Golpistas criam SAC e usam motoboy para roubar cartões

Fraude faz com que vítima acredite estar falando com seu banco

Uma ligação falsa no fim da tarde da terça-feira, 3 de outubro, e a entrega do cartão de crédito a um motoqueiro que fazia parte de uma quadrilha de golpistas colocou um engenheiro de Perdizes, na zona oeste de São Paulo, na lista de vítimas do golpe do motoboy, uma fraude que tem se espalhado na cidade.

O engenheiro, que pediu para não ser identificado, conta que teve um prejuízo de quase R$ 51 mil. Ele explica como foi a abordagem. “Um homem me ligou perguntando se eu havia feito uma compra de 3.850 reais em Campinas. Ele falou meu nome completo, meu endereço, tudo certinho e me disse que o meu cartão tinha sido clonado.”

O estelionatário se identificou como funcionário do setor de fraudes das bandeiras Visa e Mastercard e informou ao engenheiro que ele estava sendo lesado.“Você tem que ligar urgente no administrador dos seus cartões para cancelar e me pediu para ligar no número que fica na parte de trás do cartão.”

Assim que desligou o telefone, a vítima ligou para o telefone indicado no cartão.

Segundo o engenheiro foi informado posteriormente, o fato dele ter ligado rapidamente fez com que os estelionatários o mantivessem na mesma linha anterior. 

O golpe começou a funcionar somente quando o engenheiro fez a falsa ligação ao falso banco. Ele foi atendido por uma mulher que também fazia parte da fraude. Ela alegava ser funcionária do banco responsável pela conta corrente da vítima. “Eu acreditei que estava falando com o banco”, comenta a vítima.

O engenheiro completa. “Ela falou que eu tinha que cancelar o cartão e pediu para que eu falasse o número pausadamente a partir do bip. Ela pediu também a senha para que fosse cancelada. “Nós vamos mandar para o setor de fraudes do banco junto à Polícia Federal para investigar o chip.”

A falsa funcionária sugeriu que o engenheiro fizesse uma carta de próprio punho informando ao seu banco que ele estava sendo vítima de um golpe e ditou até o modelo que a vítima deveria seguir. “Você assina, põe o nome e o nome do pai e da mãe embaixo.”

A estelionatária pediu para que ele mandasse a carta e os cartões clonados para o endereço do banco e depois dele ver algumas dificuldades em mandar a carta ela ofereceu um mensageiro.

Entrou em vigor mais uma etapa do golpe, a parte que inclusive dá nome à fraude: a presença do motoboy.

O engenheiro foi transferido para um novo departamento no “telemarketing” da quadrilha e um homem deu informações a ele do mensageiro. O terceiro estelionatário criou com a vítima uma senha para que, por segurança, ele entregasse os cartões.

O código dos estelionatários para que ele continuasse a cair no golpe era 9701.

Minutos depois um motoboy foi ao endereço do engenheiro sabendo os quatro números.

A falsa funcionária ligou mais duas vezes dando informações sobre o motoboy. O engenheiro se encontrou com o quarto elemento da quadrilha e o descreve como moreno e alto, mas afirma que não saberia dar mais detalhes.

O crime só foi percebido pelo engenheiro no dia seguinte. Sem os cartões, foi a um caixa eletrônico efetuar um saque de R$ 300 com biometria e notou uma movimentação estranha em sua conta. “O banco me ligou, acho que posso acreditar que era o banco mesmo, perguntando se eu estava fazendo compras.”

Antes de o engenheiro terminar de contar a história, a funcionária foi enfática: “Você caiu no golpe do motoboy.”

Mais vítimas

Ao contar a história no 23º DP (Perdizes) na manhã da quarta-feira, dia 4 de outubro, o engenheiro se viu diante da mesma cena. Segundo a vítima, a escrivã afirmou: “Nem adianta dar detalhes que essa história eu já sei de cor”.

O boletim de ocorrência se limita a contar, resumidamente, a história e o engenheiro acrescenta que a policial civil que o atendeu não deu detalhes se a investigação seguiria adiante.

