Fechar o vão do Masp é um "absurdo total", diz diretora do Defenda São Paulo

Arquiteta, porém, acha plausível a hipótese de oferecer proteção ao museu em caso de perigo

Possibilidade de cercar o vão do Masp causa polêmica

Possibilidade de cercar o vão do Masp causa polêmica

Divulgação/Masp

Um movimento surgido na internet defende o “acesso irrestrito de todo e qualquer cidadão” a um dos pontos mais emblemáticos da cidade de São Paulo: o vão do Masp (Museu de Arte de São Paulo). A mobilização, feita a partir da comunidade “No meu vão ninguém mete a mão”, criada no último dia 22 no Facebook, contava com quase 11 mil adesões até o fim da tarde de sexta-feira (29).

A discussão sobre a possibilidade de cercar o lugar começou a ser levantada após editorial publicado neste mês no jornal O Estado de São Paulo. Um dos argumentos é de que usuários de drogas, traficantes e moradores de rua estariam tomando conta do lugar.

O R7 conversou com a arquiteta e urbanista Lucila Lacreta, diretora-executiva do Movimento Defenda São Paulo. Lucila, que sugeriu a atribuição de Esplanada Lina Bo Bardi — autora do projeto arquitetônico do museu — para o vão do Masp, considera um “absurdo total” a ideia.

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A arquiteta, entretanto, acha plausível a hipótese de oferecer proteção à instituição em situações em que ela esteja exposta a riscos.

— Acho que só se justifica o fechamento em situações limites, para a proteção do acervo cultural e artístico que há ali. Então, diante do perigo que corre o patrimônio mundial, aí, sim, você tem um tipo de fechamento temporário enquanto perdurar o perigo. Acabou, volta tudo ao normal. E é isso que é bacana, o espaço aberto.

Na avaliação dela, a grande questão é como conciliar a proteção ao prédio e o direito da população de ocupar a área.

— Não tem problema nenhum que as pessoas marquem seus encontros ali e que seja um local de protesto e que saiam dali para fazer sua passeata. Mas há horas que passa dos limites [...] Neste aspecto, em determinadas circunstâncias, em momento de conflito, acho que deveria haver um limite. Agora, como garantir as duas coisas, que as pessoas continuem também utilizando aquele lugar?

Lucila completa enfatizando que a comunidade elegeu o local como um símbolo.

— Não adianta transferir a passeata para outro lugar, porque não cola [...] O local de identificação é aquele. Agora, como se limita o uso de uma situação tão personalizada?

Vista para todos

A diretora-executiva do Movimento Defenda São Paulo não descarta a hipótese de que haja ilegalidade no ato de cercar permanentemente o vão do Masp. Ela explica que a família proprietária do terreno, no momento da doação, colocou como condição que a comunidade tivesse acesso à vista do lugar.

— A família que fez a doação do terreno pôs uma cláusula de que aquele belvedere deveria ser preservado para todo sempre. Então, a Lina Bo Bardi fez o museu suspenso nas colunas e aquele vão livre, porque a família doadora exigiu que o belvedere, que aquela vista fosse mantida para o usufruto da população. É um dos poucos lugares que se tem uma vista mais ampla da cidade [...] Mas o importante disso é que alguém previu que a vista bonita daquele local deveria ser preservada para as futuras gerações. E ela [Lina Bo Bardi] respeitou isso.

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Sobre o fato de o espaço ser ocupado eventualmente por moradores de rua, Lucila Lacreta entende que se trata de uma questão social, que não justificaria o gradeamento da esplanada.

— Qualquer lugar coberto na cidade de São Paulo é abrigo para morador de rua de tão grande que é a população. Aí, é uma outra questão que tem que ser resolvida de outra maneira, com assistência a esse grupo de pessoas. Agora, não por causa disso deve fechar o vão do Masp.

Segundo a assessoria de imprensa de comunicação do museu, não há qualquer discussão no sentido de limitar o acesso ao local. Ainda conforme a assessoria, a hipótese chegou a ser aventada em 2007, ocasião em que quadros foram furtados da instituição, mas foi rechaçada.

Por meio de nota, informa que "ao contrário do adotado em diversas praças e parques da cidade, os espaços do Vão Livre permanecem abertos durante 24 horas todos os dias e têm sido acessados por pessoas que ali promovem atos de vandalismo, atentados à moral e o uso do local de forma indevida”. Acrescenta que a “segurança e controle de atividades ou atos ilícitos no Vão Livre — como em qualquer outra área pública da cidade — cabem única e exclusivamente ao Poder Público, através da Policia Militar, da Guarda Civil Metropolitana e até mesmo, em casos especiais, da Polícia Federal”.

Por fim, enfatiza que o “MASP tem todo o interesse em valorizar o Vão Livre como um local seguro e de continuar colaborando com instituições e entidades de governo, no sentido de garantir sua preservação como um espaço plural e aberto à convivência pacífica e harmoniosa dos cidadãos".