São Paulo "Finco bandeira no centro e aguento porrada dos dois lados", diz Covas

"Finco bandeira no centro e aguento porrada dos dois lados", diz Covas

Bruno Covas completa, neste domingo (7), um ano à frente da Prefeitura de São Paulo. Pior momento, diz ele, foi queda do edifício no Largo do Paissandu

Bruno Covas

Bruno Covas completa, neste domingo (7), um ano como prefeito de São Paulo

Bruno Covas completa, neste domingo (7), um ano como prefeito de São Paulo

Edu Garcia / R7 / 26.03.2019

O prefeito Bruno Covas (PSDB) completa, neste domingo (7), um ano à frente da Prefeitura de São Paulo, a maior cidade do país, com 12 milhões de habitantes. Durante a gestão, enfrentou crises como prédio que ruiu e deixou mortos, pontes e viadutos com estruturas danificadas e chuvas com vítimas fatais, entre outros acontecimentos trágicos.

O pior momento, contou o tucano em entrevista exclusiva ao R7, foi a queda do edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, em 1° de maio de 2018 — assista ao vídeo abaixo. “Pela situação que já vivem aquelas famílias, muitas vezes extorquidas para morar em um lugar irregular. Muitas vieram a falecer porque a porta estava trancada”, argumentou.

Covas acredita que sua gestão e a de João Doria, atual governador do Estado de São Paulo, é uma só, uma vez que “falam do mesmo compromisso para com a população”. No entanto, presenciou a saída de diversos nomes das secretarias municipais, empregados por Doria, que optaram acompanhar o ritmo no Palácio dos Bandeirantes, casa deste último. 

O prefeito continua com pautas como a privatização, mas ao mesmo tempo bate o martelo em questões mais progressistas – o que pode ser interpretado como uma opção mais moderada para a eleição municipal marcada para o próximo ano. “Eu finco a bandeira no centro e aguento a porrada dos dois lados”, afirmou Covas sobre a polarização política que o país enfrenta. A reeleição, segundo ele, será uma consequência.

Confira, a seguir, a entrevista exclusiva dada à reportagem do R7:

R7: A última eleição trouxe uma polarização política sem precedentes em todo o Brasil. Meses antes, o senhor assumiu a Prefeitura da maior cidade do país. Como governar? Qual é a prioridade de Bruno Covas?

Covas: São duas preocupações distintas. Primeiro, preocupação política. Acho que a polarização não ajuda o país. Dividir entre brancos e negros, homens e mulheres, héteros e homossexuais, evangélicos e católicos, norte e sul, ninguém ganha com esse tipo de divisão. É uma discussão que não contribui para o Brasil. E do ponto de vista político, essa divisão, embora acentuada, eu não me sinto representado por nenhum dos dois extremos, então é fincar a bandeira no centro, e aguentar levar porrada, às vezes, dos dois lados, porque tenho posições mais moderadas. Mas isso não se traduz em mudança do dia-a-dia da administração. A preocupação do cidadão, por exemplo, é limpeza de rua. Não há limpeza de rua de direita e limpeza de rua de esquerda. Você tem a limpeza de rua. A primeira é uma preocupação como cidadão, e em relação a polarização é manter coerência com o que eu acho, com o que eu acho que é correto. A outra, como gestor, é cuidar da cidade e acho que esses dois mundos não estão interferindo um no outro.

R7: No início do mês de março, duas pessoas morreram em decorrência da chuva na capital paulista. O senhor disse, na ocasião, que “não foi por falta de prevenção”. No entanto, o TCM (Tribunal de Contas do Município) apontou que teve redução de 25% nos gastos com sistema de drenagem. Por que São Paulo sempre para com a chuva? O que ainda deve ser feito?

Covas: A prevenção é a limpeza das atuais galerias e piscinões. Essa prevenção foi feita na mesma quantidade que ela sempre foi feita. O que não conseguimos avançar foi no investimento em São Paulo, que é a construção de novos piscinões. Entregamos três e entregaremos mais cinco até o fim da gestão. São oito, ainda assim, é quatro vezes maior que a gestão anterior. É um investimento que é comprometido com a explosão de custeio da saúde, subsídio do ônibus, previdência municipal. Essa é a dificuldade de ter que fazer a lição de casa. Às vezes, tomar uma medida impopular para poder ter recursos para investimento. Não tem a menor dúvida que o que resolve, no médio e longo prazo, é exatamente o plano de macrodrenagem, com mais piscinões na cidade. Então uma coisa é a manutenção que é feita sempre e a outra é esse investimento em piscinões.

"Finco a bandeira no centro", diz Covas sobre polarização política nacional

"Finco a bandeira no centro", diz Covas sobre polarização política nacional

Edu Garcia / R7 / 26.03.2019

R7: Também na época, o governador João Doria recomendou que as pessoas ficassem em casa durante os temporais. Essa é uma recomendação também da prefeitura?

