São Paulo Fome e sapato furado: a vida da professora de Etec que fez Harvard

Fome e sapato furado: a vida da professora de Etec que fez Harvard

Joana D’arc Félix de Souza passou fome, superou o racismo e hoje dá aulas de química para inspirar outros jovens da periferia

Joana D’arc Félix de Souza, professora de química com pós-doutorado em Harvard

Joana D’arc Félix de Souza, professora de química com pós-doutorado em Harvard

Divulgação

“Passei fome, calcei sapato furado, enfrentei o racismo, mas segui à risca o conselho do meu pai: estude e mostre que você pode ser muito melhor” e assim fez Joana D’arc Félix de Souza, professora de química na ETEC Prof. Carmelino Corrêa Júnior, em Franca.

Joana é formada em química pela Unicamp (Universidade de Campinas) e tem pós-doutorado na Universidade de Harvard, uma das mais conceituadas instituição dos Estados Unidos. Hoje, a professora de 54 anos dedica seu tempo às aulas de química no laboratório da escola técnica que fica na periferia da cidade.

“Passei fome, calcei sapato furado, enfrentei o racismo, mas segui à risca o conselho do meu pai"
Joana D’arca Félix de Souza

"Trabalho com alunos com baixo poder aquisitivo, adolescentes em vulnerabilidade social, que precisam de estímulo para não abandonar a escola. A iniciação científica cumpre esse papel: começam uma pesquisa e têm o desafio de chegar até o final."

As pesquisas têm apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e da iniciativa privada. Ano passado, os alunos foram premiados, em Nova York, pela criação do cimento ósseo – um tecido ósseo feito a partir de material encontrado na natureza: escamas de peixes e colágeno de curtume.

"Estamos desenvolvendo diversas pesquisas e o mais importante, conseguimos bolsas de estudos para nossos alunos. Isso é fundamental. Como uma pessoa pode pensar em pesquisar se não tem alimento? Essa bolsa contribui para reduzir a evasão escolar", conclui.

Toda produção científica dá continuidade ao trabalho iniciado na graduação, na Unicamp, com o uso de resíduos da indústria do curtume.

Joana dá aulas de química na ETEC Prof. Carmelino Corrêa Júnior, em Franca

Joana dá aulas de química na ETEC Prof. Carmelino Corrêa Júnior, em Franca

Arquivo Pessoal

Origem humilde

"Meu pai sempre me dizia para pesquisar sobre essas sobras, o que fazer com elas. Sempre convivi com a produção do couro e meu sonho era usar um jaleco branco, como via de longe nos curtumes", relembra.

Filha de pais semianalfabetos – o pai era operário em um curtume e a mãe empregada doméstica – a pequena Joana aprendeu a ler aos 4 anos de idade. Sem ter onde deixar a caçula, a mãe a levava para o trabalho e para a menina ficar quietinha, deixava em um quarto lendo jornais.

"Ela marcava as palavras com lápis de cor, me ensinou o básico, e eu ficava ali, lendo. Um dia, a patroa passou e me viu com os jornais. Achou engraçado e me perguntou se eu estava vendo as figuras, respondi que estava lendo. Ela não acreditou, riu e eu li um parágrafo perfeitamente. E ali ganhei a minha primeira oportunidade: estudar no Sesi."

No terceiro ano, por conta da distância, a família mudou a menina de escola, um colégio público, mas mesmo assim veio a triste experiência do preconceito. Joana lembra que sofreu com a diferença social e seu pai, em todo o tempo, a estimulou a enfrentar e seguir em frente.

"Nós só podíamos comprar roupas quando o meu pai recebia o 13º salário, então, quando chovia a gente tinha de colocar saquinhos de plástico para não molhar todo o pé, porque muitas vezes os sapatos estavam furados e as crianças não perdoavam. E meu pai dizia: estude e seja melhor que elas."

"Meu pai sempre dizia: estude e seja melhor que elas."
Joana D’arca Félix de Souza

Em outra situação, o racismo foi mais presente: "Minha mãe lavava roupa para fora no fim de semana, era um jeito de melhorar a renda da família. Eu e meus irmãos tínhamos a função de entregar para as patroas no domingo. Ingênua, passando pela concha acústica no centro da cidade, encontrei com colegas da escola. Estava segurando cabides e peças. Um deles me disse: - Sai daqui, negrinha. Não te conheço! E meu pai, mais uma vez, me disse para estudar e ser melhor.'

Início da vida acadêmica

Aos 14 anos, estudando com apostilas de cursinho emprestadas por uma professora, a menina passou no vestibular de química em três universidades pública: USP, Unicamp e Unesp. Sair de Franca não foi uma decisão fácil, principalmente pelas condições financeiras da família.

"Meu pai pagava um pensionato e o vale transporte. Eu tinha dinheiro para comer no bandejão (refeitório da universidade) na hora do almoço. Como o curso de química é período integral, não podia trabalhar. Nos primeiros meses, eu levava pãozinho e fruta que sobrava do almoço para comer no jantar. Dormi muitas noites com fome, mas não podia desistir."

A situação começou a mudar quando uma professora ofereceu vaga de monitoria no laboratório. O pagamento seria o transporte e o vale alimentação. No segundo semestre veio a bolsa de iniciação científica.

Professora e aluna participam das Olimpíadas Internacionais de química

Professora e aluna participam das Olimpíadas Internacionais de química

Divulgação

"Fiquei muito feliz com aquele dinheiro! Eu tinha vontade das coisas, mas não tinha dinheiro. Quando recebi a bolsa, fui até a padaria e comprei doces! Também conseguia mandar dinheiro para ajudar a minha mãe."

Joana seguiu com a vida acadêmica. Fez mestrado e doutorado na Unicamp pesquisando os resíduos de curtume e a química aplicada ao meio ambiente.

Conseguiu uma bolsa de dois anos para fazer o pós-doutorado em Harvard. "Mais um desafio a ser vencido. Nunca fiz um curso de inglês em escolas. Eu comprava as revistas com CD em banca de jornal. Os dois primeiros meses foram complicados, muitas vezes não entendi bem o que era dito, um colega espanhol me ajuda."

Pouco antes de terminar o curso, Joana teve de voltar ao Brasil. A irmã mais velha ficou muito doente e faleceu. Um mês e três dias foi o pai. Diante te tantas perdas, ela decidiu ficar no Brasil para cuidar da mãe e dos sobrinhos.

"Não foi fácil. Passei em um concurso para ser professora da escola técnica, mas estava muito triste por ter de abandonar o laboratório. Até que percebi que poderia pesquisar com meus alunos. Por que só doutor pode se envolver, estudantes de escola técnica também pode, por que não?"

"A educação é uma arma poderosa."
Joana D’arca Félix de Souza

E assim a professora segue colecionando prêmios e sendo exemplo de superação para os seus alunos. "A educação é uma arma poderosa. Hoje temos adolescentes que moram na periferia desenvolvendo pesquisas muito sérias como uma tinta bactericida para ser usada em hospitais e diminuir as infecções, por exemplo. Não me arrependo de ter voltado ao Brasil e sou muito grata pelas transformações de vida que vejo todos os dias."