Os cartões do engenheiro foram cancelados, mas num prazo de um minuto, os estelionatários fizeram compras de R$ 15, de R$ 14 mil, e de R$ 9 mil, entre outras. “Eles compraram equipamentos de segurança e coisas relacionadas à informática e eletroeletrônicos ou eletrodomésticos.”

Depois do bloqueio do cartão, o grupo ainda tentou realizar mais três compras sem sucesso.

Quase um caso por semana

A reportagem foi ao 23º DP, onde foi registrado o boletim de ocorrência do engenheiro, e foi atendida pelo chefe dos investigadores, identificado como Wagner. O policial afirmou que os casos de estelionato são recorrentes na delegacia, mas não deu detalhes de investigação. Ele afirma que são feitos de 3 a 4 boletins de ocorrência do golpe do motoboy e diz ainda que nenhum suspeito foi preso pela fraude.

Faude renovada

Moisés dos Santos, diretor de riscos da bandeira Visa comenta que o golpe do motoboy foi detectado há pelo menos dois anos e conta que afirma exige mais criatividade do que sofisticação tecnológica. “É um golpe que ilustra muito a capacidade de inovação do fraudador aqui no Brasil, mas do ponto de vista da tecnologia ele é simples, não acessa informações criptografadas, quebra redes, faz invasão de sistemas.”

O especialista comenta ainda possíveis táticas adotadas pelos estelionatários. “Nós já vimos casos em que o fraudador interceptava o armário de telefonia da rua da vítima e assumia o controle da linha, mas é bem difícil de acontecer. Neste caso da reportagem não dá para descartar a hipótese deles se manterem na mesma ligação todo o tempo.”

Segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), a fraude “usa de artimanhas de engenharia social, ou seja, técnicas de persuasão que abusam da ingenuidade da vítima para obter informações”. A instituição acrescenta ainda que os bancos investem anualmente cerca de R$ 2 bilhões anuais em sistemas e ferramentas de segurança da informação.

O delegado aposentado Manoel Camassa, especialista em fraudes e ex-titular da delegacia de estelionato da Polícia Civil, conta que não há mistério nos golpes. “Tudo o que está acontecendo hoje já aconteceu há algum tempo. Este tipo de crime fica com uma nova roupagem, uma nova tática, mas no fundo o golpe é o mesmo. A pessoa vai passar os dados e cair no golpe”. Ele acrescenta. “Este é o mesmo golpe que acontecia há 10, 15 anos em que o caixa eletrônico não funcionava e ele falava com telefone com os meliantes.”

Bancos dizem investir em segurança

Em nota, o Itaú, banco em que o engenheiro entrevistado pelo R7 tem conta, afirma que “investe fortemente em segurança e utiliza todas as ferramentas e canais disponíveis para orientar clientes a se protegerem contra fraudes. Todos os casos são analisados cuidadosamente, levando-se em conta detalhes das transações e as circunstâncias em que elas ocorreram. O banco continua divulgando em todos os seus canais dicas de segurança para que os cliente não sofram golpes.”

O banco Santander acrescenta que “orienta seus cliente a adotarem as melhores práticas de segurança, como não fornecer dados em ligações recebidas, e-mails, SMS e nos caixas eletrônicos, nunca aceitar ajuda de estranhos.” Procurados, Bradesco, Caixa e Banco do Brasil não se manifestaram sobre o golpe.

Em nota, a Mastercard afirma que não é responsável pelo "atendimento dos clientes referentes aos cartões, aprovação de envio de cartões, efetivo envio dos cartões aos clientes dos bancos, emissão de faturas e cobranças, questões relacionadas à aquisição de bens ou serviços, compras, retornos, devoluções de mercadoria". A empresa ressalta que "não possui informações pessoais dos correntistas, sendo essas de propriedade exclusiva dos  emissores dos cartões."

Nenhuma instituição informou o total de golpes do tipo que detectou neste ano.

A empresa de telefonia Tim afirma que "quando o usuário desliga a chamada no aparelho, a ligação é encerrada via sistema na central, sem possibilidade técnica de que continue em andamento". Procuradas, a Claro e a Vivo não se pronunciaram.

O R7 também questionou a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) sobre como o novo golpe vem sendo investigado e se estelionatários que usam a tática já foram presos na cidade. Até o fechamento desta reportagem não houve resposta.