Esse é o novo clima de São Paulo, diz cientista sobre chuva intensa

Chuvas com alto volume de água em poucas horas são fenômenos que estão se tornando comuns e as cidades precisam se preparar para enfrentá-las

Carros boiando em alagamento na Marginal Tietê, na altura da Ponte do Limão

Carros boiando em alagamento na Marginal Tietê, na altura da Ponte do Limão

WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO - 10/02/2020

As chuvas que pararam São Paulo na segunda-feira (10) não são mais um fenômeno raro e sim fazem parte do novo clima da cidade. A afirmação é do cientista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), doutor em Meteorologia pelo MIT (Massachussets Institute of Technology) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

Ele explica que a chuva intensa que já está ocorrendo e que vai ocorrer até com mais frequência é o "novo normal". Entre algumas das soluções para minimizar os riscos, ele cita o aumento das áreas verdes para permeabilizar o solo e reter mais a água, incentivos fiscais para que a população tenha reservatórios em casa e reflorestamento dos topos de morro.

"Mas não é só se preocupar quando o próximo fenômeno acontecer. Tem que ter um planejamento de médio a longo prazo para nos adaptarmos a esse clima, que já é o clima da realidade do brasileiro", afirma. Leia a seguir os principais trechos da entrevista: 

Como o senhor avalia o impacto das chuvas da última segunda-feira (10) em São Paulo? 

Esse tipo de chuva com alto volume de água em poucas horas, cerca de 150 mm em 24 horas, é um fenômemo raro, porém está ficando cada vez mais frequente. Se a gente olhar a década de 1940, São Paulo tinha episódios de chuva acima de 100 mm em 24 horas uma vez por década. Nos último anos, nós estamos tendo uma média de chuva dessa intensidade uma vez por ano e, em alguns anos, até mais de uma vez. Então esses fenômenos de chuvas muito intensas estão se tornando muito comuns em São Paulo.

 

O que contribui para intensificar os efeitos?

Depende de onde o núcleo maior da chuva ocorre, se por exemplo a chuva ocorre na cabeceira dos rios que confluem para os rios Tietê e Pinheiros, como foi o caso na segunda-feira, naturalmente esses rios transbordam e causam alagamento, interrupções de rodovias, avenidas, estradas etc. É um fenômeno que nós temos observado com muito mais frequência nos últimos anos, comparado ao que ocorria há muito tempo atrás, antes dos impactos das mudanças climáticas.

Como a cidade deve ser preparar para isso?

Primeiro lugar, tem que partir do princípio que isso vai se tornar o clima normal, chuvas intensas já estão ocorrendo e vão ocorrer até com mais frequência no futuro, enquanto nós não controlarmos o aquecimento global. Enquanto também a cidade de São Paulo é uma bolha quente em relação à sua vizinhança, que nós meteorologistas chamamos de ilha urbana de calor. A cidade é muito mais quente que a periferia, na ordem de até 3 graus mais quente, e essa temperatura, essa ilha urbana de calor, também faz que as chuvas caiam em maior volume. São Paulo tem a combinação perversa de ilha urbana de calor e também a mudança climática do aquecimento global.

Por exemplo, quando uma frente fria entra naturalmente provoca chuva. Com oceano mais quente, evapora mais água e os ventos trazem esse vapor d’água para dentro do continente, alimentando ainda mais a intensidade da chuva. Então, essa combinação entre fatores é muito ocasionada pelo aquecimento global.
Isso é o clima do presente e pode piorar no futuro, se nós não conseguirmos controlar o aquecimento global, se não tivermos sucesso no atendimento às metas do acordo de Paris.

O que precisa ser feito?

Nós temos de partir do seguinte pressuposto: esse é o clima, não adianta imaginar que é um fenômeno muito raro que acontece uma vez a cada 50 anos. Não, esse é o clima. Tem que se preparar para todos os anos ter um ou dois episódios dessa natureza. O que precisa ser feito não é só resolvido com obras e engenharia, o que nós precisamos fazer é diminuir a impermeabilidade da cidade São Paulo. A chuva que cai em alto volume nesses episódios tem que ir para o solo, tem que penetrar no solo, ela não tem que correr rapidamente para bueiros, riachos, para os rios e aí causar inundações com da segunda-feira.