Covas: A gente tem aqui uma equipe que é montada ainda lá para setembro, antes do início do período de chuvas, que é a equipe que dá resposta na área de resiliência da cidade. Aí, esta equipe, ponto a ponto, vai recomendando o que for necessário para aquele bairro, para aquela localidade específica. Enfim, a gente vai monitorando o dia a dia. Então essa é uma recomendação que às vezes vale a pena, outras não. 

Bruno Covas deixa política de lado e fala sobre a vida pessoal. Assista:

R7: Mudanças no Bilhete Único, modalidade vale-transporte. Especialistas apontam que a regra pode afetar a contratação de empregos, além de o fato de que usuários já se sentem prejudicados. O órgão analisou esse ponto de vista?

Covas: Não dá para a gente continuar num país que quer privatizar lucro e socializar o custo. Esse é um custo do patrão, e não da Prefeitura de São Paulo. Esse é um custo que afeta algo em torno de 120 mil dos 9 milhões de passageiros/dia que nós temos, e que não tem sentido a prefeitura colocar R$ 412 milhões por ano para pagar uma obrigação das empresas. Então é um pouco fazer justiça. O recurso público serve para bancar por exemplo as isenções que o próprio governo quer dar, como não cobrar do estudante ou não cobrar do idoso. Você também tem que utilizar recurso público para fechar essa conta. Agora não tem sentido utilizar recurso público para pagar uma obrigação das empresas.

R7: Recentemente, a sua gestão anunciou a criação do Parque Minhocão. Quando as pessoas poderão usufruir do serviço?

Covas: A gente estipula inaugurar o primeiro trecho, que vai do início dele até o Largo Santa Cecília, algo em torno de um quilômetro quase, até o final do ano que vem.

R7: Especialistas apontam que o projeto do Parque Minhocão prevê especulação imobiliária. O que irá ocorrer com as pessoas excluídas do local uma vez que não podem pagar o valor do aluguel?

Covas: Por isso que eles estão desenvolvendo um PIU, uma intervenção urbanística para esta área. A Secretaria de Meio Ambiente está discutindo essa questão para que a gente evite esse processo de expulsão das pessoas. Bom lembrar que as pessoas que "vão ser beneficiadas foram as mesmas prejudicadas com a construção do Minhocão" – estou falando dos mesmos imóveis que podem ser valorizados agora e que foram desvalorizados no passado com a construção do Minhocão. Ainda assim a gente está discutindo a questão de habitação popular e habitação de interesse social nesta região para evitar um processo como esse. 

R7: A sua gestão determinou que as empresas contratadas para vistorias de pontes e viadutos assinassem um termo de confidencialidade, além de o fato de que o órgão queria vistoria urgente em 16 dessas estruturas. Quantos foram vistoriados? O que a prefeitura está fazendo para que outras estruturas não cheguem na situação que se encontrou o viaduto da marginal Pinheiros?

Covas: Foi para evitar o vazamento de laudos parciais inconclusivos. A gente não pode passar a sensação de insegurança para a população. Por isso, quem solicitou essa cláusula de confidencialidade, para que assim que o laudo for terminado e apresentado à prefeitura, a gente possa fazer a divulgação. Então nada vai ser escondido das pessoas. A gente vai dizer qual a real situação e para isso nós estamos contratando esses laudos. Esses 16 são do primeiro lote de contratação de forma emergencial, e uma outra licitação já está na rua. Os outros 17, completando os 33 que a gente elencou em 2017, já estamos fazendo a vistoria. Desses outros 40 (grupo total de 73), dois já se apontou necessidade de contratar de forma emergencial, e nós já estamos contratando de forma emergencial. Agora é importante ressaltar que nós estamos contratando esses laudos exatamente porque hoje nem a prefeitura nem a sociedade nem o Ministério Público sabem qual é a real situação dessas pontes e viadutos. Estamos colhendo o fruto de uma cultura de não manutenção dos equipamentos públicos de 465 anos de história. Então quer dizer isso tudo agora explodiu nesse momento, e agora vamos corrigir.

"Reeleição é consequência", diz o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB)

"Reeleição é consequência", diz o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB)

Edu Garcia / R7 / 26.03.2019

R7: A queda do prédio Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, irá completar um ano daqui dois meses. Na época, a prefeitura disse que iria fazer vistorias em 70 prédios ocupados. Quantos já foram vistoriados e qual a conclusão?

Covas: Todos foram vistoriados. Dois ou três, inclusive, as pessoas saíram de lá porque o risco era iminente que acontecesse algo assim. Nas demais, nós capacitamos as pessoas para que soubessem responder momentos como esse, tanto que meses depois nós tivemos um prédio ocupado que teve um incêndio, mas que foi desocupado a tempo, por conta deste curso de capacitação que a prefeitura deu. Então a gente fez esse trabalho preventivo e aprendemos a lição com o caso do Paissandu.

R7: A secretaria de Desestatização foi extinta, e hoje os projetos de concessão para a iniciativa privada são tratados na secretaria que aborda os respectivos assuntos. Com todos os projetos, qual a estimativa de lucro para a prefeitura?

