemarketing Amanda Oliveira, 22 anos, se preparou para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e aguarda o segundo dia de prova, que acontece neste domingo (11).

Ela mora em Jandira, na Grande São Paulo, e faz a prova a cerca de 40 minutos de sua casa usando transporte público, na escola estadual Moacir Thomaz da Silva, no mesmo município. Durante o primeiro dia de exame, no domingo passado (4), ela achou que “a duração da prova e o formato das perguntas com textos longos tornaram o processo mais dificultoso”.

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Do outro lado da região metropolitana, a estudante Nicolly Viana, 17 anos, está fazendo a prova na escola estadual Seminário, no município de Embu-Guaçu, onde mora. Ela tentou se preparar ao longo do ano, inclusive participando de um cursinho semanal gratuito. Mas na hora da prova, teve a mesma dificuldade que a Amanda: “os contextos eram confusos, tinha que ler mais de uma vez para ver se entendia algo”.

O Enem deste ano é o terceiro de Letícia Cristina Nogueira de Oliveira, 22 anos, mas ela engrossa o coro quando relata sobre as dificuldades da prova. Segundo ela, “depois que deixaram humanas, linguagens e redação para um dia e natureza e exatas para outro, ficou um pouco cansativo”.

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Letícia afirma que “mesmo com o tempo contra”, conseguiu ir bem na primeira prova. Ela acredita que uma nota boa dela é uma comprovação da superação dos obstáculos. “Estou tendo mais dificuldade agora, porque tive a minha filha, tenho que cuidar dela e, apesar de não estar trabalhando agora, tenho meus deveres em casa, com os estudos e como mãe também”, disse.

A jovem mora no Jaraguá, na zona norte de São Paulo, e está fazendo a prova no Centro Universitário UniSant’Anna, a cerca de uma hora e meia de trem. A casa dela era perto da unidade onde está fazendo o Enem, mas precisou se mudar recentemente, depois que se casou e teve uma filha — que hoje tem dois anos.

Outro método de estudo para quem precisa trabalhar e vai faz o Enem é o adotado por Amanda. Ela afirma que usa o trajeto dentro do ônibus, na ida de casa ao serviço, para acompanhar páginas de professores no Twitter e ver vídeo-aulas no YouTube, além de ler apostilas de ensino superior que tem guardadas.

Quando saiu do ensino médio, em 2012, Amanda começou o curso de Letras em uma faculdade privada. Mas teve que parar dois anos depois, por causa que não conseguia pagar o valor da mensalidade. A história é bem parecida com a de Letícia, que iniciou o mesmo curso, pararam e pretendem usar a nota do Enem para voltar em universidade pública.

A estudante Nicolly, que está no 3º ano do ensino médio, afirma que pretende usar a nota do Enem para cursar Fisioterapia. Para a prova deste domingo, ela disse que está menos tensa porque “na primeira que estava com mais medo”.

As expectativas de Letícia já não são as melhores para o segundo dia de prova, por ter “déficit em exatas”. Mas ela segue estudando enquanto consegue, entre o sono da filha e uma tarefa de casa finalizada, porque “para quem não nasceu com privilégios precisa se virar para trabalhar e estudar, sem ter ninguém para bancar enquanto só estuda”.