Pista expressa alagada na Marginal Tietê, na altura da Ponte Cruzeiro do Sul

Pista expressa alagada na Marginal Tietê, na altura da Ponte Cruzeiro do Sul

NILTON FUKUDA/ESTADÃO CONTEÚDO - 10/02/2020

Quais as soluções?

Tem várias soluções e uma delas, a mais mais natural, é aumentar as áreas verdes da cidade, áreas com solo para absorver, reter e segurar a água, para ela não correr rapidamente para os rios. A outra é asfaltar a rua com asfalto permeável, que permite a uma parte da chuva penetrar e chegar ao solo. Isso também serve para as calçadas. E também tem as chamadas piscininhas, que são reservatórios que as pessoas podem ter em casa, que coletam água da chuva dos telhados, e armazenam essa água no tanque, não permitindo que chegue nas ruas e galerias pluviais rapidamente. Uma cidade gigantesca como são Paulo e a Região Metropolitana, com 39 municípios, deveriam ter uma política muito ampla com redução de impostos para quem implementar esse tipo de medida. Fazendo isso em toda cidade de São Paulo, aí sim essa intensidade de chuva não causará no futuro os problemas que nós vimos na segunda-feira.

Morador atravessa área inundada na zona oeste de SP

Morador atravessa área inundada na zona oeste de SP

Rahel Patrasso/Reuters- 10/02/2020

O que as pessoas podem fazer para minimizar os problemas?

Primeiro lugar, cidadão comum deve ficar muito atendo aos meios de comunicação, rádio, TVs, institutos que monitoram o clima. O Brasil avançou muito na ciência que prevê quando vai ocorrer desastres naturais, e passa essa informação para a Defesa Civil. Então a população deve estar muito antenada nesses alertas para evitar riscos, ir a um local seco, para evitar enxurradas, iniundação e deslizamento em encostas. Muita atenção nos meios de comuniação e avisos pela internet e celular.

E as áreas de risco?

A outra coisa mais a médio prazo e muito importante é reduzir as áreas de risco de todas as cidade brasileiras. Nós temos mais de 15 milhões de brasileiros vivendo em áreas que podem sofrer desastres naturais. Entre eles, 2,5 milhões vivem em áras com grandes rsicos, em encostas desmatadas, com alto potencial de  deslizamento, margens de rios muitas vezes ocupados irregularmente, com também alto risco de inundações.

Então tem de haver uma política de médio e longo prazo de redução de risco. É complexo porque simplemente retirar as pessoas gera uma série de outros problemas. Mas há alguma soluções baseadas na natureza. Que não chegam a ser baratas, mas funcionam bem. Como por exemplo restauração florestal dos topos de morros. A grande maioria dos deslizamentos de encostas se inicia no topo do morro desmatado. Se restaurar a vegetação do topo de morro, reduz muito o risco de uma chuva intensa começar um deslizamento na encosta. A vegetação segura a áqua e não deixa começar a fazer os canais, provocando enxurrada, que vai levando tudo abaixo. Essa é uma ideia relativamente  simples, barata e que vai reduzir os riscos de deslizamento.

Alagamento na Avenida Gastão Vidigal, Vila Leopoldina

Alagamento na Avenida Gastão Vidigal, Vila Leopoldina

WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO - 10/02/2020

Qual o alerta que fica para a população e governos?

Eu acho importante que o que nós vimos na segunda-feira não é um fenômeno raro. Esse é o clima da cidade de São Paulo, esse é o clima do Sudeste, que agora temos que nos adaptar. Não é um fenômeno raro. Quando uma liderança política diz que é uma chuva muito rara, que não estamos preparados, não é verdade. Nós não estamos preparados porque nós não assumimos que as mudanças climáticas iriam intensificar esses fenômenos. Isso é um erro de lideranças políticas por décadas. Esse é o novo clima, é o clima que temos conviver. E só vai piorar, se nós não controlarmos o aquecimento global.

Então, a adaptação é buscar alternativas, tornar a cidade mais resiliente. Temos que partir do princípio que esse é o clima. Não é só se preocupar quando o próximo fenômeno acontecer. Tem que ter um planejamento de médio a longo prazo para nos adaptarmos a esse clima, que já é o clima da realidade do brasileiro.