Covas: A secretaria cumpriu o seu papel ao fazer isso. Então o que continuaria com o papel dela é cobrar as medidas das áreas fins para que dessem prosseguimento ao que já tinha sido levantado. — e essa é uma atribuição da Secretaria de Governo, que coordena o dia a dia da Prefeitura de São Paulo. Então não tinha sentido você ter duas secretarias exigindo ações dos secretários. Tudo isso agora está concentrado na Secretaria de Governo. Só com o Anhembi, temos um ganho para a cidade de R$ 3 bilhões. No Ibirapuera, estamos falando de R$ 650 milhões só de concessão. Os ganhos são muito além do que é simplesmente o valor de outorga, é um ganho para a cidade. No Pacaembu, quando a gente soma a outorga, o investimento que vai ser feito, a cobrança de imposto e o que a gente vai deixar de gastar lá também passam da casa dos R$ 700 milhões. O serviço público não precisa ser necessariamente prestado pelo poder público. Você pode ter um serviço público prestado pelo privado. Nenhum problema em relação a isso. É esse tipo de visão que norteia o programa de desestatização.

R7: Há um risco de ter um ritmo diferente, uma vez que são tratados em secretarias distintas?

Covas: Risco tem, mas você não teria como juntar numa só secretaria técnicos de áreas tão diversas como educação, obras e parques para poder cuidar desse processo. Então, nunca a secretaria foi pensada como um órgão para poder concentrar todas as ações de desestatização. Quem tocou a PPP da habitação, mesmo com a secretaria de Desestatização existindo, foi a Secretaria da Habitação. E é assim é o caso de todas as outras.

R7: O senhor disse que o dinheiro arrecadado com as concessões seria investido nas aéreas no Social. Quais foram as ações feitas até agora com esse dinheiro? Deram resultado?

Covas: Não só é uma promessa como também é lei. Quando o então prefeito João Doria criou o Programa Municipal de Desestatização, nós também criamos por lei a criação de um fundo obrigatório para esse recurso do programa, com destinação somente a educação, saúde, habitação, transporte, segurança e zeladoria. Então não se pode gastar para custeio e não se pode gastar para outras áreas que não essas. Quando a outorga entrar, aí a gente vai poder gastar em qualquer uma dessas áreas.

R7: O que o senhor aprendeu com o Doria? O senhor acha que as pessoas conseguem diferenciar a sua gestão da dele?

Covas: Essa parceria do setor público e setor privado foi uma das grandes apostas dele. Depois de tantos anos em falar de privatização era algo demonizado no país, ele fez uma campanha em 2016 prometendo privatizar e foi eleito em primeiro turno. Tinha aqui na cidade de São Paulo 200 praças cuidadas pela iniciativa privada, hoje são 1.200. Essa parceria com o setor privado, que é um pouco a origem dele, é algo que ainda está muito presente. Eu acho que é um grande aprendizado. E as mudanças foram basicamente feitas depois que ele montou o secretariado dele e levou para trabalhar as pessoas que ele queria.

Covas enfrentou tragédias com mortes diversas vezes durante período

Covas enfrentou tragédias com mortes diversas vezes durante período

Edu Garcia / R7 / 26.03.2019

R7: Mas você acha que as pessoas conseguem diferenciar sua gestão da dele?

Covas: Eu acho que a gestão é uma só. Eu sou eu e ele é ele, mas a gestão é uma só. Não teria sentido ter a gestão Bruno e a gestão Doria, até porque nós estamos falando do mesmo compromisso para com a população em 2016.

R7: Qual sua visão sobre o episódio que ocorreu no shopping Higienópolis, em que a administração do estabelecimento pediu à Justiça para retirar crianças de rua à força?

Covas: Não é simples você resolver esse problema de população em situação de rua. Inclusive, é uma grande contradição da mesma população que quer ver fora do caminho, também entende que você não pode desrespeitar direitos humanos. Essa não é uma questão simples, até que se fosse simples ela já estaria resolvida. Isso envolve a obrigação dos pais com os filhos. Isso envolve os direitos fundamentais garantidos na Constituição. Enfim, não é uma questão fácil de ser resolvida. O que significa que muita gente tem que se envolver para poder resolver a questão, é o setor público, é o setor privado, é o Judiciário, é o Ministério Público, para que a gente possa botar as crianças na escola.

R7: Qual foi o momento mais difícil em termos de gestão nesse período?

Covas: O momento mais difícil acho que foi a queda do Wilton Paes. Primeiro pela situação que já vivem aquelas famílias, praticamente sendo muitas vezes extorquidas para morar num lugar completamente irregular. Muitas vieram a falecer porque a porta estava trancada. Então você imagina morar em um lugar e que é obrigada a morar com a porta trancada. Quando aquilo pega fogo, rui, e quando as pessoas então vão ocupar a praça, a pressão que nós sofremos para mandar a polícia e a GCM para limpar a praça foi imensa, e a gente resistiu. Na base do diálogo nós conseguimos tirar um a um. Ali, então, acho que foi o momento mais difícil da gestão.

R7: E, agora, de olho na reeleição.

Covas: A reeleição é consequência do trabalho. Não adianta só olhar a reeleição, e deixar de governar a cidade de São Paulo. A preocupação não é a reeleição, e sim governar.