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Fechamento de pronto socorro de 6 hospitais de SP gera protestos

Decisão do governo do estado vale a partir de 1º fevereiro e deve levar 90 dias até que as unidades não sejam mais portas abertas

Joyce Ribeiro, do R7
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Após anúncio de fechamento do pronto atendimento de hospitais estaduais, houve protesto
Reprodução

A população atendida em quatro hospitais estaduais da cidade de São Paulo e outros dois hospitais de Guarulhos e Taboão da Serra, na Grande São Paulo, foi surpreendida com o anúncio feito pelo governo do estado de fechamento do pronto atendimento nas unidades. A mudança gerou protestos na tentativa de que os hospitais permaneçam com as portas abertas aos moradores.

Desde o dia 1º de fevereiro, os pacientes que vão espontaneamente ao Hospital Geral do Itaim Paulista e ao Vila Alpina, na zona leste da capital, ou ao Pedreira e ao Grajaú, na zona sul, são dispensados e orientados a procurar outras unidades. 

A recomendação do estado é a mesma no Hospital Geral de Pirajussara, em Taboão da Serra, e no Hospital Geral de Guarulhos, na região metropolitana.

Danielle Lima está com 35 semanas de gestação, é diabética, hipertensa e tem uma gravidez de risco. A recomendação da UBS (Unidade Básica de Saúde) Dr. Júlio de Gouveia, onde faz o pré-Natal, é que seja internada para acompanhamento ao completar 37 semanas.

Mesmo com o encaminhamento médico em mãos, ela foi dispensada no hospital do Itaim Paulista, onde deveria ser acolhida, e foi orientada a procurar uma AMA (Assistência Médica Ambulatorial) ou UPA (Unidade de Pronto Atendimento), que não são especializadas em parto.

Daniele recebeu uma lista com nomes e endereços de AMA e UPA
Reprodução

Ela tem os exames como ultrassom e cardiotocografia pendentes. Danielle precisa de uma maternidade para o bebê nascer até o dia 14 e, na rua de trás da casa dela, fica o Hospital Santa Marcelina do Itaim. "Eles falaram que não tavam mais atendendo pronto socorro, que só tavam atendendo por conta de covid ou se eu já tivesse chegando tipo parindo. Como não era o caso, eles não podiam fazer nem uma avaliação e me atender. Espero que o atendimento no hospital volte ao normal. Se não, vou ter que ver qual é o outro hospital mais próximo que eu consiga fazer o parto", revela.

Claudia Maria Afonso de Castro é conselheira e integrante do Movimento Popular de Saúde da Zona Leste. Ela afirma que a decisão de fechar o pronto atendimento não foi discutida com a sociedade e que a unidade do Itaim Paulista é referência para cerca de 800 mil moradores dos distritos Itaim, Curuçá e parte do Jardim Helena, sem contar as cidades vizinhas: Itaquaquecetuba e Ferraz de Vasconcelos.

"De repente, as pessoas perdem dois hospitais na zona leste. No Itaim, este é o único hospital no território. Aqui nem UPA tem. Não saiu do papel, mas estava prevista no orçamento do ano passado. Em outros locais construíram uma UPA para o pré-atendimento. O SUS é pra todos, em qualquer lugar. Não dá para controlar o fluxo de pacientes de outras cidades. Muitos vão à pé pela proximidade", diz a conselheira. 

Para Claudia de Castro, não houve planejamento antes da tomada de decisão: "Até o conselho do Estado questionou a implementação sem controle social. O trabalho é sempre em rede, mas não houve um combinado. A decisão arbitrária foi tomada e quem paga o preço da redução do custo de um serviço é a população que deixa de ser atendida e tem que procurar outro lugar".

Na zona sul, cartazes alertando a população sobre a mudança no atendimento foram colocados nos hospitais.

Protestos ocorrem porque a população mais pobre será a mais prejudicada pelas mudanças
Divulgação

Restrições no atendimento

Segundo o governo do estado, as alterações no funcionamento das quatro unidades de São Paulo "objetiva priorizar o atendimento a casos graves e gravíssimos nos hospitais mais capacitados e equipados. A partir do dia 1º de fevereiro, este processo se inicia de forma gradativa e ocorrerá no decorrer de 90 dias".

A previsão, no entanto, era de que, no período, os hospitais estaduais atendessem os pacientes com quadros mais leves, mas já orientando as pessoas sobre a mudança de fluxo. 

Mas, na prática, os pacientes que não estão em emergências médicas são dispensados e recebem uma lista com outras unidades de saúde. Sandro foi ao hospital do Itaim na terça-feira (2) com cólica renal depois de já ter procurado atendimento em um posto de saúde. "Aqui é só emergência, disseram. Mediram a pressão, mas não fui avaliado, mandaram voltar pra onde fui. Agora vou ter que procurar outro hospital pra ir porque a dor continua", conta. 

Euclides Kiko Mendes é líder comunitário na região da Vila Itaim. Segundo ele, é preciso protestar, como fizeram na quarta-feira (3), para tentar mudar a decisão do estado. "O governo quer reduzir em mais ou menos 13% o repasse ao Hospital Santa Marcelina do Itaim. O Pronto Socorro atende mais de 10.000 pessoas ao mês. Só em 2020 o hospital foi responsável por 3.500 partos e por mais de 4.000 casos de covid-19. Na unidade trabalham 1.500 funcionários e 10% do quadro pode ser demitido", revela.

Assim como Claudia, Kiko acredita que haverá sobrecarga na rede: "Não dá para o estado achar que a prefeitura vai absorver essa demanda sem uma UPA. Vamos sofrer se isso acontecer".

O outro lado

Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que realiza encontros semanais com o Governo do Estado para acompanhar a mudança no atendimento dos quatro hospitais estaduais "visando manter a qualidade dos atendimentos nos equipamentos de saúde da rede municipal". O acompanhamento tem duração prevista de três meses. E completou: "A Secretaria realiza o monitoramento diário para acompanhar o aumento na demanda e o impacto, para assim, discutir soluções nas reuniões com o Estado".

A Secretaria Municipal de Saúde garantiu que os hospitais e unidades do município seguem atendendo normalmente e citou que, apenas no dia 1º, foram realizados 10.207 atendimentos nas 15 UPAs, nove Prontos Socorros Municipais e quatro PA (Prontos Atendimentos) Municipais. No dia 2, foram outros 12 mil atendimentos nas seis coordenadorias regionais de saúde. 

Já a Secretaria de Estado da Saúde afirmou que a decisão foi tomada em conjunto com a prefeitura "para dar início ao processo de orientação à população para o redirecionamento da demanda dos Prontos Socorros estaduais citados pela reportagem aos serviços da rede de saúde municipal".

O governo destacou também que "simultaneamente, a saúde municipal organiza sua rede para incorporar a demanda e um grupo técnico com representantes das duas secretarias avalia o andamento das ações e define medidas de apoio para condução desta iniciativa".

A Secretaria Estadual de Saúde ressaltou ainda que "mantém uma estratégia especial de gestão de leitos hospitalares para dar prioridade à internação de pacientes com quadros respiratórios agudos e graves, com suporte da Cross (Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde), sistema online que verifica vagas disponíveis em hospitais do SUS em SP, para as transferências".

A pasta enfatizou que eventuais transferências inter-hospitalares ou intermunicipais de pacientes serão feitas se houver necessidade.

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