Falha de manutenção causou acidente de Boechat, diz FAB

Relatório mostra que a aeronave tinha componentes com problemas e decisões do piloto contribuíram para a queda do  helicóptero, em SP

Queda de helicóptero, em 2019, provocou a morte do jornalista e do piloto

Queda de helicóptero, em 2019, provocou a morte do jornalista e do piloto

Marcelo Gonçalves/Estadão Conteúdo

Um relatório elaborado pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), órgão ligado à FAB (Força Aérea Brasileira), determinou que o a queda do helicóptero que matou o jornalista Ricardo Boechat, de 66 anos, e o piloto Ronaldo Quattrucci, de 56, ocorreu em razão de falhas de manutenção da aeronave. 

De acordo com o documento, o acidente com o modelo 206B, prefixo PT-HPG, fabricado pela Bell Helicopter, em 1975, que caiu na Via Anhanguera, próximo ao entroncamento com o Rodoanel, em São Paulo, no dia 11 de fevereiro de 2019 e bateu na parte dianteira de um caminhão — foi motivado por uma série de falhas mecânicas.

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O relatório apontou, entre outras conclusões, que não foi apresentado e nem foi encontrado qualquer registro de revisão geral no módulo de compressor desde julho de 1988. A aeronave foi considerada "não aeronavegável" após passar por vistoria técnica especial (VTE).

Croqui do local da queda do helicópetro, em SP

Croqui do local da queda do helicópetro, em SP

Reprodução/Cenipa

A ação do piloto também contribuiu para a queda, segundo os investigadores, pois houve uma atitude de inobservância de procedimentos importantes para a decisão de realizar um voo com segurança. Também houve uma avaliação inadequada durante a execução da manobra de autorrotação e pouso, decisão que contribuiu para o desfecho da ocorrência.

O Cenipa avaliou que os fatores contribuintes para o desastre foram os seguintes:

— Aplicação dos comandos (indeterminado): Pode ter ocorrido uma inadequação no uso dos comandos, o que pode ter propiciado que a aeronave não atingisse a área escolhida durante a autorrotação, culminando com a tentativa de pouso no local onde ocorreu o sinistro;

— Atitude (contribuiu): A condução, por parte do operador, das ações de manutenção demonstrou que houve uma atitude de inobservância de procedimentos importantes para a decisão de realizar um voo com segurança.
Além disso, o piloto desconsiderou os termos descritos no RBAC 135 relacionados à modalidade de táxi-aéreo, segundo os quais ele não poderia assumir esse tipo de voo;

— Cultura organizacional (contribuiu): As condutas apresentadas na empresa referentes ao emprego da aeronave, bem como à manutenção, refletiram falhas na cultura da organização no tocante à segurança operacional, uma vez que foi possível observar um conjunto de práticas adotadas que gerava riscos inaceitáveis para a execução da atividade;

— Indisciplina de voo (contribuiu): O piloto-proprietário da RQ Serviços Aéreos Especializados Ltda. realizou um voo que extrapolava os limites da autorização operacional do operador e para o qual não era qualificado. Além disso, o piloto-proprietário operou a aeronave com o TBO do módulo do compressor do motor vencido, o que a tornava não aeronavegável;

— Julgamento de pilotagem (contribuiu): Houve inadequada avaliação, por parte do piloto, dos parâmetros relacionados à operação da aeronave durante a execução da manobra de autorrotação e pouso, o que contribuiu para o desfecho da ocorrência;

— Manutenção da aeronave (contribuiu): A reinstalação do módulo do compressor com o TBO vencido, bem como a posterior liberação da aeronave para retorno ao serviço, denotou inadequação dos procedimentos de manutenção realizados pela OM. A inobservância do cumprimento do programa de manutenção, particularmente em relação ao intervalo calendárico para a troca de óleo do motor e à reinstalação do módulo do compressor com o TBO vencido, demonstrou a não aderência do operador, o qual é o responsável primário pela manutenção, em relação aos requisitos de Aeronavegabilidade Continuada, o que contribuiu para o acidente em tela;

— Motivação (indeterminado): O retorno financeiro que o voo traria para a empresa, numa época de escassez de voos contratados, pode ter motivado o piloto-proprietário a assumi-lo, mesmo esta não estando certificada para tal.

— Processo decisório (contribuiu): As condições operacionais em que o voo foi realizado demonstraram que não houve uma análise crítica de todo o cenário envolvido, observando os possíveis riscos e consequências inerentes à decisão de executá-lo;

— Processos organizacionais (contribuiu): Houve uma ineficiência, tanto por parte do operador, quanto da organização de manutenção, no acompanhamento e na execução dos processos de manutenção. Era de conhecimento do operador o fato de que instalar o módulo do compressor sem a realização do overhaul, bem como exceder os intervalos de troca de óleo, contrariava o programa de manutenção previsto para o motor da aeronave, tornando-a, portanto, "não aeronavegável". Do mesmo modo, o fato de a OM aprovar o retorno ao serviço da aeronave sem a comprovação da realização do overhaul do modulo do compressor contrariava o programa de manutenção previsto para o motor da aeronave, posto que o helicóptero estaria "não aeronavegável".